AMEI A MIM, A TI E A MADONNA COMO QUEM AMOU A DEUS – por Jair Cozta

Meses antes do episódio que se segue, escrevi:

“desta vez, olho a rua vazia pela janela. próximo de onde estou toca aquele DVD insuportável do Zezé e do Luciano. eis que vem a náusea do fracasso no amor de um lado versus o êxito de se estar vivo do outro. penso: a arte e o amor fracassam. talvez a música que toca seja a trilha adequada para acompanhar um pensamento como este. sorri pela vida.”

 

Soprando longe a fumaça do cigarro barato, ele me contou que, às vezes, vagava em alma. Vagava como uma onda sonora, como um som que, de tão invisível, se espalha imperceptível ao olho, propagando-se como luz e firmando-se na eternidade do tempo. O som não foi criado para ser plenamente entendido pela razão. Nem o homem o fora. Em verdade, nem sabemos se fomos criados ou se apenas surgimos com a naturalidade que há no caos. Quem nos dirá que o caos não é Deus?

Tento agora e com certo esforço me lembrar por que ele vagava. Não sei se vagava ou divagava – ele dizia que vagava e eu, àquela hora da noite, divagava nas minhas profundezas. Naquele momento eu me encontrava em uma mesa de bar, rodeado de amigos recém residentes de meu universo, o tal infinito particular, mas me encontrava tão em mim, tão comigo, que era a solidão. Não há solidão maior do que a que encontro em mim, quando me olho de fora para dentro. É uma calma triste e contente.

Há noites que saio de casa e assumo a forma de ouroboros. Eu sou um metamorfo, essas criaturas que assumem outras formas quando amam, que morrem de amor e renascem da mesma imaterialidade desejosa. Por isso mesmo tatuei o ouroboros na perna e sonho com ele, a cobra que engole a própria cauda, eterna autofagia.

O céu cabe no paraíso ou crer que o céu em um inferno cabe – é o amor. Seria este o encontro casual de Madonna com Lope de Vega, duas criaturas distantes no tempo, no espaço e na existência. Jamais se viram, mas se encontram e se conhecem dentro de mim, enquanto divago em mim mesmo naquela mesa do melhor feijão verde da cidade.

Meu mais novo amigo narrava para mim sua busca. Uma busca mais ou menos como não ditos, qualquer coisa que não sabemos dar nome. Buscava, quem sabe, a própria cauda. Era uma fênix aquele rapaz. Já tinha morrido algumas vezes e renascido como Benu. eu o entendia como quem entende a Deus – olhando para dentro de si e vendo o reflexo do outro espelhado nas salgadas águas da alma.

Eu estava plasmático. Meu silêncio é um grito em G10, em voz absoluta. Nunca estou em pleno silêncio. Sempre tenho uma palavra cantada que espanta. Não vivo um instante sequer de silêncio, apenas hiatos de notas audíveis e inaudíveis. Estou sempre cantando, quase nunca contente. Isso é estar vivo. Estou sempre comigo.

Naquela mesa, enquanto tocava uma música qualquer que não me lembro, mas tratava-se de um som agradável, talvez Belchior na voz de Elis… não sei. Talvez eu queira que seja a voz de Elis repetindo a poética do querido Bel me dizendo que eu vivo como minha mãe. Sabendo disso, lembro que preciso quebrar essa aberração de servir de projeção para alguém que pode viver por si, ser minha própria composição, criar meu próprio arranjo em meus genuínos acordes – utópica? Eu sou e não nego. Vivo em ridículas utopias e talvez sejam essas utopias que me façam estar rodeada de amigos e não amargando um copo de cerveja em uma mesa de quatro lugares com três deles vazios – embora seja bom amargar consigo. Na mesa eu contei nove pessoas e eram dez. Tinha eu e eu esqueci que eu me acompanho, que nunca estou plenamente só porque eu tenho a mim e eu sou o que me resta e nunca saberei afirmar se isso é feliz ou infelizmente. O destino se encaixa direitinho no karma. O que damos retorna para nós; ganhamos o que merecemos. Quem cantou isso foi Beth Gibbons, mas Madonna fez o mesmo e cá estamos repetindo num novo arranjo.

Eu lembrei do dia em que fui mais feliz. Vivo fugindo dessa lembrança porque o choro cansa, às vezes. Não é que eu não goste de lembrar do dia em que fui mais feliz, mas quando lembro, vejo a distância em que me encontro de um novo dia no qual serei mais feliz. Passo meus dias tentando reinventar uma felicidade fictícia para não viver graças à lembrança do dia mais feliz da minha vida, nem em função dessa felicidade passada, mas tento viver pelo agora, pelo instante que me relembra como tudo é efêmero. Como tudo é mínimo, minúsculo… e terrivelmente lindo.

Depois de me ouvir, terminei minha noite com um poema, quase um sijô de bar, cantado em G10:

 

a calma da onda do mar

meu espírito seria

a paz do voo de uma garça

a tranquilidade do vento da manhã

se me dissessem que Deus é simplesmente

o teu sorriso àquele dia.

 

Este texto foi concebido ao som de músicas de Daiqing Tana, Jaloo, Adriana Calcanhotto, Luedji Luna, Pabllo Vittar, Duda Beat, Illy, Madonna, Massive Attack, Loreen e Jhonny Hooker.

 

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é, antes de tudo, artista em exercício e ativista LGBTQIA+. É revisor e redator de textos em língua portuguesa e concludente do curso de Bacharelado em Letras da Universidade Estadual do Ceará. Atua, desde 2016, como Produtor Cultural no Cineteatro São Luiz Fortaleza, equipamento da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, já tendo trabalhado na área em outras instituições e outros projetos culturais. Foi Coordenador de Difusão e Programação da Rede Cuca, equipamento vinculado à Prefeitura Municipal de Fortaleza. É idealizador do primeiro Festival de Canto de Fortaleza, realizado em 2017 e 2018

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