Almino Affonso

A vida é arte do encontro
Embora haja tanto desencontro pela vida

Vinicius de Moraes, O samba da benção

Penso que os deuses se comprazem mais em promover desencontros do que encontros. Mas, nas fimbrias dos seus caprichos é possível a boa-venturança de encontros que enchem a alma de sentimentos jubilosos, proporcionam lições inesquecíveis e mostram nuanças até então nunca percebidas.​Foi numa dessas possibilidades que encontrei Almino Affonso, um estadista nesta terra brasiliense atualmente tão carente de estadistas.

Numa longa conversa a três, arquitetada pelo professor Fernando Passos, um gentil acadêmico das terras de Araraquara, Affonso demonstrou, além da profusão de gestos cavalheirescos, que é, concomitantemente, um arquivo dinâmico do passado recente, um observatório agudo do presente e um prospectivista de tempos menos perigosos para a democracia, o desenvolvimento econômico e a justiça social. Observador e conhecedor profundo da natureza humana, do alto das suas nove décadas vividas, fala com autoridade das virtudes e males destes brasis, que descreve, analisa e interpreta “sine ira et studio”, e disserta com conhecimento de causa sobre os homens e mulheres que realizaram, realizam e, quiçá, realizarão a política brasileira.

Affonso é autor de vários livros, entre os quais, Raízes do golpe: da crise da legalidade ao parlamentarismo (1961-1963), Parlamentarismo e governo do povo, e Polianteia: Almino Affonso, tribuno da Abolição, este tratando da vida do seu avô paterno, político com destacada atuação no movimento abolicionista do Ceará e Rio Grande do Norte. Mas, é no volume intitulado 1964 na visão do ministro do Trabalho de João Goulart, que pontifica como agudo memorialista do processo político que se desenrolou nos seguintes cinquenta anos ao golpe de 64, brutalidade que tanto sofrimento lhe causou e ao Brasil. Amazonense, com bacharelato na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, líder estudantil, deputado federal pelo Amazonas, eleito em 1958 e 1962, liderança do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) na Câmara dos Deputados e ministro do Trabalho do governo Joao Goulart na plenitude presidencialista, é a sua trajetória antes do golpe. Depois, doze anos de exilio, durante o qual, no Chile, trabalhou na Organização Mundial do Trabalho e dirigiu a Facultad Latinoamericana de Ciencias Sociales (FLACSO). De volta ao Brasil em 1976, foi, depois de recuperados os direitos políticos, vice-governador do Estado de São Paulo, deputado federal constituinte também por São Paulo e um dos pró-homens da política paulista depois da redemocratização, reiniciando a trajetória partidária no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), prestes a ser extinto pela reforma de 1979.

Iniciada a vida política, ainda como estudante, nas lutas nacionalistas, a começar pela campanha “O petróleo é nosso”, Affonso abraçou o trabalhismo e tornou-se um cavaleiro andante em busca, nos anos 1950 e 1960, das reformas de base (agrária, administrativa, tributária, bancária, universitária e política).

Durante o governo JK, por conta da política econômica em que se levava em boa monta as pressões do Fundo Monetário Internacional, surgiram movimentos de oposição à esquerda, como a Frente Parlamentar Nacionalista, a qual uniu os setores progressistas de vários partidos políticos – inclusive do Partido Social Democrático (PSD) e da União Democrática Nacional (UDN) – e da qual Affonso se tornou um dos líderes. À época, juntamente com, entre outros, os deputados federais Bocaiúva Cunha, Doutel de Andrade e Fernando Santana, todos do PTB, fundou o Grupo Compacto. Foi, pois, no trabalhismo e no nacionalismo que Affonso orientou as suas energias políticas contra a espoliação do capital estrangeiro, o predomínio das oligarquias e a estagnação econômica, e, enfaticamente, a favor das tais reformas de base. Eram os tempos da “fantasia organizada”, na expressão de Celso Furtado.

A conversa com Affonso – atendo-se sobretudo à quadra do Estado desenvolvimentista e do populismo como regime – foi um repassar de personagens, em que cada um é o próprio personagem e a sua circunstância: Jango, Leonel Brizola e Miguel Arraes; o economista Celso Furtado; os generais Castello Branco, Amaury Kruel, Justino Alves Bastos e Ladário Pereira Teles; os deputados federais Ranieri Mazzilli, Abelardo Jurema, San Tiago Dantas, Francisco Julião, Josué de Castro, Adauto Lúcio Cardoso, Bocaiúva Cunha, Doutel de Andrade e Rubens Paiva; o senador Arthur Virgílio (pai). E os “chilenos” Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Tiago de Melo, Maria da Conceição Tavares, Pablo Neruda e Ricardo Lagos, isto é, as personagens – brasileiras e chilenas – com quem mais interagiu durante o exílio no Chile. Não sei se me engano, mas aquilatei nas entrelinhas respeito pelo general Castello Branco, admiração intelectual intensa por San Tiago Dantas (PTB-MG) e Josué de Castro (PTB-PE), e afeto também intenso pelo mesmo Castro, o estudioso da fome, e Rubens Paiva (PTB e MDB-SP), a vítima dos porões da ditadura.

Recuperando mentalmente e de forma recorrente a conversa, dou-me conta de que faltaram alguns personagens sobre os quais não houve tempo para ouvir Affonso, tal como o embaixador Lincoln Gordon, os generais Jair Dantas Ribeiro e Antônio Machado Lopes, os pessedistas Tancredo Neves e JK, o ideólogo trabalhista Alberto Pasqualini, o socialista Hermes Lima… Mas, o mais marcante, é que na descrição, análise e contextualização de fatos e personagens, Affonso às vezes é cortante e duro, mas não destila qualquer ressentimento nem se encastela em posições ideológicas fechadas. Pelo contrário, não julga, mas compreende; não prescreve, mas descreve e analisa. Agora, resta a esperança de que os deuses dos encontros sejam capazes de sobrepujar os deuses dos desencontros, favorecendo nova oportunidade de ouvir Affonso sobre as grandezas de poucos, as grandezas e misérias de vários e as misérias de muitos dos atores e atrizes da política brasileira.

Filomeno Moraes

Cientista Político. Doutor em Direito (USP). Livre-Docente em Ciência Política (UECE). Pós-Doutor pela Universidade de Valência (Espanha).

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