ÁLCOOL

Jaime Soares gargalha daqui até à lua. Hoje, o seu pai, a quem como alimento deram sobretudo ruindade, põe os pés ao caminho para deixar o álcool. A pele brilha, mal se senta para conversar com o pai sobre uma daquelas decisões que mudam vidas. Não cabe em si de contentamento. E acreditou que algum dia tinha de acabar. Não se vê como bruxo, mas previu sempre que o seu pai deixaria o álcool. De facto, o seu pai começou a beber com 14 anos. Era o que se fazia. Aliás, todos à mesa lhe diziam que bebesse cada vez mais, que lhe dava força. O exemplo vinha de cima e no dia-a-dia os seus pais enchiam-lhe o copo até transbordar. Observando-lhe o sorrisinho de orelha a orelha, é caso para dizer que ficará com o dia de hoje gravado no coração. É o dia em que o pai consumiu álcool pela última vez. Admirava-lhe as mãos.

Jaime Soares lança um abraço ao pai. Após anos de berraria respira correctamente com o diafragma. Na verdade, quer falar às pessoas acerca dele sem recear o que pensam. Ninguém se lembrará de o seu pai, borrachão, chegar a casa todo mijadinho. Esgota-se parte da sua ruindade. O seu pai fica mais calmo e valoriza alguns elementos e pormenores que não lembram a ninguém. A decisão de suspender o consumo de álcool concede-lhe um olhar novo. Mas não é nascer de novo. Isso fá-lo feliz. Jaime Soares tinha em mente as imagens da porta do quarto que se fechava por o pai ressacar. Afastava-se como um bicho-do-mato. Já conhece bem o vício e a porta fechada do quarto. E sabe que o andamento dele provinha da bebedeira. À mesa das refeições e ao balcão de qualquer café gente puxando por ele. Sabes que era um inferno, não sabes? Agora vê que ele se faz mais sossegado, menos importante. Já reparou que a ruindade ganhou tudo, menos a guerra.
Os pais do seu pai sofreram horrores. Calos na mão. Viam-se encostados à parede. Jaime Soares percebe que um copo de vinho à refeição é aceitável. E percebe que a família, para se conhecer e dar bem, precisa de uma série de águas. Tudo acaba e, às vezes, é bom ter razão. Ele vai começar uma série de consultas. A educação severa dos seus pais rasgava-o até ao tutano. Amigos da onça havia às carradas. E amigos do peito, não. Era sempre uma sede do caralho. O pai separa-se do jugo dos seus pais e Jaime Soares sabe que é assim. Só pode ser assim, por forma a resultar. De um momento para o outro, Jaime Soares confirma que nada é impossível. O seu dia faz, então, piadas sob a graça de Deus.

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Jaime Soares

Jaime Soares nasceu a 14 de Janeiro de 1987, em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas (Português/Inglês) e mestre em Estudos Anglo-Americanos (Literatura e Cultura), pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2016, foi-lhe atribuída uma bolsa pela Associação Luso-Britânica. Por um período de um ano trabalhou no CETAPS (Centre for English, Translation, and Anglo-American Studies), Universidade do Porto, ajudando a desenvolver actividades culturais e académicas como, por exemplo, seminários com docentes e escritores, assim como sessões de cinema. Jaime Soares apresentou algumas comunicações em conferências no Porto, em Braga e em Boston (neste último caso, in absentia). A revista da Don DeLillo Society inclui um artigo da sua autoria intitulado “Don't blame the players, blame the 'system': a systemic reading of Don DeLillo's The Names” (2017). Em 2018, ganhou o Prémio Literário Germano Silva com a obra A cor verde (edição Editorial Novembro). Atualmente trabalha na indústria têxtil e lê e escreve nas horas vagas.

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