Ajustando as contas com a lei – CLAUDER ARCANJO

— Miau… zzz… sss… miau… *…=…#… miau… fsiu…zzz…

— Que cachorrada é essa? — Foram as palavras do delegado, recebendo-nos na Delegacia de Plantão, em Fortaleza.

Quando o delegado Peçonha deu com os olhos no Nabuco, corrigiu-se:

— Melhor: que saco de gato é esse, seu Florisval?

Florisval, caro leitor, era um dos guardas que nos trouxeram para o ajuste de contas com a lei. Um caboclo cearense, medindo quase dois metros de altura por dois de largura. Um guarda-roupa vestido com a farda da Polícia Militar, se posso bem descrevê-lo.

— Qual a denúncia? — inquiriu doutor Peçonha.

— Abuso contra a autoridade, desrespeito à ordem pública… E, no caminho, maus-tratos aos animais.

Neste momento, o delegado pôs os olhos no felino. Nabuco era a própria imagem de quem há pouco fora atropelado por um ônibus lotado em plena avenida. As orelhas baixas e amassadas, o rabo todo pisado, os olhos marcados por sinais evidentes de agressão, o couro unhado. Mas o bichano não moveu seus lábios. Apesar de quase não se manter sobre as quatro patas, permaneceu altivo e silente.

Como o delegado percebeu que Nabuco não daria com a língua nos dentes, partiu para interrogar Carlos Meireles. Este, frouxo como poucos, com as pernas trêmulas, foi logo disparando:

— Vim apenas receber esses dois no aeroporto, e olhe no que eles me meteram?

Como Carlos Meireles, a falar com ar de choro, ia se escondendo por detrás do “guarda-roupa” Florisval, Peçonha advertiu-o:

— Mantenha-se dentro das calças, cabra medroso!

Enquanto ordenava:

— Florisval, leve-o para junto do escrivão. Diga a ele para pegar seu depoimento, bem como os dados pessoais. Em seguida, faça com que pague a fiança e libere-o.

Carlos Meireles ajoelhou-se frente ao Peçonha, fazendo as vezes de beijar-lhe a mão. Ao perceber seu intento, o delegado alteou o tom de voz, admoestando-o:

— Você nem se atreva! Beijo de macho aqui no Ceará dá um azar dos diachos!

Carlos Meireles foi conduzido para uma saleta contígua, onde seria colhido o seu depoimento.

— E quanto ao gato…

Antes que ele concluísse, Nabuco miou sua “moção” de protesto.

— Chame-o pelo nome, senhor delegado! Este felino é nobre, um ser deveras racional e pensante — disse-lhe Companheiro Acácio.

— E este filho de uma gata tem nome? E gato aqui tem direito a registro? — disparou Peçonha, já incomodado com aquele circo na sua delegacia.

Acácio cofiou o bigodinho e, com habilidade, continuou:

— Se a autoridade me permite, gostaria de lhe apresentar Nabuco, meu melhor amigo.

Ao falar, notei que Acácio me olhava de esguelha, a me provocar.

— E você, então, me sugere que eu colha a oitiva do Nabuco? — inquiriu o delegado, com o olhar em lampejos de fúria.

— Como um zeloso guardião do arcabouço legal, o nobre delegado não deixaria o seu inquérito incompleto, deixaria?! Caso não exista aqui nenhum especialista no dialeto miau-miau, eu posso desempenhar a referida função ad hoc — insinuou-se Acácio.

— E o senhorio, tão folgado e metidinho, como se chama? — interrogou-o o delegado, com o dedo em riste.

— Muito prazer, senhor delegado Peçonha, sou seu criado, Companheiro Acácio.

— O grande Companheiro Acácio, o Sherlock Holmes de Licânia?! Não acredito! Não, sinceramente, é muita sorte minha! — extravasou, como se diante de um mito.

O delegado foi depressa oferecendo a Acácio a melhor cadeira, assim como a lhe servir um café fresquinho.

— Quem diria, eu, Peçonha do Rego, recebendo na minha humilde delegacia o meu detetive preferido, o famoso Companheiro Acácio?! Sabia que já li O Fantasma de Licânia mais de quinze vezes? É o meu livro de cabeceira. E, antes que me esqueça de lhe pedir, dê cá um autógrafo para mim. E outro para o meu primogênito, Maurício também é seu fã de carteirinha. Não vejo a hora de lhe mostrar os autógrafos.

Com pouco, Peçonha levantou-se, gritando para a sala vizinha:

— Ô Florisval, Florisval!? Venha rápido, homem de Deus, bata uma foto minha com meu ídolo! — Cuidando de arrumar a gravata, ajustar o paletó e passar a mão nos cabelos sebentos e desalinhados.

Eu, ao canto da saleta, ergui a mão direita, a solicitar a palavra.

Eles, em papo de íntimos, nem deram por mim. De repente, o escrivão entrou na saleta, a anunciar:

— Pronto, senhor Peçonha, colhi o depoimento da testemunha Carlos Meireles dos Anjos. Trata-se de um inocente. Proponho até dispensá-lo do pagamento da fiança. Posso liberá-lo?

— Homem, tudo não passou de um mal-entendido. Dê-me aqui o depoimento da testemunha.

Ao receber as páginas impressas e assinadas, Peçonha rasgou-as, dando o caso por encerrado. Com um sorriso de orelha a orelha, ele foi apresentando Acácio a todos na delegacia.

Eu, no canto, a mão direita outra vez erguida, a pedir a palavra.

— E este senhor, Florisval? De quem se trata? — perguntou o delegado ao assistente.

— Doutor, esse era um dos tais envolvidos no desrespeito ao decreto do lockdown.

— Você o conhece, detetive Acácio? É amigo seu? — quis saber Peçonha.

Companheiro pôs-me os olhos frios e respondeu:

— Meus amigos são Nabuco e Carlos Meireles. Quanto a esse indivíduo, sugiro interrogá-lo. Se me permite a intromissão, colega Peçonha, há nele um ar de perigoso meliante.

A minha vista escureceu. E um grito saiu das minhas profundezas, a ecoar pelas dependências do prédio; enquanto Florisval me arrastava para o interior de uma cela imunda:

— Acácio, seu filho de uma égua! Eu te criei para me morder, foi? Feito uma cobra, filho de uma égua?! Acácio!…

 

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Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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