A trágica e gloriosa ocidentalização do mundo Mediterrâneo

Daqui, vislumbro as belonaves de João da Áustria e Saladino empenhados em mudar o curso dos eventos na trágica ocidentalização do mundo Mediterrâneo.

Andei a recuperar cortinas envelhecidas ao sopro das brisas do mar. Enquadrei as janelas que me trazem a suspeita de terras distantes para os lados da África e emoldurei a paisagem de remotas fantasias às visões domesticadas por constantes leituras. 

Daqui, de meu posto de observação sobre os feitos civilizatórios mediterrâneos, construídos pela imaginação, abro os 40 centímetros de vista livre sobre o mar, que a especulação imobiliária bondosamente me concedeu, e me reporto aos feitos de Saladino e a persistência dos Cruzados na salvação da fé e da civilização ocidentais. 

Do Meireles, distingo,  muito além, a pedra de Gibraltar, e os caminhos da seda. Romanos e visigodos, cristãos e berberes em longa e desvelada corrida missionária para, ao fim e ao cabo,  deixarem o que estamos a desconstruir com os argumentos renovados da dialética pós-moderna…

Durante anos a fio, lancei meu olhar de mouro expatriado na rua da Assembleia, nos domínios dos Mendes de Almeida, ali próximo ao Arco do Teles, para o Cristo Redentor.  Mal supunha eu, dominado pela ignorância com a qual nós brasileiros enxergamos o mundo, que nas lonjuras das distâncias que vinham após o Redentor e a Tijuca, pairava, eternizada, Meca e toda a insuperável carga de fé e revelação muçulmanas.

Fiz essa descoberta por acaso. Em simpósio que reunia todas ou quase todas as tribos descendentes do Profeta, em um assomo grandiloquente de Candido Mendes, fui  assediado por um grupo de fatimíadas (quem sabe seus dissidentes?) que  me pediam para estender os seus tapetes de oração em meu gabinete de trabalho. Explicaram-me pacientemente que, pelas suas cartas de navegação, Meca, a cidade santa do Corão, ficava para depois do Largo da Carioca, em linha direta sobre o Cristo Redentor. Minha sala fora privilegiada por Alá como passagem única para os lugares Santos da Revelação.

Cedi aos apelos daqueles homens de fé, que nunca fui cruzado exaltado pela fé cristã ao ponto de dar combate e causar dano de crença e esperanças aos filhos de Maomé.

E lá  se estenderam  aquelas hirtas criaturas em genuflexão sobre os seus tapetes milagrosos. Três vezes ao dia, segundo a prática milenar.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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