A semana que não terminou

O Modernismo foi um toque de alarme. Todos acordaram e viram perfeitamente a aurora no ar. A aurora continha em si todas as promessas do dia, só que ainda não era o dia. Assim, abrindo o longo debate, Mário de Andrade definiu o Modernismo inaugurado no Brasil com a Semana de Arte Moderna.

Formo como aqueles que consideram o evento um marco fundador de um novo Brasil nas artes, marco que contará cem anos no mês de fevereiro como um divisor de águas na história cultural do país. Ao fim e ao cabo, queira-se ou não, o acontecimento de 1922, em São Paulo, marca o início definitivo do que se define como Modernismo na literatura, nas artes plásticas e na música popular brasileiras, sem fechar os olhos, por óbvio, para o que há de contraditório e (pasmem!) conservador em tudo o que ocorreu nos dias 13, 15 e 17 no principal palco artístico da cidade faz, como disse, cem anos.

Surpreende, pois, que já sejam significativos os artigos publicados nos grandes jornais contra o movimento, numa espécie de revisionismo tardio e mal alinhavado do que representa para diferentes áreas da criação artística e intelectual o evento que se deve tomar como referência para os avanços estéticos havidos a partir daí. No mais das vezes, agarrando-se a preconceitos que dizem combater, esses articulistas tentam, sem o conseguir, o que o mais importante dos modernistas brasileiros já o fez em conferência histórica, na Casa do Estudante, vinte anos depois da Semana: levantar pontos positivos e negativos do que foi ou se deve julgar essencial na iniciativa de 22. Foi Mário de Andrade, um dos papas do Modernismo brasileiro, quem melhor analisou os traços fundantes do pensamento artístico implantado entre nós a partir da Semana de Arte Moderna: a disposição (desejo?) de atualizar as letras nacionais.

Mas isso, dirão, importando ideias nascidas nos grandes centros da Europa. Ora bolas, tomar esse fato como argumento contra a Semana de Arte Moderna é ignorar o que foi mesmo o seu sentido maior (e que Oswald de Andrade definiu como antropofágico): a capacidade de ressignificar linhas estéticas e proposições de pensamento vindas de fora à realidade brasileira, não macaqueando o que nos era estranho, mas identificando o que havia nisso de ‘universal para universalizar’ a nossa arte ou redimensioná-la em diferentes linguagens. Como bem observou Mário da Silva Brito, em História do Modernismo Brasileiro (Civilização Brasileira, 1997), frise-se, sem renegar o sentimento brasileiro: “Afinal, o que se aspirava era tão-somente a aplicação de novos processos artísticos às inspirações autóctones, e, concomitantemente, a colocação do país, então sob notável influxo de progresso, nas coordenadas estéticas já abertas pela nova era”.

Para os patrulheiros de plantão, por certo predispostos a emitir mau julgamento acerca do que escrevo sobre o centenário da Semana (e voltarei a fazê-lo nas próximas colunas), cumpre-me evidenciar que não desconheço o que houve de ruim por trás da realização do movimento, a simpatia pelo fascismo, por exemplo, de que foram acusados muitas vezes os Andrades  —  leve-se em conta que as raízes do ideário de direita referido remonta a fins do século XIX, sustentando-se no enfrentamento do materialismo, do racionalismo e da democracia. Mas é a dimensão estética da Semana de 1922 de que me ocupo e me ocuparei nas próximas colunas, reitero.

É na perspectiva do estético, por isso, que reafirmo o meu entusiasmo com o ideário de 22. Sob este aspecto, não me parece razoável desqualificar o que houve a partir de São Paulo, há cem anos, em variadas frentes e em diferentes momentos históricos: as contribuições de Oswald de Andrade, escolhido como objeto de ojeriza por muitos dos críticos da Semana, são inegáveis em muito do que houve de mais expressivo na música popular brasileira (o Tropicalismo), nas artes plásticas (a obra de Hélio Oiticica, Lygia Clark e outros), no teatro (a montagem da peça O Rei da Vela, do próprio Oswald de Andrade, por José Celso Martinez Corrêa) e no cinema (a cinematografia de Glauber Rocha), para citar os mais conhecidos.

“Burguês, racista!”, ainda dirão, passando ao largo do que se deve tomar por “estético”. A esses, recomendo a leitura dos dois manifestos: da Poesia Pau-Brasil, de 1924, e Antropofágico, de 1928, além, claro, do romance experimental Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de 1933, em que se podem apoiar para emitir julgamentos mais isentos e que façam justiça ao talento  criador de Oswald de Andrade. Ah, se puderem, ainda, leiam a sua obra poética, o que talvez exista de mais denso do ponto de vista estético e menos polêmico politicamente falando.

Quanto à Semana de Arte Moderna, voltaremos ao tema depois.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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