A Semana de 1922: vieses contraditórios

 

A legitimar o que difundem os entusiastas da Semana de 1922, pode-se ver, é grande o debate em torno do que representou para a Cultura brasileira o evento ocorrido há redondos cem anos em São Paulo. Se é verdade que suas figuras centrais estavam à procura de notoriedade — na linha do que afirmam articulistas de prestígio, a exemplo de Ruy Castro e Luís Augusto Fischer  —, o que em parte considero procedente (e compreensível!), ao centralizar opiniões as mais divergentes, que vão do simples festejo às críticas contundentes e exploração de birras entre seus realizadores, a Semana de Arte Moderna obtém o reconhecimento daquilo que lhe foi essencial: promover a revisão dos valores por que se norteia a formação de nossa identidade enquanto nação. O que não é pouco, convenhamos.

A desmerecer a qualidade da polêmica, todavia, a constatação de que muito do que se tem produzido sobre a Semana, artigos, releituras, conferências, mesas-redondas etc., o vezo brasileiro de pensar o passado sob a ótica da atualidade, o que resulta num tipo de anacronismo que se distancia do que constituiu a pauta de seus realizadores em fevereiro de 1922. Além de representar um equívoco de natureza epistemológica, claro.

À esquerda, capa do catálogo da exposição da Semana de 1922. À direita, cartaz criado por Di Cavalcanti

——————————————-

Não estamos com isso fechando os olhos para algumas contradições internas do movimento, nem desprezando o conteúdo crítico de intelectuais importantes como Monteiro Lobato, Manuel Bandeira e Graciliano Ramos, para quem, refiro-me ao último, a Semana de Arte Moderna ressentiu-se de uma preocupação com a realidade social do país: “Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.” De fato, levada a efeito por intelectuais endinheirados, a Semana de Arte suscita desconfianças sempre que o referencial de análise se circunscrever ao prisma político-ideológico, ainda que alguns de seus realizadores nutrissem nítida simpatia pelo ideário marxista. Oswald de Andrade, por exemplo, filiar-se-ia ao Partido Comunista pouco depois da realização do evento. Patrícia Galvão, a Pagu, artista e intelectual de quatro costados (desenhista, poeta, tradutora etc.) era comunista de carteirinha.

O comentário do autor de “São Bernardo”, por sua vez, parece não atentar para o fato de que a Semana de 22 representou antes de tudo o pontapé inicial do que havia em suas entranhas de mais valioso: a abertura de novos caminhos para a arte brasileira, até então acantonada nos limites estéticos do convencional, na pintura, na arquitetura, na escultura e, sobretudo, na literatura, em que pese o que já haviam feito de transformador autores como Machado de Assis e Lima Barreto, por exemplo.

Nesse sentido é que o próprio Graciliano Ramos viria poucos anos depois da Semana de Arte Moderna, ao lado de gente como José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado (o caso de Érico Verissimo deve ser considerado à parte) compor na prosa de ficção o que se convencionou chamar de segunda fase do modernismo brasileiro, marcada, como é sabido, por um engajamento político que, não sem razão, pode-se rotular de neonaturalista  — com tudo o que isto representa: denúncia da exploração do homem pelo homem, combate ao latifúndio, escolha de pessoas marginalizadas como figuras centrais do enredo etc. Na poesia, lembremos, a pleno sol, a essa altura, despontavam nomes como os de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, rompendo com as amarras do passado estético e ideológico anterior a 1922.

Aprofundar o debate sobre o que ocorreu em São Paulo há cem anos, portanto, requer menos entusiasmo de qualquer perfil, laudatório, sobretudo, e mais sensibilidade de pesquisa,  capacidade de contextualização histórica e senso de medida na atribuição de rótulos de qualquer ordem no que diz respeito ao ideário em torno do qual militaram os mais importantes intelectuais, artistas e jornalistas brasileiros da época.

Emitir juízos contaminados por interesses de ideias, simplesmente, ignorando a natureza dialética do que move as coisas da inteligência em qualquer campo, na arte, inclusive, não me parece saudável num momento como este. Aliás, em momento algum, pois que constitui, sem o saber muitas vezes, um  tipo de censura que fere o que se deve tomar como essencial na vida intelectual e artística do país.

É nesse sentido, reafirmo, que não se pode deixar de festejar o centenário da Semana de Arte Moderna de 22, de reconstruir e interpretar suas marcas fundamentais com honestidade e, atributo indispensável da boa crítica, segundo T.S. Eliot, poeta, dramaturgo e crítico do modernismo literário de que não se deve prescindir, “inteligência”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.