A Rosa do Povo, o eu e o outro

75 anos de “A Rosa do Povo”, o mais elevado momento da poesia brasileira contemporânea e um marco do engajamento político do autor.

– O encontro do sujeito com o objeto se dá pelo trabalho da linguagem: o colunista tece considerações sobre  A Rosa do Povo (1945), de Carlos Drummond de Andrade.



Um flor nasceu na rua! (…) É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Uma das questões mais caras à teoria da literatura é a complicada relação entre o sujeito e o objeto. Nesse sentido, se na prosa ficção é mais fácil compreender que existe um abismo a separar o escritor de suas personagens, na poesia essa distinção torna-se mais desafiadora. Exemplifico: quando lemos Dom Casmurro, é-nos fácil separar Machado de Assis de Bento Santiago, muito embora tenham sido numerosas as análises que se dispuseram, criminosamente, a confundi-los, como se o ciúme que conduz o protagonista do romance à ruína familiar trouxesse para o campo da literatura as contradições e os conflitos pessoais do autor. Na poesia, por outra, a distinção entre o eu-lírico (a personalidade criada) e o eu-autoral (a personalidade criadora) é sempre mais complicada, havendo recorrente tendência, mesmo entre os especialistas, de procurar explorar a índole do ser criado a partir do que se sabe sobre o ser criador.

Aristóteles (385-323) já nos advertia, na Poética, de que a “poesia é mais filosófica e mais verdadeira do que a História, pois a poesia exprime o universal, e a História o particular”. Isso quer dizer que a História se prende aos fatos ocorridos, enquanto a poesia se estende ao campo do possível. Vou além: estendendo-se ao campo do possível, a poesia amplia o universo do empírico e faz com que todos os fatos cheguem até nós através do sentimento lírico.

Faço essa sucinta introdução a fim de tecer considerações sobre o livro A Rosa do Povo (1945), de Carlos Drummond de Andrade, cujo aniversário de 75 anos comemora-se em 2020. Mais robusto dos livros do poeta de Itabira-MG, do ponto de vista volumétrico (55 poemas ao todo), este é também o mais robusto volume do ponto de vista estético, formando um conjunto poético de qualidades formais e conteudísticas poucas vezes alcançadas na literatura brasileira.

É nesse sentido, pois, que gostaria de ressaltar o que sobressai no livro como linha de força de maior importância artística: a passagem do particular para o universal, ampliando o real na extensão do verossímil. Contraditoriamente, por curioso, a voz ampliada do poeta, do eu-lírico, para ser mais preciso, através da qual se expressam todos os homens, parte da realidade mais individual, a solidão do poeta no ato de produzir poesia.

Mas quem é esse sujeito no qual o objeto faz explodir o sentimento poético? O poeta, no caso Carlos Drummond de Andrade? O ser criado, esse “sujeito” ficcionalizado pelo qual o autor expressa sua emoção? Ou o leitor, que na experiência da leitura ouve essa voz como a sua voz?

A resposta possível está na aceitação de que sujeito e objeto nunca são coisas estanques, e de que o encontro dos dois se dá pela linguagem.

O poema que exprime a realidade do objeto, os acontecimentos dramáticos da Segunda Guerra Mundial, em Visão 1944, por exemplo, um dos mais importantes do livro, expressa 1. a angústia do poeta mineiro (cuja biografia constitui testemunho em favor do homem solidário e humanista que foi), 2. a do eu artisticamente inventado, cuja percepção da realidade se amplia pela força da poesia enquanto objeto artístico, que se desprende do fato real dando-lhe maior dimensão, 3. e o leitor, que na experiência da recepção acrescenta, suprime ou modifica o fato real, a um só tempo individualizando-o e tornando-o universal, isto é, comum a outros homens.

Pode-se dizer, assim, que o poema atravessa o mundo e é, ao mesmo tempo, atravessado por ele. O estudioso alemão Emil Steiger dá para essa fusão um nome certeiro: “Um-no-outro”, como a nos dizer que é equivocada a tentativa de separar o que não pode (ou deve?) ser separado, o individual do coletivo, o particular do universal. Na linguística, por exemplo, identifica-se na poesia a existência de uma função a que se deu o nome de “outrativa”, a capacidade de colocar-se no lugar do outro.

Carlos Drummond de Andrade, com A Rosa do Povo, dá-nos o mais perfeito exemplo dessa passagem do eu subjetivo para o eu universal, como a fazer um chamamento em favor de um mundo em que o sentimento de amor ao próximo se consolide pela prática da ação social, do enfrentamento de todas as formas de dominação e de todos os mecanismos que impeçam o homem de ser sujeito de sua história.

Como se pode ver, na perspectiva do Brasil hoje — e do mundo! —, publicado há 75 anos, A Rosa do Povo é leitura mais que recomendável em face dos dramáticos inimigos que temos para enfrentar. Que o diga, com todas as letras, o próprio poeta ao homenagear, no livro, Chalie Chaplin: “Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo, crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores, ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e esperança.”

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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