A quarentena de Acácio, por CLAUDER ARCANJO

Sexta-feira, final de abril. Recolhido há quase dois meses, sou forçado a sair para comprar a minha medicação.

A pandemia que se instalou no mundo fez-me um ser ainda mais isolado em Vitória. Com os aeroportos contaminados, restou somente cobrir-me com paciência, e aguardar a situação melhorar. Não poderia retornar tão cedo, com segurança, para a minha província. Convicto da pertinência da precaução, bem sei, isso por si só não me fazia menos saudoso. O sol era-me um companheiro bisonho, visto por trás das grades da janela do hotel. A lua, a se amostrar majestosa no céu de outono, apenas me carpia o peito de exilado sertanejo.

Pois bem, estava assim, quando percebi que os meus comprimidos para controle da pressão arterial acabaram. Cercado de mil cuidados, ganhei a rua em busca de uma farmácia. Com máscara no rosto, luvas nas mãos, álcool gel no bolso, entrei na primeira que encontrei.

Mantendo a distância recomendada, dirigi-me à atendente, solicitando a medicação.

Quando aguardava o retorno da balconista, escuto uma voz conhecida, apesar de nasalada, à entrada do estabelecimento.

— Acácio?!… — indaguei-me.

Era o Companheiro, reconheci. Apesar de vestido quase como um astronauta.

Está trabalhando numa agência espacial? Ou está de mudança para Marte? — espetei-o.

Algumas pessoas presentes não esconderam o riso por trás das máscaras que portavam.

Quando quis dele me aproximar, uma ordem dura interrompeu meus passos:

— Mantenha distância — alertou-me.

Com o intuito de quebrar o gelo daquele reencontro, agora na condição de dois isolados pela pandemia, brinquei:

— Que tal escrever na frente do seu capacete:Mantenha distância? Isso facilitaria a vida dos que de você se aproximassem, Companheiro. O perigo é ser confundido com a traseira desses caminhões velhos que cortam as nossas estradas.

Acácio me jogou uma mirada de recriminação, enquanto voltava os passos no sentido da rua. Não sem antes avisar-me:

— Não vim assistir a uma comédia de piadas bizarras, estou à cata de fármacos. Melhor procurar outro estabelecimento.

Dei-me conta da deselegância e interrompi-o, a manter dois metros de distância.

— Não se vá, amigo! Peço-lhe desculpas pelos maus modos. É que este isolamento social está a me roubar o juízo.

— Que nunca foi lá grande coisa! — devolveu-me.

As nossas máscaras se mostraram estufadas, pois caímos em gaitadas francas e escrachadas.

Passado o frouxo da risadaria, pedi que ele me acompanhasse:

— Quero que você conheça, Companheiro, o local onde me escondo do coronavírus.

Seguimos em direção ao hotel, a uma quadra de onde nos encontrávamos.

Entramos e subimos para o quarto. Mal entrou, pediu-me uma toalha limpa, um sabonete novo, e meteu-se num banho demorado; não sem antes verificar se tudo estava devidamente higienizado.

Relaxe! Aqui você está seguro. E outro detalhe: já fiz meu exame e estou imunizado ao maldito vírus.

— E por que saiu à rua de máscara? — indagou-me, de chofre.

— Porque não quero perder tempo com explicações, Companheiro! É sempre bom você se manter na onda do momento. E, na atual, a moda é portar máscaras. Além do mais, passo a ideia de um cidadão consciente, zeloso consigo e com o próximo.

Ele cofiou o bigodinho bem aparado, a matutar dois dedos de silêncio.

Pedi que ele se sentasse na cadeira que havia próximo à escrivaninha, e entramos a conversar sobre assuntos vários. Curioso, logo assuntei:

— E onde e como você resistiu a tão longo período de recolhimento, Acácio?

Ele olhou para os lados, com receio de que houvesse alguma testemunha, e confidenciou-me:

— Ontem, fiquei sabendo que a… como eu poderia dizer?, minha musa capixaba deu positivo no teste ao corona. Ou seja, ela está infectada. Como li uns versos para ela, e os soprei no calor da cama, suspeito de que a contaminei com meus poemas. Sem falar que, nas noites de confinamento, líamos contos de Machado de Assis, assim como apresentei para minha inspiradora, e cuidadora, os versos de Cecília Meireles, de Vinicius de Moraes, de Drummond…

— E vocês, além da leitura, passaram a demonstrar, entre os lençóis, tudo aquilo que liam?

Ele, mais uma vez, passou a vista por todo o ambiente, baixou o tom de voz, quase como se a me confidenciar:

— Não quero entrar em detalhes. Você bem sabe o quanto sou tímido. Contudo, amigo, nunca vivi um isolamento tão… tão… como poderia lhe traduzir esse período?

— Tão libidinoso e profano? — completei.

Ele baixou a face lívida e se entregou:

Sim. Até lhe apresentar uns poeminhas de amor rasgado. Amigo, quando ela os leu, nem lhe digo, me pôs para fora de casa, a gritar-me, a plenos pulmões: “Maldito, tanto amor, para rabiscar coisinhas tão chinfrins?!…”

Calamos. Eu, em solidariedade ao sofrido amigo, confesso, não tripudiei de tão poética desventura.

Preparei-lhe um café, havia uma pequena cafeteira elétrica comigo. Pus a mão sobre o seu ombro, em solidariedade, e servi-lhe numa xícara grande.

De repente, Companheiro retirou do bolso da camisa um papel amassado repleto de versos, abandonando-o sobre a escrivaninha.

Curioso, levei o olhar para aquela página, pois ansiava por conhecer a veia lírica acaciana.

— São essas as românticas estrofes que você leu para a sua musa? — indaguei-o.

Acácio, com seu jeito maroto de bezerro novo desmamado, aquiesceu:

— Sim.

Quando passei a ler os poemas, interrompi-me e disparei:

— Mas estes poemas são meus!…

— Sim, eu bem o julgava mau poeta, ClauderArcanjo! E a minha musa não resistiu aos seus versinhoschinfrins.

Pus Companheiro Acácio para fora do meu recanto, quase aos pontapés.

— Safado. Amigo de uma figa! Se apoderar dos meus versos e… Ficarei sozinho. Melhor só do que mal acompanhado.

E você, leitor traquinas, não ria. Não ria!

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

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