A peleja do diabo com o dono do céu

A música popular brasileira é enormemente rica em suas expressões. Fomos capazes de inventar algo que mundialmente deu certo. Do lundu ao samba, da capoeira ao maracatu, da bossa-nova ao mangue-beat. Neste terreno, tudo em se plantando, dá.

O tempo presente brasileiro, com suas inquietações sociais e contradições políticas, impele-nos sair em busca de sentidos para podermos entendê-lo um pouco mais além de sua aparência e das manipulações midiáticas. Nosso cancioneiro, com sua profundidade poética e intuição profética, aponta para símbolos e situações reveladores do que se encontra por debaixo dos panos.

Zé Ramalho da Paraíba compôs, em 1980, uma magnifica canção intitulada A Peleja do Diabo com o Dono do Céu. Vejamos alguns dos seus versos: Com tanto dinheiro girando no mundo / Quem tem pede muito / Cobiçam a terra e toda a riqueza / Do reino dos homens e dos animais / Cobiçam até a planície dos sonhos / Lugares eternos para descansar / A terra do verde que foi prometida / Até que se canse de tanto esperar / É a peleja do diabo com o dono do céu //.

Em nossa jovem democracia, com seus 27 anos de idade, na qual a Constituição Cidadã foi promulgada em 05 de outubro de 1988, temos o retorno da soberania popular como elemento fundamental. Cada cidadão-cidadã soberano reconquistou por meio da luta política o direito de definir o sentido de nossa vida democrática, mediante o sufrágio universal livre. Por outro lado, simultaneamente ao ressurgimento da soberania popular, criaram-se as condições para novos e múltiplos arranjos partidários, diferentemente do bipartidarismo imposto pela ditadura militar, como ferramentas legais de representação política, uma vez que é impossível que a totalidade dos cidadãos de nossa nação reúna-se em praça pública para deliberar sistematicamente sobre o contrato social, como sonhava a mente brilhante de Rousseau.

E é aqui que a peleja começa. Por que? Em primeiro lugar, nossa jovem democracia é herdeira de uma cultura política fortemente autoritária e elitista, na qual as decisões de poder costumam, desde a proclamação de nossa república, a não levar em consideração o clamor da vontade geral. Em segundo lugar, nossa sociedade está culturalmente fundamentada numa relação desigual e vertical seja do ponto de vista territorial quanto do ponto de vista social, onde os donos do poder econômico tratam “os pretos e os pobres como podres”, no dizer de Caetano Veloso e Gilberto Gil, em uma de suas belas canções. Por último, a cultura individualista fomentada por uma sociedade de mercado, incentiva por meios estruturais e simbólicos o açodamento da competitividade onde o sentido de “cidadania” reduz-se meramente ao consumo material pessoal. O importante é competir, diz o lema das Olimpíadas, uma das maiores expressões culturais do globo. E nessa competição política e econômica, vale tudo, até cobiçar desmedidamente toda a riqueza da terra. Não importa se a terra vai mal e se milhões de humanos vão ainda pior. O importante é que nessa competição utilitarista o eu-individual seja vencedor.

Portanto, os partidos brasileiros estão longe de representar a soberania popular. São feudos dos donos do poder agrário, industrial, midiático e financeiro, nos quais os vassalos professam a cartilha da concentração de riqueza e do descaso com as populações e minorias. O embate que vem em evidência, a cada dia que passa nas manobras de um congresso imoral, é a luta pela reforma política. O poder fundante de uma nação encontra-se no povo reunido capaz de definir e orientar a vida política daquela sociedade. Diante da peleja política que adentramos, no qual o sistema de partidos perdeu seu prestígio e a autoridade política não representa mais os anseios, necessidades, desejos e projetos dos cidadãos soberanos, somente a convocação de uma assembleia constituinte para fins específicos de refundar o sistema político brasileiro, eleita soberana e livremente pelos cidadãos, reunirá condições de dar um novo rumo e uma nova autoridade à vida política de nosso país.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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