A ORAÇÃO QUE ELA FICOU ME DEVENDO, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Quando percebi, ela já caminhava em minha direção, cruzando, numa diagonal fechada, a rua de calçamento de pedra tosca que, há muito tempo, reclamava a manutenção institucional que jamais virá, apesar do imposto que pagamos à sempre perdulária gestão pública.

Suspendi o que fazia, pus a enxada numa posição quase perpendicular ao chão que ora capinava, recostei-me no seu cabo de madeira e, numa posição claramente defensiva, aguardei.

Ela avançou, empurrando a bicicleta, aproximou-se o mais que pôde, chegando tão perto que, de imediato, senti-me acometido por incômodo “farnizim” nas vias aéreas, causado pelo forte cheiro do perfume barato que ela usava. Segurei o espirro da forma que pude.

Com o olhar fixo em mim, cumprimentou-me:

Bom dia, irmão!

Bom dia, irmã! – respondi quase num ato reflexo.

Posso lhe fazer uma proposta?

Faça-a. – E eu continuava apoiado no cabo da enxada. E ela não largava o guidão da bicicleta.

Enquanto me esforçava para me manter no diálogo, pus-me a, com olhares rápidos mas perscrutadores, tentar construir um perfil de minha interlocutora: altura mediana e porte físico aparentemente saudável, embora deixasse transparecer uma certa tristeza, algum sofrimento ou desesperança; a tez morena clara, o rosto um pouco ovalado, os lábios carnudos, o nariz com leve achatamento, os olhos e cabelos de um negrume a lembrar as penas da graúna de Alencar, o colo amplo e dadivoso, os seios fartos e a cintura denunciando algumas gravidezes. Não tinha menos de quarenta anos. Vestia-se com uma bermuda de jeans azul desbotado que não chegava a encobrir os joelhos, uma blusa de tecido grosso, com estampa a meu ver extravagante, em que predominava o vermelho sangue de boi. As pernas roliças. Nos pés, um tênis branco, sem meias.

E ela então me propôs:

Faça comigo uma oração ao bondoso Senhor Deus de todos nós.

Confesso que me surpreendi. Jamais esperei por isso.

Como assim?! A senhora pretende orar, aqui, agora?! E ainda me convida pra isso?!

E por que não? O senhor tem algo contra?

Lógico que não. – Procurei me recompor. – Mas algo me perturba, senhora, ou dizendo melhor, trata-se de uma situação que me exige… me exige, eu diria um entendimento. Por favor, qual é mesma a sua profissão de fé, a sua seita, a sua religião.

Eu sou adventista. E o senhor?

Católico não praticante.

Como assim?! Agora pergunto eu.

Toda a minha formação religiosa se fez no catolicismo, desde os meus saudosos pais. Ocorre que, há alguns anos, eu deixei, por razões que não convém aqui discutir, de cumprir alguns mandamentos da Lei de Deus. Até a Bíblia já não mais a revisito. Perdão para os meus pecados – que são muitos, vários e até recorrentes –, eu costumo pedir diretamente a Ele (apontei o indicador para o alto), nas minhas orações antes de me recolher ao leito dos justos.

Irmão, não se engane, muitas são as tribulações que ainda hão de vir…

Será, irmã, que já não bastam as que nos atormentam hoje em dia?!

E ela sorriu, levemente. Sem sequer revelar a alvura dos dentes.

Bem, amigo. Devo ir-me. Já vi que o senhor é mesmo duro na queda. Que Deus o faça reencontrar o caminho da Salvação.

Assim seja.

E aquela mulher, surgida do nada, retomou a sua caminhada com a mesma naturalidade, com a mesma tranquilidade. E eu a acompanhei com o olhar de ceticismo e incredulidade. Ao longe, tão logo o terreno se fez plano, ela subiu naturalmente na bicicleta e, sem olhar para trás, sumiu na primeira esquina.

E uma dúvida desassossegou as minhas desgastadas sinapses: que tipo de oração uma mulher adventista, caminhando sozinha por uma estrada de pouco movimento, pode compartilhar com um velho católico não praticante, circunstancialmente entregue a uma solidão de momento e disposto a capinar a entrada de sua casa? Ainda não consegui decifrar essa charada.

Quando reiniciei a capinagem, vi um ciclista surgindo da mesma esquina em que a mulher desaparecera. Reconheci-o. Pertence a uma família que sempre residiu numa vila de casas simples, há poucos passos do muro lateral do sítio. Nós nos conhecemos há mais de três décadas. Ele chegou a participar das saudáveis e saudosas peladas dos sábados à tarde no campinho de areia hoje abandonado. Dirigi-me a ele que parou a bicicleta sem dela descer.

Paulo – este é o seu nome –, você sabe quem é aquela mulher que cruzou com você depois daquela esquina?

A morena que ia de bicicleta?

Sim. Essa mesma.

Por quê? Ela tentou alguma coisa com o senhor?

Apenas me propôs orar ao “bondoso Senhor Deus de todos nós”. Ela disse ser adventista.

Adventista coisa nenhuma! Ela é uma pilantra! É a chefe de um cabaré que um ricaço de Fortaleza mantém num sitiozinho ali pras bandas do…

Nos dias de hoje, ainda existe isso, cara?

Ora, ora. Existe sim. Nos fins de semana e feriados, eu queria que o senhor visse o movimento. Muitos carros importados. Só gente de muita grana. O lugar é conhecido como casa de shows. Mas, na verdade, é um cabaré. E a morena é a poderosa chefona.

Não acredito, amigo. Ela me pareceu ser uma pessoa tão…

Educada. Dizem que é assim, com educação e muito charme, que ela conquista as pessoas. Principalmente idosos desprotegidos. Ganha a confiança deles, oferece os serviços de sexo gratuito e, quando assume o controle da situação, liga pros comparsas que logo aparecem e fazem a limpeza completa.

É mesmo, amigo?!

É. Comentam que ela já foi até presidiária. Só que tem as costas largas. Agora, eu acho que ela percebeu que o senhor é osso duro de roer. – Sorriu.

Paulo, não é bem assim. Apenas eu me faço ser respeitado porque sei respeitar os outros. Tenho consciência do que me é de direito. E por isso luto até as últimas consequências. Mas jamais avancei no direito do outro. Você me conhece, não é amigo?

Sim. Não apenas eu, mas muita gente por aqui…

Subiu na bicicleta e se foi. Antes, ainda me advertiu:

Cuidado com certos tipos de proposta!

Fique tranquilo!

E ao cabo da enxada confidenciei:

Quanto à oração que ficou me devendo, espero que um dia ela me pague. Adventista!

Luciano Moreira

Luciano Moreira

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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