A menina dos olhos verdes

Naquela noite Phanta estava sentindo algo diferente no ar. Não se tratava apenas de experimentar-se bem consigo mesmo e com o momento presente. Algo de misteriosamente leve e suave lhe percorria pela seiva. Sentia-se feliz, um misto entre a alegria irreverente dos carnavais com o êxtase sereno de retiros espirituais contemplativos. Mas não sabia explicar se era devido a uma causa passada, presente ou de algum porvir.

Como sempre nesse último período, ele esteve ministrando alfabetização de adultos aos moradores da Ilha do Inferno, uma pequena ocupação insular fluvial desconhecida das pessoas e das instituições. Como Bacurau, a ilha não aparece nos mapas, nem nas reportagens da TV. Ela apenas acontece. O acesso àquele Inferno não era tão fácil assim. Dava-se por meio de uma porta estreita. As pessoas tinham que ter coragem e muito equilíbrio ao atravessar todos os dias uma ponte bastante precária, sempre em concordância com a maré. A qualquer vacilo poderiam ser levadas pela correnteza e afundarem nas águas sujas daquele braço de rio. E se não soubessem nadar, sucumbiriam, pois poucos estão dispostos a se besuntar na lama para salvar alguém se afogando. Como aconteceu com Margarida, salva por um garoto de quem ninguém sabe o nome, por acaso passava por ali.

Os encontros de alfabetização se davam sempre às noites de maré baixa, sob a luz de candeeiros, porque na maré alta a águas costumavam visitar os interiores dos barracos. A maioria dos alfabetizandos era formada por adultos pescadores e pescadeiras de mariscos naquela região. Havia algumas organizações populares que davam suporte por meio de projetos educacionais e desenvolvimento de arranjos microeconômicos. Phanta fazia parte do grupo de um projeto de educação de adultos. Estava vibrando com o avanço do seu coletivo. Os homens em sua maioria tinham muita dificuldade no domínio do lápis, ao exercitarem a coordenação motora fina; já as mulheres tinham de enfrentar o cansaço da jornada de trabalho acumulada, na pesca e com os afazeres nos barracos. Mas todos estavam bastante envolvidos em suas conquistas de leituras do mundo.

Naquela noite de maré alta, Phanta saiu só. Não foi dar um passeio no parque, nem havia um encontro marcado. Estava deixando-se guiar pelo acaso, até chegar num barzinho aconchegante e conhecido. O clima transpirava muita leveza. Sentou-se à mesa de um grupo de amigos. Logo em seguida, passou para a mesa de outra galera que lhe solicitou sua presença. E assim, por boa parte daquela noitada, Phanta ia de mesa em mesa, a contagiar com sua alegria, em plena maré alta.

Porém, algo lhe chamou atenção: tinha uma forte sensação de estar sendo seguido por um olhar, a cada passagem de mesa. Parou para observar o entorno. Depois de algum tempo, finalmente identificou a dona dos olhos verdes que o seguia atentamente. Desconcertado, no primeiro momento ficou sem saber o que fazer. A respiração ficou mais intensa, o pulso mais veloz. Procurou recuperar-se a si mesmo diante da novidade. E resolveu dirigir-se até à dona dos olhos verdes. Para sua surpresa, logo que se sentou à sua mesa, nada disseram um ao outro com os lábios. Comunicaram-se em profundo silêncio apenas com o olhar fulminante do fundo dos seus olhos. Passo a passo, um universo desconhecido estava sendo desnudado. Olhos nos olhos: um sorriso. Olhos nos olhos: um beijo. Olhos nos olhos: um abraço. Olhos nos olhos: uma paixão. Uma noite, uma maré alta, um feixe de olhares reluzentes. Assim a noite passou. Desde então, Phanta nunca mais voltou a encontrar a menina dos olhos verdes. E quando a maré baixou, voltou aos encontros pedagógicos com seus alfabetizandos adultos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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