A linha é sempre tênue – por JESSIKA SAMPAIO

Nunca consegui me dedicar ao papel de fã como vejo por aí. Não sei muito sobre os pormenores, a referência indiana antiga que tem no lado esquerdo superior do disco do início da carreira que só tem 227 cópias ou a cronologia detalhada com a lista de todas as drogas usadas pelo ídolo. A coisa que mais me apego é ao que sinto quando vejo/ouço/leio. O sentir para mim sempre é crucial e Rita lee é um dos maiores ícones que me faz sentir dentro desses trinta e poucos anos de existência. Ela me faz pulsar as cicatrizes, mas pera, deixa eu explicar a relação que tenho com minhas cicatrizes: elas contam minha história e é isso.

Tenho muitas! Sempre fui uma criança espritada (inquieta e danada), uma adolescente estabanada e uma adulta meio sem medo de cicatrizes. Rita Lee fala com cada uma das marcas que tenho: a brincadeira com o fogo e o pacote de Miojo® que me queimou o pé, o tobogã que rasgou o outro pé, a faca de pão que quase me fez perder o dedão da mão, a cicatriz no rosto que por pouco não me leva um dos olhos e as inúmeras cicatrizes nos joelhos por andar no meio-fio, mania que tenho até hoje.

Para mim, o meio-fio sempre foi uma grande aventura. Na infância pelo fato de ser difícil de fazer e no início da juventude por testar a sobriedade, mesmo em completo estado de embriaguez.

Mas, Jessika, pelamordedeus, o que tem a ver ser fã | Rita Lee | meio-fio e as tuas cicatrizes? Se eu parar pra pensar, nada. Posso estar querendo esticar a baladeira (forçar uma situação) só pra caber no tema da crônica. Só que, na verdade, tem tudo a ver!

Sou uma boa fã de embriaguez e meio-fio, uma boa fã (na minha concepção de fã) de Rita Lee e essa maravilhosa/deusaMor do rock nacional/vozinha fumante vegana/de língua afiada, sempre gostou da ideia do meio-fio, inclusive, canta uma música com esse nome. Para os fãs de plantão, a música foi escrita pelo Roberto de Carvalho e Arnaldo Antunes, tá?

Voltando… Quantas vezes viajei escutando “Onde quer que eu vá |Levo em mim o meu passado |E um tanto quanto do meu fim |Todos os instantes que vivi |Estão aqui |Os que me lembro e os que esqueci…”? Não sei. Mas até hoje paro para apreciar esse momento e lembro das vezes que testava a embriaguez na estrutura de concreto.

Ele tem lá suas funções arquitetônicas, mas se abrirmos a mente para filosofar, ele é a linha do equilíbrio. Aquilo que separa a seguridade da calçada com a lama e o perigo dos carros e motos, aquilo que faz o pneu reduzir em caso de acidente e tenta salvar o pedestre. Manter-se “protegido” por ele é manter a consciência na seguridade. Sabe-se da linha do perigo, mas não se anda nela.

Eu, pisciana, meio sem juízo, dada à embriaguez e tentativas de testar meus limites, amava/amo (?) o meio-fio. É a ideia de ter na minha frente a linha tênue entre o seguro e conhecido e a situação de mais uma vez forçar meu corpo a produzir glóbulos brancos para estancar o sangue e colágeno para fechar o machucado e criar uma nova cicatriz.

Eu num falei que quando a gente quer, consegue fazer relação e as coisas fazerem sentido?

Testem se testar. Andar no meio-fio, ver o limite dessa linha é muito bom. Não importa se depois as cicatrizes vão aparecer, testa.

… “Carrego minha morte |E o que da sorte eu fiz |O corte e também a cicatriz | Mas sigo meu destino |num yellow submarino |Acendo a luz que me conduz e os deuses me convidam | Para dançar (uhuuu) no meio fio |Entre o que tenho e o que tenho que perder |Pois se sou só, eu só flutuando no vazio |Vou dando voz ao ar que eu receber

Pra ficar comigo |Corro, salto, me equilibro entre minha neta e minha avó |Fico firme, sigo adiante ante o perigo |Vejo o que me aflige virar pó”.

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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