A Linguagem e a Sociedade

A linguagem é um fenômeno central da sociabilidade e do desenvolvimento cognitivo, situada no âmago da hominização, é parte da filogênese. Peter Burke (1937 – vivo), debruçando-se sobre a história social da linguagem, escreveu “A arte da conversação”, assinalando a variedade dos interlocutores, do meio social e dos assuntos tratados. A linguagem e as formas de interagir variam conforme se escreva um tratado científico, converse informalmente na intimidade ou nas relações formais e outros aspectos. Quem escreve uma tese deve ser parcimonioso na adjetivação. Quem faz propaganda, tende a afastar-se da observância do rigor lógico e da fidelidade aos aspectos objetivos e recorre aos adjetivos.

É comum a queixa de que os ânimos estão exacerbados e os conflitos espreitam as diversas formas de interação. Conflito é pretensão resistida. As redes sociais são lembradas como origem dos confrontos. A presença dos interlocutores poderia inibir a agressividade, explicando os embates virtuais pela ausência física das partes. Muitos, porém, são os conflitos presenciais. A perda da civilidade; o uso da linguagem chula; a supressão das formalidades; o relativismo axiológico e cognitivo; a mudança cutural que banalizou os mores propiciou o desrespeito e a agressão.

Reciprocamente, a tentativa de forçar a mudança cultural promoveu a ideia de intolerância “legítima” como forma de transformar os costumes havidos como opressivos, na forma da exigência do que é concebido pelos aspirantes a tutores da sociedade como correto.
O debate político, a discussão acadêmica, o diálogo informal e todas as formas de interação tornaram-se conflitivas. A crítica é necessária ao desenvolvimento cognitivo, ao avanço da ciência, ao exercício legítimo do múnos público. A boa conversa deve ser uma busca da compreensão das razões do outro e de dar a conhecer as suas próprias razões, não uma competição para consagrar um vencedor e humilhar um suposto perdedor. É frequente, porém, ouvirmos alguém dizer que “fulano é o tal e que ninguém ganha dele”, como se tal fosse o objetivo de um diálogo.Interromper um debate técnico, teórico ou uma conversa erudita dizendo “não fale mal de fulano”, referindo-se a um autor ou a uma pessoa pública que estava sendo analizada é a decadência da educação. Pessoas minimamente escolarizadas deveriam saber distinguir ataque de análise crítica dos aspectos epistemológicos, históricos, sociológicos, políticos, econômicos. É de bom alvitre não fulanizar o estudo de temas. Mas a análise de teorias e obras de autores deve examinar os méritos e deméritos de autores e personas públicas. Igualmente deplorável é quando o debate prossegue contornando o exame de aspectos essenciais ao objeto de análise, como é o caso dos indicadores que revelam a realidade factual, quando a reflexão precisa deles, como os temas econômicos, demográficos ou ligados a educação dentre outros. Os modos civilizados não tornam menos deplorável tal atitude.

Thomas Samuel Kuhn (1922 – 1996) considerava, com razão, os paradigmas de ciência como incomunicáveis. Acrescente-se: agravada por fatores estranhos aos paradigmas. A dificuldade de comunicação atual tem a contribuição da impregnação inconsciente da sociedade por versões vulgares de paradigmas teóricos e pela repulsa ao rigor metodológico. Os intelectuais são mais acometidos pela cegueira dos paradigmas. O senso comum é mais aberto, mas conflitos estranhos aos marcos teóricos debatidos podem ser a pretensão ou a resistência oculta geradora do conflito.

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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