A face tupiniquim do nazismo

Aos que se deixaram impressionar pela mobilização golpista de agora, a que se soma um bloqueio de estradas que já deveria ter levado à cadeia seus idealizadores, não é muito lembrar o que a História nos conta.

Hitler, a exemplo de seu duplo tupiniquim, era carismático, mítico, tinha convicções e conhecia a natureza do comportamento coletivo. Não havendo as redes sociais, lançou mão de mecanismos de propaganda que inspiraram o que se define hoje como publicidade moderna.

Com reparos estéticos e formais, um certo embelezamento do discurso narrativo, muito do que se vê na atualidade tem suas raízes no que fez seu publicitário Goebbels, homem dotado de inteligência e profundo conhecedor da natureza individual.

Juntos, foram a seu tempo seguidos incondicionalmente, e mobilizaram multidões, submetidas às cegas ao ideário nazista: intolerância racial, aversão às mulheres, nacionalismo exaltado, perseguição aos judeus e mórbida rejeição às diferenças sexuais.

Tudo isso numa sequência perversa, até que fosse oportuno o extermínio dos pobres, bem na linha do que pretendem os nazistas de hoje em relação aos indígenas, aos negros e aos menos favorecidos do Nordeste.

A propaganda nazista era de tal modo poderosa que, na contramão do que se pensava possível — vencidos os nazistas, com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, nada restaria de sua ideologia criminosa —, o nazismo vence o tempo e ainda são numerosos, por exemplo, os que vão às ruas e à entrada dos quartéis clamar por intervenção militar e a volta do regime ditatorial. Se são diferentes na forma, assemelham-se no conteúdo, e é a mesma a apropriação dos símbolos visuais e sonoros: bandeira, hino, cores e outros signos desencadeadores da emoção e do fanatismo.

Não faltaram, pasmem, os que, à época, negavam as evidências, ignoravam a ciência, compravam gatos por lebres. Sob este aspecto, dou voz ao próprio Goebbels, para quem “Com uma repetição suficiente, e a compreensão psicológica das personalidades envolvidas, não seria impossível provar, de resto, que um quadrado é um círculo.”

Bem na linha do que se vê, quando, hoje, nega-se a esfericidade da Terra, posto que é plana, à maneira de Olavo de Carvalho, o já falecido guru bolsonarista.

Convencido de que “o êxito de um anúncio, seja comercial ou político, se deve à assiduidade e à persistência com que se emprega”, Hitler repetia à exaustão o bordão nacionalista. Algo bem próximo do “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, tão ao gosto do que professa, enfadonhamente, mais de setenta anos depois, o mito adorado.

Agarro-me a Torquato, o poeta do Piauí: “Não é bastante que se derrube o príncipe se ficarem de pé seus princípios.”

Para concluir, volto a Goebbels e outra vez lhe dou a palavra: “Toda falsidade é mais crível quanto maior seja”.

Bem atual, não?

 

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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