A estreia vigorosa do craque

 

Em linhas gerais, pode-se falar de um contista de extração clássica, embora se constate aqui e além a adoção de um e outro procedimento de linguagem que lembram os experimentos narrativos de um Rubem Fonseca ou de um Dalton Trevisan, para nos reportarmos a dois dos maiores ficcionistas brasileiros do gênero.

Nada, no entanto, que ignore por completo as características fundamentais do ‘grande’ conto, desde que esta forma narrativa assumiu o estatuto que o consagraria como estrutura literária diferenciada: do ponto de vista dramático, as oito narrativas apresentam um único conflito, uma única ação, que se desenrola, com raríssimas exceções, num mesmo e único espaço (são irrelevantes, como se pode perceber no conto de abertura da coletânea, intitulado Meu tio, os deslocamentos físicos das personagens, que pouco importam para a célula dramática do enredo); é pequeno o número de personagens, estáticas, planas, tomando por base as categorias examinadas por E. M. Forst; o tom é o mesmo em todas as histórias e o ritmo da ação quase nunca sofre qualquer variação. Enfim, os textos estão estruturados com os elementos tradicionais da short-story, bem na linha do que professam os teóricos, observadas, claro, as sutilezas de estilo que lembram de Katherine Mansfield a Tchekhóv, guardadas as proporções devidas.

É curioso, particularmente pelo que vimos afirmando aqui, que Anos de chumbo e outros contos (Companhia Das Letras, 2021), a notável estreia de Chico Buarque na narrativa curta, seja possivelmente o melhor livro de ficção do ano, mesmo considerando-se que estamos a mais de dois meses do seu final.

Em que residem, assim, as qualidades da obra? Vamos lá.

Antes de tudo, com esse livro primoroso, Chico Buarque nos convence de que é possível se trabalhar com elementos clássicos e ser moderno como escritor, no sentido que se deve entender a modernidade em sua mais rigorosa extensão semântica, distinguindo-a dos meros modismos de ocasião, dos experimentos de linguagem que nem sempre resultam positivos quando tão-somente se quer fazer o diferente. Pelo contrário, na sua vigorosa estreia como contista, o escritor Chico Buarque explora os elementos básicos do conto clássico, espaço e foco narrativo, sobretudo, com uma sensibilidade de mestre: há nos seus contos o que se pode definir como uma ‘poética do espaço’, não como a definiu o filósofo Gaston Bachelard (1884-1962) para revelar a importância e o impacto do habitat no ser humano, mas como registro quase cinematográfico com que acompanha o desenrolar da ação. O olhar do narrador sobre o conflito dramático da história, assim, ultrapassa os limites da enunciação propriamente dita, e Chico nos convida a perceber com ele o que existe de mais sutil em termos significativos no enquadramento escolhido. Sob este aspecto, é magistral o que faz no conto Passaporte, quando a personagem central (identificada apenas como um “grande artista”) vasculha o lixo de um banheiro de aeroporto à procura do documento criminosamente afundado ali por um desafeto anônimo (o ódio de que o próprio autor é vítima por parte dos bolsonaristas): “Não teve dúvida; com o polegar e o indicador içou o cartão de embarque, que trouxe a reboque meio metro de fio dental. Praticamente deitado na pia, imergiu o braço inteiro até as profundezas do saco de lixo, onde em meio a consistências de lodo tateou um papelão acetinado. Sim, tinha alcançado a capa do passaporte, que aparentemente estava aberto e perigava se desfazer, se puxado sob o peso de tamanha imundície”.

Não menos impressionante do ponto de vista estético, diga-se, sem incorrer em spoiler, é a cena final em que o “grande artista” leva a cabo a sua motivação de vingar-se do “canalha”, de que resulta a habilidosa exploração de um outro elemento do conto clássico: o epílogo com que guarda o enigmático e surpreendente desfecho da história.

Mas é com Cida, quarto dos oito contos do livro, que Chico Buarque rompe com as características tradicionais do gênero e transita com habilidade por um território próprio da modernidade em termos estruturais da narrativa. Aquele em que desaparecem as linhas demarcatórias que separam o conto da crônica: o ponto de vista é de um caminhante (o próprio Chico, deduz-se) que acompanha uma moradora de rua grávida numa praça do Leblon. O narrador aproxima-se da pedinte e, com o passar dos dias, desperta nela a confiança que logo desliza para um tipo de dependência que beira a paixão. Ela pede ao caminhante que cuide da filha por nascer, o que eleva a temperatura dramática do conto e deságua no belíssimo final da história cuja urdidura, não por acaso, dá a ver a mão do poeta.

Se, em termos formais, Anos de chumbo e outros contos está construído em matrizes literárias já conhecidas, o que, juízo precipitado, poderia desmerecer o livro, antes o eleva à categoria de um clássico do conto brasileiro.

Na linha do realismo dos anos 1970, mas decididamente atual na perspectiva do seu conteúdo, com que Chico Buarque expõe as mazelas do Brasil contemporâneo, Anos de chumbo e outros contos definitivamente situa seu autor como um dos maiores ficcionistas da literatura brasileira de todos os tempos.

Um livro para se ler de uma sentada – e guardar-se como exemplo inconteste de obra-prima.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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