A EDUCAÇÃO TEM MUITO O QUE APRENDER

Em primeiro de junho último, a economia cearense iniciou a flexibilização dos setores, mediante o Plano de Retomada das Atividades Econômicas e Comportamentais do Ceará. Segundo informações dos responsáveis pela ideia, cerca de 95% dos empregos já se encontram aptos a funcionar, restando, entretanto, segmentos como o de eventos, bares, cinemas e aulas presenciais nas escolas, incluindo universidades.

No que se refere ao segmento educacional, pais, educadores, alunos, professores, funcionários, ministério e defensoria públicos, dentre outros, discutem, amiúde, como se dará o retorno das aulas presenciais, haja vista os riscos que oferece tal decisão, no momento em que os índices de infecção e mortes pelo coronavírus, malgrado haverem diminuído, ainda são uma ameaça.

Conquanto haja estudos indicando que crianças e adolescentes são menos propensas a se infectarem pelo vírus, o Governador do Ceará, Camilo Santana, e o Prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra, mantendo a prudência e a responsabilidade que se espera de chefes do Poder Executivo, comunicaram, na semana passada, que as aulas presenciais só voltarão a ocorrer em setembro, se a realidade da covid-19 oferecer segurança. É do conhecimento geral – e dessa realidade poucos devem discordar – o fato de que as escolas, mesmo as particulares, constituem um foco de reincidência perigoso, em razão do seu caráter aglomerativo, o que reclama ampla estrutura de testagem e monitoramento, quando do retorno.

Como esperado, a maior pressão sobre as autoridades públicas, para um retorno imediato, procede do setor privado, ao alegar prejuízos financeiros, sendo este, inclusive, um aspecto ocorrente na maioria dos estados brasileiros. Deparamos, também, entretanto, um problema relevante, o de definir responsabilidades por eventuais mortes de professores e alunos, visto que a maioria das escolas não oferece condições para redefinição de uma nova configuração dos seus espaços que garantam o distanciamento exigido pelos protocolos sanitários. Até que se tenha uma vacina, que garanta imunidade a todos, o sistema híbrido, com aulas presenciais e turmas divididas, para permitir o distanciamento no mesmo espaço, e on-line, exprime-se, decerto, como a alternativa mais segura.

No concernente à ideia defendida por alguns – de que, após a reabertura das escolas, cabe aos pais a decisão sobre permitir ou não que seus filhos voltem a frequentar as aulas presenciais – é crucial se atentar para dois fatos que submetem a dúvidas mencionada opção. O primeiro é que a covid-19, sendo um problema de saúde pública com alta taxa de letalidade, cabe ao Estado regular e decidir o momento mais seguro. O segundo reside na noção de que, para oferecer essa alternativa, o Poder Público terá que disponibilizar infraestrutura digital (computador e internet) para os estudantes que não dispuserem desses recursos, que, como sabemos são muitos, para não agravar ainda mais o já comprometido aprendizado.

Em paralelo a essa discussão, a pandemia carreou para o centro dos debates, em escala global, a necessidade de se reformar o modelo tradicional de ensino, não apenas nos conteúdos mas também no seu formato, iniciando uma gradual substituição do ensino presencial pela modalidade on-line e educação em casa, antecipado pela emergência da doença.

Refletindo sobre o modelo de ensino adotado pelas escolas no Mundo, em seu livro 21 Lições para o século XXI, o historiador Yuval Noah Harari descreve que “[…] as escolas continuam concentradas em ensinar as habilidades acadêmicas tradicionais e numa aprendizagem mecânica, quando melhor seria priorizar o pensamento crítico que é mais importante para o sucesso dos alunos no futuro”.

Em um contexto de país em desenvolvimento, como o Brasil, assim como a maioria dos países na mesma condição, não constitui surpresa que a ideia de educação vigente ainda seja a mesma de uma escolaridade arraigada na maneira como os nossos antepassados a imaginavam – estruturas físicas como as que temos hoje, ocupadas pelos estudantes, com o professor sendo centro das atenções e única referência do saber. As modernas tecnologias já desfizeram essa concepção e transportaram o conhecimento para a palma das mãos dos alunos.

É notória a ideia de que, no atinente a qualidade da educação, maneiras de ensino, nível de aprendizado dos alunos, papel docente e outros temas correlatos, a matéria é quase tão antiga quanto a criação do quadro negro, ou lousa, criado pelo professor escocês James Píllans, ainda no século XVIII. Referimo-nos à mais tradicional e revolucionária tecnologia de ensino no Mundo, pois perpassou dois séculos, já está no terceiro, e nem as modernas tecnologias digitais a fizeram perder a utilidade em sala de aula.

Como observador que acompanha atentamente as transformações sociais, culturais e tecnológicas sucedidas no Mundo, não é sem propósito afirmar que, nos últimos quarenta anos, quase tudo se desenvolveu e se modernizou, mas a educação e o nosso sistema de ensino ainda têm muito o que aprender, para, pelo menos, situarem-se no tempo corrente.

Essa afirmação é facilmente verificada todos os dias em sala de aula, (pelo menos era, até a pandemia provocar o fechamento das escolas no Mundo), quando, em plena Era Digital e de Inteligência Artificial, os professores da maioria da escolas e universidades públicas, e também privadas, não só no Brasil, ainda são obrigados a usar, em sala, uma caderneta, caderno ou diário de classe, com a lista dos alunos, perdendo de 15 a 20 preciosos minutos, fazendo a velha e tradicional chamada para verificar a comparência dos alunos. Essa prática é a autodeclaração do atraso do nosso sistema de educação.

Adite-se o fato de termos uma escola de ensino fundamental e médio, pelo menos no Brasil, de concepção do século XIX, com professores do século XX, ensinando crianças e adolescentes, na sua totalidade nascidas no século XXI, antenadas com as novas tecnologias, cujo cérebro parece já trazer impressa uma placa com alguns milhões de megabytes no processador, e outros tantos terabytes de memória, bem como um ministro da Educação que ainda fala no uso da palmatória. Não é preciso dizer mais sobre o quanto a educação ainda tem que aprender.

O documento The covid 19 pandemic: shocks education and policy responses aponta que, mesmo antes da pandemia, o Mundo já enfrentava uma crise de aprendizado, e 258 milhões de crianças e jovens em idade escolar primária e secundária estavam fora da escola; e, pela crise na qualidade do ensino, os que estavam estudando aprendiam muito pouco. “[…] A taxa de aprendizagem da pobreza nos países de baixa e média renda era de 53% – o que significa que mais da metade das crianças de 10 anos não conseguia ler e entender uma história simples”.

É nesse contexto que o novo coronavirus impôs o fechamento das escolas, em 190 países, deixando fora das salas de aula 1,6 bilhão de alunos, segundo dados da Unesco. Isso representa 90% das crianças em idade escolar no Mundo, com grave repercussão no desenvolvimento intelectual dos estudantes, afetando, mais agudamente, os mais pobres, além das repercussões na vida acadêmica de todas elas. Na perspectiva de Richard Amitage, da Divisão de Saúde Pública e Epidemiologia da Universidade de Nottinghan, apesar desses problemas, eles “[…] não devem ser tomados como justificativa para reabri-las”.

Dentre as várias lições que o Mundo teve de aprender com a pandemia, a mais tangível se refere ao papel que as tecnologias estão aptas a desempenhar para o ensino e a aprendizagem on-line, além da digitalização dos vários processos em uso pela sociedade em geral, pois a doença fez antecipar o futuro, nesse e em muitos outros aspectos da vida em geral.

Nessa direção, num estudo desenvolvido pela Universidade de Harvard – Mind the Skills (Gap), os pesquisadores descobriram que, na economia global atual, o conhecimento que adquirimos na faculdade dura apenas cinco anos, tornando-se obsoleto desde então. Isso impõe a todos, especialmente aos professores, não imaginar que suas habilidades têm validade premente, quando o Universo está em permanente evolução e transformação.

Para remate desses comentários, talvez, a lição mais importante a ser tirada do que a pandemia impôs é que, quando o sistema escolar voltar a funcionar e a se estabilizar, os países devem investir ainda mais na inovação das suas estruturas educacionais e nos seus modelos de ensino, não só para atenuar os efeitos negativos desse período, mas, também e principalmente, não desperdiçar a oportunidade de dar o “salto de qualidade” que a educação está a exigir. Com esse objetivo, deve cuidar para não reproduzir os erros do pré-covid, mas desenvolver sistemas aprimorados e aprendizado acelerado para todos os alunos.

Como nos ensina Albert Einstein “[…] A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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