A DISSIMULAÇÃO POLÍTICA E O “CIDADÃO DE BEM”, por Uribam Xavier

Na falta de um projeto para o país ou, indo mais além, em vista do esgotamento do Projeto Modernidade/Colonialidade, identificado pela carência de soluções concretas e efetivas para os problemas da maioria das pessoas e famílias que são vítimas dos que governam o país como gerentes dos interesses do mercado (capital) como se fossem os interesses do Brasil, muitos extratos sociais, tomados pela cegueira das paixões de caráter conservador e uma politização às avessas, saem a público em grandes manifestações. Este fenômeno vem ganhando volume em várias partes do mundo em onda de sentimentos conservadores que se manifesta de forma irresponsável sobre aspectos profundo da nossa existência material e espiritual, ou seja, sobre o que deve ser nosso sistema de educação, sobre nossa segurança, sobre nosso sistema de previdência, sobre nossa história, sobre nossa forma de nos relacionarmos com outros países. Claro que em um país democrático isso é assunto de todos, mas quando digo que a onda conservadora se manifesta de forma irresponsável, é porque isto acontece de maneira potencialmente odiosa, elegendo pobres, negros e a comunidade homoafetiva como sendo passíveis de extermínio; como se os recursos da natureza fossem inesgotáveis; como se a violência e retirada de direitos fossem a melhor forma de garantir a ordem social; como se a doutrina religiosa fundamentalista fosse o melhor instrumento para se combater as diversas inclinações políticas. Estamos em uma conjuntura mundial em que se aposta na “guerra de todos contra todos” como solução para nossos problemas, sem se notar, contudo, que esta aposta esconde que ela é o jogo marcado do mercado e segmentos fascistas onde o que prevalece como resultado é a exclusão, a violência e a morte.

Acompanhando essa onda, vivemos no Brasil um momento desafiador, pois pessoas comuns, membros do judiciário, membros das forças armadas e o presidente do país comemoram o golpe e a ditadura militar que interrompeu nosso frágil processo democrático, inaugurando-se a era em que pessoas eram presas, torturadas e mortas, quando se institucionalizou a censura, quando se fechou o Congresso e quando se decretaram prefeitos biônicos. Em 1964, no auge da Guerra Fria, o golpe e a ditadura vieram juntos, enquanto no século XXI, o século do chamado fim da história, o golpe foi dado em 2016 numa moldura falsamente legal, sendo que um governo militar-civil foi eleito por parte da população em 2018. O sistema pelo qual as classes dominantes exercem seu poder no Brasil é legitimado por certo sentimento de desespero de parte da população que se entrega a uma forma de servilismo voluntário, submetendo-se àqueles que ela acredita vão eliminar os opositores que esse mesmo segmento social odeia e despreza. A esses extratos sociais somam-se os neopentecostais e outros segmentos religiosos que formam, no Congresso, a tal bancada evangélica, os rentistas e o agronegócio. Todos esses são devotos do Deus mercado e defensores das políticas neoliberais.

No Brasil, é fácil identificar a politização despolitizada, pois ela se manifesta no fato de indivíduos ou eleitores passarem a defender um governo vigente ou um partido e sua política usando como argumento mais forte e decisivo a ideia de que os governantes anteriores eram piores, roubaram mais, foram menos competentes, mostrando-os, assim, como a fugir de suas responsabilidades, além de revelar um viés enganoso de caráter político e a negação da cidadania. Quando o governo em que votam e o qual defendem, como o governo de Bolsonaro, é fascista, racista, homofóbico, misógino, machista e defende publicamente torturador e comemora a ditadura militar ocorrida no país, consciente e inconscientemente, esses indivíduos e eleitores estão diretamente sendo representados.

O comportamento democrático e sua consequente ação social configuram uma luta por nova direção política e moral a exigir posicionamento de outra ordem, no mínimo transparente, não tendo compromisso com político, partido ou governo, mas por meio de causas como o bem comum, a justiça social, o Estado Democrático de Direito, o combate à concentração de renda, o combate à pobreza, a defesa do meio ambiente e do planeta, a participação das pessoas na gestão das instituições públicas, a democratização dos três poderes, o compromisso com uma política cultural inclusiva, a subordinação do mercado ao bem comum etc.

No Brasil, com a eleição de Bolsonaro, passamos a viver um momento de obscurantismo, sendo que seus ministros, desqualificados e sem preparo para os cargos a que foram indicados, falam abertamente um conjunto de bobagens que, de tão absurdas, nos deixam abobalhados e indignados, como quando ouvimos de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e Direitos Humanos, que: “Meninos vestem azul e meninas vestem rosa” ou “Como eu gostaria estar em casa toda tarde numa rede, me balançado e meu marido malhando muito, muito, muito para me sustentar. Esse seria o padrão ideal da sociedade”. É intolerável escutarmos do ministro das relações exteriores, Ernesto Araújo, que “O fascismo e o nazismo são fenômenos políticos da esquerda” ou que “Mudança climática é uma conspiração de esquerda para sufocar o crescimento econômico dos países democráticos capitalistas e promover o crescimento da China”, ou quando o ministro da educação pede para que crianças cantem o hino nacional todos os dias nas escolas, repitam o mote da propaganda política do governo e tudo seja filmado e enviado pelos professores para o ministério. Não há de se estranhar que o governo Bolsonaro proponha o uso da violência do Estado contra a cidadania, pois é um governo em defesa do mercado, da teologia da prosperidade neopentecostal e do chamado “cidadão de bem”. Todavia, o conceito “cidadão de bem” é aquele de indivíduos que sempre querem ter privilégios sobre os demais, constituindo-se em ameaça contra a cidadania, uma configuração híbrida da Lei de Gerson mais o “jeitinho brasileiro” e a cafajestice. O “cidadão de bem” está presente em todas as classes sociais e seu comportamento é variável, sendo que os que pertencem à alta classe média consideram-se intocáveis pela lei, que podem fazer as próprias leis, que seus desejos não podem ser frustrados, odeiam pobres, são violentos e gostam de ostentar riquezas.

O “cidadão de bem” brasileiro é aquele que pensa a justiça como apresentada por Polemarco e Trasímaco no primeiro livro da obra A República de Platão. Para Polemarco, justiça significa “fazer o bem aos amigos e prejudicar os inimigos”, sendo que não identifica justiça com o cumprimento necessário de obrigações para com a vida pública. Já para Trasímaco, justiça “nada mais é do que a vantagem do mais forte”, logo qualquer um que chegue a assumir a função de governo deve aprovar leis para se beneficiar. Diante dessa situação esdrúxula de falta de compromisso com a verdade por parte do pensamento sofista, Sócrates vai argumentar que a justiça é uma virtude e faz um alerta: “O maior dos castigos é ser governando por quem é pior do que nós, se não quisermos governar nós mesmos”. Bom, o “cidadão de bem” não quer ser governado por um governo cidadão orientado pelo bem comum e com direitos inclusivos para todos, ele quer seguir a orientação da doutrina neopentecostal, da doutrina da Escola Sem Partido, de Bolsonaro e da lógica capitalista do Deus mercado.

O pensamento conservador, com o qual o “cidadão de bem” se alimenta, é de ordem política e religiosa e tem como motor de mobilização, além dos desejos consumistas do indivíduo, o moralismo e a defesa da ordem. Uma das características do conservadorismo é estar amarrado a uma percepção cognitiva de que a realidade de certas coisas não deve mudar, como se elas tivessem validade eterna, como, por exemplo, o modelo de organização familiar e a exploração do trabalho de uns por outros. De fato, o conservador é o ser platônico preso à ideia e não à realidade, alguém que pensa que suas ideias é que determinam a realidade, ignorando que a mudança da realidade é que renova as ideias. No campo político, o conservadorismo pensa que o mal da gerência pública tem origem única na corrupção. É verdade que a corrupção é um mal que deve ser combatido na administração pública, não apenas nas atividades do mercado, mas igualmente nas relações pessoais dos próprios conservadores, considerando-se que ela não é o principal problema da administração pública.

O pensamento conservador, que inventou a figura abjeta do “cidadão de bem”, como não consegue admitir nada fora dos seus limites e percepções, torna-se autoritário pela negação das diferenças, mobilizando-se mais pelos afetos negativos e menos pela razão ao validarem seus inimigos por uma escolha contraditória: juntam-se e elegem políticos corruptos e violentos para combater a corrupção e a violência. Bolsonaro, como “cidadão de bem”, reflete bem a contradição do pensamento conservador de extrema-direita: ele defende torturadores e a Ditadura Militar (1964 – 1985) no Brasil, mas se diz contra a ditadura do presidente Maduro na Venezuela. Diz-se moralizador da cosia pública, mas afirma ter recebido dinheiro publico indevido, por meio de sua atividade parlamentar e diz, ironicamente, ter usado a propina para “comer gente” (gasto com prostitutas). Tudo isso em nome da defesa da família, da propriedade e de Deus.

O “cidadão de bem” chamado Bolsonaro não era desconhecido, não enganou ninguém, tendo o mérito de ser o catalisador do sentimento de parte de uma sociedade autoritária e de parte da sociedade descrente e desiludida com os governos petistas, principalmente, com o governo Dilma, pessoas que votam sem pensar e sem assumir as consequências de seus votos. O passado de Bolsonaro e seu comportamento político já eram conhecidos, suas declarações já eram o suficiente para que ele não fosse eleito sequer como vereador. Vejamos algumas de suas pérolas. Sobre negros: “Eu fui num quilombola em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gastado com eles” (Em palestra no Clube Hebraica, abril de 2017). Sobre estupro: “Fica aí, Maria do Rosário, fica. Há poucos dias, tu me chamou de estuprador, no Salão Verde, e eu falei que não ia estuprar você porque você não merece. Fica aqui pra ouvir” (Em discurso na Câmara, em 2003), e, ao explicar a frase, completou: “Ela não merece (ser estuprada) porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar porque não merece”. Sobre a possibilidade de ter um filho gay: “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro ele muda o comportamento dele. Tá certo? Já ouvi de alguns aqui, olha, ainda bem que levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem” (Em programa da TV Câmara em novembro de 2010). Sobre ter uma filha: “Fui com os meus três filhos, o outro foi também, foram quatro. Eu tenho o quinto também, o quinto eu dei uma fraquejada. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio mulher” (Palestra no Clube Hebraica, abril de 2017). Sobre promiscuidade: “Ô Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco porque meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu” (À Preta Gil, quando questionado sobre o que faria se seu filho se apaixonasse por uma negra. março de 2011). Sobre tortura: “Eu sou favorável à tortura, tu sabe disso” (A um programa de TV, em 1999). E “O erro da ditadura foi torturar e não matar” (Em entrevista no rádio, em junho de 2016). Sobre bater em gays:  “Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater” (Em entrevista sobre uma foto do ex-presidente FHC em que este aparece ao lado da bandeira gay e ter defendido a união civil, em maio de 2002). Sobre fuzilamento: “Deveriam ter sido fuzilados uns 30 mil corrutos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso” (Em programa de TV, em maio de 1999). Sobre prostituição:  “Noventa por cento desses meninos adotados vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa com toda certeza desse casal” (Em vídeo reproduzido no programa de Danilo Gentili, sobre a adoção de crianças por casais gays). Sobre mulheres: “Não é questão de gênero. Tem que botar quem dê conta do recado. Se botar as mulheres vou ter que indicar quantos afrodescendentes?” (Em entrevista em Pouso Alegre, questionado se aumentaria o número de mulheres no ministério, em março de 2018).

A mudança está posta como desafio tanto para os que não querem ser governados pelo “cidadão de bem”, como pelos que acreditam em outro horizonte de sentido, mas, para isso, temos que entender que a política é algo da nossa conta, que temos que ir para as ruas, que temos que fazer desobediência civil e contribuir para formulação de outro projeto para o país. Não precisamos de um partido, mas de partidos, de organizações sociais e de lideranças, mas sempre com a convicção de que os partidos e as organizações sociais são meios e nossas causas o fim, que devemos ser fiéis a nossas causas e não a partidos e a organizações sociais, embora ambos sejam instrumentos importantes e necessários. Com essa atitude, poderemos ter uma posição mais crítica diante dos rumos para os quais os governos direcionam o país e os cidadãos conforme determinadas conjunturas políticas e sociais.

Uribam Xavier

Uribam Xavier

Graduado em Filosofa Política e Doutor em Sociologia, professor da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais. Autor do Livro “O Capital e a Política”, editora Livro Novo, São Paulo, 2012.

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