A DISPUTA POLÍTICA POR MEIO DAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS DE 2020

“O que muda na mudança, se tudo em volta é uma dança no trajeto da esperança, junto ao que nunca se alcança?” – Carlos Drummond.

Ao nos situarmos diante da disputa sobre a composição do poder legislativo e executivo numa eleição municipal, estadual ou federal uma questão é demasiadamente pertinente: o que se disputa? Disputam-se apenas cargos para o legislativo e o executivo? Disputam-se ideias? Disputa-se reconhecimento e distinção? Disputa-se com seriedade a administração da coisa pública em benefício da maioria e da qualidade de organização da vida na cidade? Disputam-se a inclusão social de direitos [humanos, da natureza e dos animais], identidades diversas e reconhecimentos? Disputa-se a agenda de administração do capitalismo em um confronto entre agentes neoliberais com uma agenda de austeridade versus keynesianos, com uma agenda desenvolvimentista?

O que se disputa numa eleição dentro do sistema-mundo colonial moderno? O que se disputa numa eleição sistêmica em plena crise civilizacional? Disputa-se o fim do capitalismo ou a brincadeira entre centro, direita, esquerda e suas derivações? Disputa-se a construção de um mundo pluriverso em que vários mundos sejam possíveis e que se possa desenhar e construir o sonho ou a utopia emancipatória impossível pela modernidade, o que implica o fim do capitalismo? O que se disputa e quem disputa o quê?

Na minha compreensão, as eleições no Brasil, como na maior parte do mundo, é uma disputa pela administração, manutenção e perpetuação do sistema capitalista, onde os candidatos (neoliberais e keynesianos) se apresentam para os eleitores utilizando de todas as técnicas e engenharias aplicadas no processo de manufaturamento da vontade do eleitor, como os mais competentes e compromissados com o capitalismo, este vendido como único sistema possível. As eleições são disputas por capitalistas que não se apresentam como capitalistas, mas como liberais [de centro, direita e extrema direita] e keynesianos [desenvolvimentistas, democratas e socialistas] que se apresentam como de esquerda. Todos aparecem como indivíduos ou partidos comprometidos com os reais interesses da população, do povo, da nação, comprometidos com bandeiras como o combate à violência e à corrupção, com a garantia da segurança, da geração de emprego, educação, transporte e com a saúde.

Nas eleições, os políticos e os partidos que disputam fatias do poder político não denunciam a exploração do trabalho pelo capital, não falam para valer da taxação de grandes fortunas e do capital financeiro, não falam de desapropriação de grandes latifúndios improdutivos, não relacionam a deterioração do meio ambiente [como queimadas criminosas, uso indiscriminado de agrotóxicos, extinção de espécies animais e vegetais, degradação do solo e morte de lideranças de [trabalhadores rurais, indígenas, ambientalista, seringueiros e quilombolas] como ação organizada do agronegócio, do extrativismo e do rentismo.

Portanto, a disputa política é uma disputa em que não se coloca, nem a longo prazo, a questão da ruptura sistêmica, mas a naturalização da exploração, da dominação e da subalternização por meio da ideia abstrata de defesa da democracia. Nesse contexto, o Estado é tratado pela política como um mecanismo neutro em que é o preparo e a idoneidade dos candidatos eleitos que define se uma administração pode melhorar ou piorar as condições de vida e os privilégios para uns ou outros. Nesse sentido, ao se esconder que o Estado é um instrumento do sistema para garantir o processo de acumulação do capital, a responsabilidade pelo desmandos , em parte, cabe ao eleitor que não sabe votar, que vende voto, que não tem interesse pela política partidária, abstendo-se de votar ou votando em branco ou nulo.

O processo eleitoral — para escolha de parlamentares que vão se locupletar no poder, tentando permanecer o maior tempo nas suas vidas como políticos, garantindo os seus interesses por meio da subserviência aos esquemas garantidores de acumulação de riquezas e não aos interesses coletivos — é um processo perverso que se chama democracia formal ou regras do jogo, que só podem ser rompidas para manter o sistema de concentração de renda e riqueza nas mãos de poucos. Todavia, sem o confronto com a defesa de outros sistemas, reina o pensamento único e a ideologia do fim da história como impossibilidade da emancipação e da inclusão de todos no processo de participação das riquezas e de uma boa qualidade de vida, bem como a proteção do meio ambiente como patrimônio da humanidade e como condição necessária para produção e reprodução de todas as formas de vida no planeta. Com a hegemonia do pensamento único, no qual todos são capitalistas, sejam de direita ou de esquerda, a política eleitoral e partidária passa a ser a arte de prometer ao eleitor, por meio de um simulacro eleitoral, uma melhor administração do cativeiro.

Dentro dessas premissas que acabo de esboçar, passo a analisar o desempenho dos capitalistas de direita, de centro, de esquerda e suas derivações no jogo político eleitoral de disputa para a administração do cativeiro na esfera municipal do capitalismo brasileiro nas eleições de 2020.

1 – O ISOLAMENTO E O RECRUDESCIMENTO DO BOLSONARISMO

A Rede Globo, a mesma que apoiou e promoveu as manifestações pelo impeachment da Dilma, juntamente com outros setores do mercado e seus think tankes; que apoiou o golpe de 2016 e manutenção de Michel Temer no governo quando dois escândalos1 graves eram motivo para sua cassação; que apoiou e colaborou com Sérgio Moro em suas ações ilegais por meio da Operação Lava Jata que violaram o Estado de Direito; que fomentou o ódio contra o PT e apoiou no segundo turno Jair Bolsonaro para presidente em 2018; passou a intensificar sua militância midiática na defensa da agenda neoliberal de austeridade e do extrativismo/rentista no Brasil, por meio de uma estratégia de desgaste da imagem pessoal do Bolsonaro. Trata-se de uma jogada em função dos seus interesses extrativista/rentista e do seu projeto neoliberal a ser conduzido com segurança por um político neoliberal de centro-direita, já que a avaliação da maior parte do mercado no país é a de que, sendo a disputa para administrar o capitalismo uma luta de todos contra todos, com a interrupção, nas eleições presidenciais de 2018, da polarização entre centro, hegemonizado pelo PSDB, e esquerda, hegemonizado pelo PT, seria muito ariscado para os interesses do mercado uma polarização política entre extrema-direita e esquerda.

Assustada com o modelo desastroso de governo praticado por Bolsonaro, setores do mercado resolveram não correr o risco de verem a esquerda se erguer e voltar a administrar o cativeiro numa conjuntura em que o mercado sabe que não pode permitir que o Estado aplique o orçamento público em políticas publicas e sociais para reparar as mazelas sociais que o próprio mercado produz, porque isso implicaria diminuir suas taxas de lucros e interferir no processo de acumulação de riqueza. Todavia, como a agenda de Paulo Guedes é a que atende aos interesses do mercado, a estratégia deste é promover a união do Congresso Nacional com o ministro da Economia e enfraquecer o presidente sem desestabilizar o governo, por isso o não apoio ao impeachment. Nessa estratégia, o papel da Rede Globo está sendo fundamental.

A estratégia da Rede Globo para desgastar Bolsonaro é desvincular a agenda neoliberal de austeridade, como se essa fosse um compromisso do Congresso Nacional, do ministro Paulo Guedes e uma necessidade para o país, da agenda protofascista, antidemocrática, negacionista e moral conservadora, que seria uma agenda pessoal do presidente, de sua família e de alguns seguidores. Nessa separação, as críticas da Rede Globo a Bolsonaro passou a ser centrada nas suas manifestações de apoio e participação em ações que pediam o fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal (STF), nas manifestações de apoio à intervenção militar, nas suas declarações e atos racistas e homofóbicos, na manutenção do Gabinete do Ódio, na política internacional de isolamento do país e alinhamento com países governados pela extrema-direita, na política genocida de Bolsonaro como resposta à pandemia do coronavírus no país, pelo negacionismo, pelo abandono da nova política e sua aliança com o centrão, pelo fim da Lava Jato, pela interferência pessoal na administração federal para livrar sua família de condenação por corrupção e pela política de descaso com o meio ambiente.

Ao mesmo tempo em que crítica diretamente ao presidente faz a defesa do Congresso Nacional e das medidas anunciadas pelo ministro da Economia: contenção dos gastos públicos com políticas sociais, reforma da previdência, reforma administrativa, reforma tributária, privatização, não criação de imposto, não criação de auxílio aos pobres e não aumento de salários para servidores públicos federais. A estratégia da Rede Globo está sendo eficiente e vem demonstrado que está conseguindo isolar Bolsonaro e, ao mesmo tempo, manter a hegemonia neoliberal no país, deixando a reboque o capitalista de esquerda ou os chamados capitalistas progressistas.

Ao longo das eleições, a Rede Globo passou a manufaturar a opinião pública contra Bolsonaro, criando no imaginário das camadas sociais a crença de que quem estava recebendo apoio do presidente ou se aliando ao bolsonarismo caminhava para o fracasso político. Para materializar essa crença apresentava dados de pesquisas sobre o desempenho de candidatos diante da preferência do eleitorado. Assim sendo, as eleições municipais de 2020 foi o grande laboratório que demonstrou que a estratégia do mercado conduzida pela emissora de televisão está funcionando e pode ser definidora de uma aliança de centro-direita e de um candidato para presidente nas eleições de 2022.

O isolamento de Bolsonaro e a desarticulação da extrema-direita em torno de uma pauta conservadora dos costumes [Escola Sem partido, Cura Gay, contra o aborto, valores da família fundamentados no patriarcalismo cristão heteronormativo, racismo, porte de armas, nova política], que tem como aliados políticos e os evangélicos neopentecostais, foi fruto maior da Rede Globo do que da ação, propriamente, dos chamados partidos de esquerdas ou movimentos sociais sindicais ou indenitários.

O recrudescimento do bolsonarismo é uma vitória da ação da Rede Globo como partido político que não disputa eleições diretamente, mas faz formação de opinião e política por meios de seus telejornais e de seus editoriais, é uma vitória do projeto extrativista/rentista [ o agro é pop] que saiu fortalecido das eleições e com capacidade de emplacar o próximo presidente da republica nas eleições de 2022, um presidente para administrar o cativeiro identificado com valores que alguns chamam de liberal-democrata. É a vitória do neoliberalismo sem Bolsonaro.

2 – A REARTICULAÇÃO DO CENTRO

Em suas reflexões o professor Marcos Nobre constata que as eleições presidenciais de 2018, com a vitória de Bolsonaro, marcou o fim da polarização nacional entre a esquerda, hegemonizada pelo PT, e centro-esquerda, hegemonizado pelo PSDB, dando início ao um novo ciclo de polarização entre extrema-direita, hegemonizada pelo bolsonarismo, e a esquerda. Nesse processo, para Marcos Nobre, o centro havia sido derrotado e sumido da cena política. Na minha percepção, esse foi um fenômeno passageiro, um retrato de um momento, pois os dados das eleições municipais de 2020 nos permite observar que o bolsonarismo perdeu força e a extrema-direita vem sendo derrotada no mundo. Bolsonaro pode chegar ao fim do mandato abandonado, mesmo que algum partido o acolha numa tentativa de se reeleger. Já o centro, que parecia ter se acabado, ganhou força nas eleições municipais e pode ter um bom desempenho nas eleições de 2022. Uma articulação de centro-direita poderá ser vitoriosa, com o apoio da Rede Globo, dando continuidade à agenda de austeridade ou agenda neoliberal rentista/extrativista.

DESEMPENHO DE PARTE DOS PARTIDOS DE CENTRO-DIREITA

A – Conquista de prefeituras:

PARTIDO

ELEIÇÕES -2016

ELEIÇÕES – 2020

DIFERENÇA Nº

PROGRESSITAS

494

682

+188

REPUBLICANOS

103

211

+118

PSD

540

654

+114

PSC

87

116

+29

DEM

265

464

+199

AVANTE

12

82

+70

SOLIDARIEDADE

60

94

+34

PATRIOTA

13

49

+36

Fontes: STF, elaboração do autor.

B – Por números de vereadores eleitos:

PARTIDO

ELEIÇÕES -2016

ELEIÇÕES – 2020

DIFERENÇA %

PROGRESSITAS

4.743

6.346

+34%

REPUBLICANOS

1.621

2.601

+60%

PSD

4.650

5.694

+22%

DEM

4.905

4.341

+49%

PSL

878

1.054

+37%

PL

3.019

3.467

+15%

Fontes: STF, elaboração do autor.

3 – A CONTINUIDADE DO ENFRANQUECIMENTO DAS ESQUERDAS

A competição destrutiva é a regra do jogo da sociedade de mercado capitalista. Assim, na política, os capitalistas, de direita e os de esquerda, competem entre si pelo monopólio do poder de administrar o cativeiro. O processo de derrota das esquerdas – intensificado a partir das eleições de 2014, quando o PSDB e seus aliados não aceitaram a derrota nas urnas e se juntaram com o PMDB, Michael Temer e Eduardo Cunha, aliados do PT, para tramar o golpe que se concretizou em 2016, o qual teve o seu ápice com a eleição de Bolsonaro em 2018 e seus apoiadores como deputados, senadores e governadores – continuou, mesmo com menor intensidade, nas eleições municipais de 2020.

Número de prefeituras conquistadas pelas esquerdas:

PARTIDO

ELEIÇÕES -2016

ELEIÇÕES – 2020

DIFERENÇA Nº

PT

256

179

-77

PC do B

80

46

-34

PDT

334

314

-20

PSB

414

252

-162

PSOL

2

5

+3

Fontes: STF, elaboração do autor.

Número de vereadores eleitos pela esquerda:

PARTIDO

ELEIÇÕES -2016

ELEIÇÕES – 2020

DIFERENÇA %

PT

2.815

2.665

– 5%

PC do B

1.121

692

-38%

PDT

3.770

3.441

-9%

PSB

3.635

3.441

-17%

PSOL

56

89

+59%

Fontes: STF, elaboração do autor.

A postura de oposição da Rede Globo à pessoa do Bolsonaro e de sua agenda conservadora contribuiu para que os grupos indenitários que gravitam em torno do PSOL, principalmente os que têm um longo trabalho de base nas periferias, obtivesse êxito eleitoral. Já no campo da esquerda, o esvaziamento e a crise de identidade do PT têm contribuindo para o crescimento do número de filiação ao PSOL. O PT vem sofrendo um processo contínuo de perda de filiados, pois de abril de 2019 a abril de 2020 o partido perdeu 64,8 mil filiados, e o PSOL ganhou 41 mil novos filiados2. Entre as esquerdas, este foi o único que cresceu em número de prefeituras conquistadas e número de vereadores eleitos.

As eleições municipais de 2020, mesmo tendo sido caracterizas pela continuidade do declínio do campo das esquerdas, consolidou a tendência de crescimento do PSOL e uma presença maior de mulheres, mulheres negras, negros, transexuais, índios , um cigano (José Pereira da Silva, o Nego Bom – PSB, eleito com 886 votos, o mais votado na cidade de Pindoretama – Ceará), mandatos coletivos e públicos que, na maioria, gravitam em torno da ação política do PSOL.

4 – PT PERDE O LUGAR DE POLO AGLUTINADOR DAS ESQUERDAS

Com os escândalos do Mensalão e da Operação Lava Jato, o PT perdeu a posição de reserva moral e política da esquerda na política brasileira. Com o golpe de 2016, que deslocou Dilma do poder, e, agora, com o resultado das eleições municipais de 2020, o partido perdeu o lugar de polo aglutinador das esquerdas que alimentava a sua ambição de ser um partido hegemônico. Além disso, o PT, ao longo de sua existência, passou por um processo de mudança de púbico e representatividade, fatores determinantes para a crise de identidade que ora está submetido.

Uma diferença fundamental, entre tantas outras, que podemos estabelecer entre o golpe dado no Brasil em 2016 e o golpe aplicado na Bolívia, em novembro de 2019, é que na Bolívia o Projeto Popular Nacional, construído pelo Movimento ao Socialismo (MAS), continuou sendo o horizonte de longo prazo para a maioria da população. Ele não havia sido esgotado e nem derrotado, ele não perdeu sua força moral e nem a sua energia vital. No Brasil, Lulismo ou pacto conservador, antes mesmo do golpe já havia se esgotado, Dilma havia perdido a capacidade de governabilidade e o apoio da população, o neodesenvolvimentismo petista era um projeto sem força moral e sem energia mobilizadora. Antes mesmo de assumir o segundo mandato, Dilma aderiu de mala e cuia à agenda neoliberal (Ponte para o Futuro) na tenta de salvar o seu mandato.

Daí, a falta de resistência ao golpe e a aceitação por parte do PT do processo de cassação, permitindo com que o golpe fosse legitimado pela participação de Dilma e do PT em todo o processo litúrgico de execução do golpe e de seus trâmites institucionais, com amplo espaço de defesa dado à Dilma, espaço que Evo Morales não teve na Bolívia, espaço de humilhação que ajudou a construir um sentimento de ódio ao partido e uma articulação conservadora no país. O Golpe no Brasil foi televisionado e serviu como instrumento para execrar o PT e enfraquecer as esquerdas na disputa pela administração do capitalismo no país.

O PT, além de ter diminuído o número de vereados e de prefeituras em relação às eleições de 2016, teve o nome de Lula enfraquecido, com o partido ancorado em meio a uma crise de identidade provocada pelo distanciamento em relação a sua base de apoio original, o movimento sindical do campo e da cidade, e de boa parte do seu eleitorado. O PT pós-governo é um partido sem discurso e sem projeto para o país. Os que ainda acreditam no PT pensam que o partido pode repetir a “reforma gradual e o pacto conservador”, como caracteriza o neodesenvolvimentismo ou o lulismo, André Singer,em seu livro “ os sentidos do lulismo”, pacto no qual os setores extrativistas e rentistas acumularam riquezas, parte dos miseráveis viraram pobres e a classe média ficou apavorada pensando que estava se igualando aos pobres.

Os trabalhadores e o sindicalismo não têm mais peso na direção do partido e nem no movimento social e muitos setores da sociedade vêm deixando de votar no PT. Além disso, o partido vem demonstrando dificuldade para se organizar na sociedade a partir das pautas classistas, indenitárias e ambientais. Tomando a cidade de Fortaleza como exemplo, podemos fazer uma comparação da votação do PT e do PSOL em relação aos candidatos, identificado com as pautas indenitárias, sindical/classista, cultural e ambiental entre os candiatos mais votados de ambos.

QUESTÃO DE FEMINISMO, GÊNERO E SEXUALIDADE

Candidaturas do PT

Votos

Candidaturas do PSOL

Votos

Larissa Gaspar

8.553 Eleita

Adriana Nossa Cara – Eleitas

9.824

Martír Silva

1.560

Anna Karina

4.834

Érika Carvalho

563

Adelita Monteiro

4.117

Fontes: STF, elaboração do autor.

QUESTÃO CULTURAL

Candidaturas do PT

Votos

Candidaturas do PSOL

Votos

Marcio Caetano

448

Ari Areia

4.778

Fontes: STF, elaboração do autor.

QUESTÃO AMBIENTAL

Candidaturas do PT

Votos

Candidaturas do PSOL

Votos

Rafael Tomyama

51 votos. Candidatura indeferida na última semana de campanha. Apoio Eudes Xavier.

Gabriel Aguiar – eleito

9.888

Fontes: STF, elaboração do autor.

O MUNDO DO SINDICALISMO

Candidaturas do PT

Votos

Candidaturas do PSOL

Votos

Eudes Xavier – Foi diretor do sindicato dos comerciários, presidente da CUT-Ceará e deputado federal. Recebeu apoio de Rafael Tomyama na reta final de campanha.

2.747

Ailton Lopes – Oposição Bancária.

7.981

Professor Clodomir

827

Nestor Bezerra – Sindicato da Construção Civil.

1.331

Leda Vasconcelos – Professora universitária, líder sindical dos servidores públicos estaduais do Ceará.

716

Nascélia Silva – Sindicato dos Servidores Municipais.

1.035

Carlos Eduardo – Presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará.

674

Iderlândio Morais – Servidores da Justiça.

360

Fontes: STF, elaboração do autor.

No campo dos movimentos sociais tradicionais, com o sindicalismo, o MST, com seu bordão de luta – Ocupar, resistir e produzir –, perdeu sua força como movimento de ocupação de terra, a reforma agrária na Lei ou na marra foi esquecida. A maior ação do MST no momento é em torno da viabilidade produtiva dos assentamentos conquistados, realizada por meio da produção e comercialização de produtos orgânicos. Tendo atingindo o auge durante os governos de FHC, dos governos petistas ao governo Bolsonaro a bandeira da reforma agrária foi ficando de fora da agenda política.

5 – SOBRE A RECUSA DA IDEOLOGIA DA NOVA POLÍTICA

Nas análises dos resultados das eleições municipais de 2020, a Rede Globo vem destacando a recusa por parte do leitor da chamada ideologia da “nova política”, do gestor não sistêmico, alguém de fora da política com competência para administrar bem e combater a corrupção nas instituições públicas. Não é o fim e sempre alguém pode aparecer como não político. Para os analistas da Rede Globo, repetido por vários comentaristas, o eleitorado apostou mais em candidatos bem avaliados e com experiência de gestão, pondo freio no antipolítico que aparece com um perfil de administrador ou empresarial.

Quando a Rede Globo apoiou João Doria para prefeito de São Paulo em 2016, e para governador em 2018, além do apoio a Wilson Witzel para o governo do Rio de Janeiro e Bolsonaro, no segundo turno, para presidência da República, destacava a figura do antipolítico, do outsiders contra os estabelecidos, como novidade e um fator positivo, uma reação de repúdio à política tradicional, uma promessa e uma esperança contra a onda de corrupção que a Operação Lava Jato de Sérgio Mouro estava combatendo no país. Agora, que o antipolítico se mostrou um fracasso, passou a não mais interessar ao mercado, a aposta é na volta ao fazer político tradicional, a valorização do que tem experiência na manipulação da máquina administrativa. Esse fenômeno pode confirmar que um dos modos de dominação sistêmica é a manipulação dos sentimentos e das percepções.

O Bolsonarismo, que se apresentou como um fazer político fora do sistema e fora da ordem, no Brasil não é um fenômeno partidário, é um fenômeno político que encontrou apelo e força mobilizadora em valores e crenças autoritárias e conservadoras arraigadas no imaginário de camadas sócio-pluriclassistas formatadas a partir das heranças patriarcais colonial, cristã, racista, homofóbica e patrimonial.

O fator de maior aglutinação em torno do nome de Bolsonaro em 2018 foi a percepção, naquele momento, de que se poderia ser eleito pegando carona com a sua popularidade. Fenômeno que já havia ocorrido no tempo em que o Lula era “o cara”. É verdade que nas eleições municipais de 2020 o bolsonarismo demonstrou estar perdendo força, que o desempenho do presidente nas eleições foi pífio, que o apoio de Bolsonaro gerou o efeito negativo para muitos. Todavia, a ideia da recusa da ideologia do não político está mais vinculada à manufaturação da vontade política em função de garantir a vitória, em 2020, um nome tradicional com força para conduzir, a partir da presidência da republica e com o apoio do Congresso, a agenda do mercado.

6 – PALAVRAS FINAIS:

Com esse cenário que saímos das eleições municipais, os setores do mercado saíram vitoriosos, o país continuará sendo hegemonizado por uma agenda neoliberal de austeridade, a direita continua com a iniciativa política e a esquerda a reboque de sua agenda. A Rede Globo vai continuar com a sua política de desgaste da figura do presidente ao mesmo tempo em que continuará fazendo a defesa descarada da agenda de reformas estruturais conduzida por Paulo Guedes em nome de um “jornalismo informativo, comprometido com a verdade, com a democracia e com os interesses do povo brasileiro”.

Animado pelo desempenho do DEM, Rodrigo Maia tentará burlar a Lei para se reeleger, se não for possível, vai tentar fazer o seu sucesso na presidência da Câmara dos Deputados derrotando Bolsonaro. Assim, o centro e a direita, com a desmoralização da chamada nova política e o isolamento de Bolsonaro, poderão encontrar entre Rodrigo Maia, João Doria, Sérgio Moro ou outro nome o candidato do centro-direita para continuar com agenda neoliberal tão necessária para que o mercado continue sua corrida no processo de acumulação de riqueza vampirizando o nosso patrimônio natural, nosso trabalho, nosso patrimônio público e nossas vidas.

Bolsonaro, cada vez mais refém do centrão, tentará se proteger e se movimentará para unir o centrão em torno da eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados. O preço será uma distribuição de cargos ampla, liberação de verbas e, até mesmo, a tentativa de ressuscitar antigos ministérios ou troca de ministros. No primeiro semestre de 2021 a problemática de como vai ser conduzida a questão do processo de vacinação contra a Covid-19 no país pode ter desdobramentos políticos de desgaste para o presidente. Além disso, se Paulo Guedes conseguir impor sua visão de que não tem cabimento se criar uma nova ajuda financeira para vítimas da pandemia ou para os pobres, Bolsonaro ficará sem esse mecanismo de levantamento de popularidade. O que pode dar fôlego a uma possível reeleição de Bolsonaro com alguma chance é uma recuperação da crise econômica nos próximos dois anos.

As eleições municipais de 2020, para a cidade de Fortaleza, marcaram uma derrota profunda de Ciro e Cid Gomes. Primeiro, porque a escolha e o apoio para a candidatura de Sarto Nogueira para prefeito teve um peso direto do prefeito Roberto Cláudio (PDT) e do Governador Camilo Santana (PT), que indicou o vice na chapa. No segundo turno, sem o apoio do PT e do PSOL, não teria sido possível a eleição de Sarto, tirando o mérito de uma vitória por força dos Ferreiras Gomes, uma vitória muito apertada (51,7% a 48,3%). Antes mesmo da posse de Sarto, já se fala nas candidaturas de Roberto Cláudio para governador e Camilo Santana para senador na vaga do Cid Gomes, ou seja, em 2022 não tem espaço local para os Ferreira Gomes.

Além do mais, individualmente, o Capital Wagner foi maior eleitoralmente do que Sarto e saiu da eleição bem maior do que era. A derrota dos Gomes se completa pelo desempenho da oposição de direita no Ceará, conquistando as prefeituras de Caucaia, Maracanaú, Juazeiro do Norte e São Gonçalo do Amarante, conquistas que fortalecem localmente as lideranças do senador Eduardo Girão e do Capitão Wagner. Ao aprofundar o distanciamento do PT na campanha de 2020, Ciro Gomes se isolou ainda mais no campo das esquerda e sua figura é rejeitada pelas bases do PSOL, grupo de esquerda em crescimento na política brasileira. Sem ter mandato, Ciro Gomes terá dificuldades de controlar o seu próprio partido. Portanto, para 2022, o cenário, mesmo aberto, exigirá muito esforço para que Ciro Gomes chegue a ser um candidato competitivo e com capacidade de unir as esquerdas.

Parte esquerda(dos capitalistas progressistas) não se interessa pelo debate sobre a crise do padrão civilizatório moderno que estamos vivendo e nem sobre a crise estrutural do capitalismo e suas consequências nefastas para os países dependentes da periferia. Boa parte da esquerda vai continuar com a disputa em torno do jogo de linguagem sobre quem é o mais competente, quem já fez mais para o povo e quem é capaz de realizar mais coisas para os pobres ao dirigir o capitalismo brasileiro. Nessas eleições assistimos a um Lula quase ausente e sem brilho e um Ciro Gomes desesperado e perdido. Como o mercado e a administração do capitalismo é uma guerra de todos contra todos, nessa dinâmica tudo pode acontecer, muitos cenários podem se configurar e se reconfigurar até as vésperas das eleições presidenciais de 2020.

1 Michel Temer assumiu a presidência em maio de 2016, como parte do ritual do golpe parlamentar, e logo em seguida veio uma onda de escândalos envolvendo o seu nome. Na Operação Lava Janto, pelo instituto da delação premiada, Joesley Batista, um dos donos da JBS, apresentou como prova uma gravação de uma conversa com Temer em que se faz referência à compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), ex-presidente da Câmara dos Deputados e responsável direto pelo andamento do processo de impeachment (golpe da Dilma). Cunha havia sido preso por corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça. Dois processos foram abertos pelo procurador geral da república Rodrigo Janot: o primeiro, por corrupção passiva; o segundo, por organização criminosa, formação de quadrilha e obstrução da justiça. A Câmara, a mesma que havia aplicado o golpe alegando “pedaladas fiscais”, deveria aceitar a denúncia oferecida pela Procuradoria Geral da Republica, para que o STF se pronunciasse sobre as denúncias. Todavia, a Câmara dos Deputados barrou os dois processos. Assim, as ações da justiça foram suspensas até o fim do mandato de Temer, quando foram enviadas para primeira instância, onde tramitam lentamente. Os escândalos serviram apenas para adiar a votação da Reforma da Previdência e tornar Temer um presidente golpista morto.

2 Fontes do TSE. Divulgado pela Revista Piauí, edição de 20 de setembro de 2020.

Uribam Xavier

Uribam Xavier - gosta de café com tapioca e cuscuz, peixe frito ou no pirão, de frutas e verduras, antes de ser hipertenso era chegado a uma buchada e a um sarapatel. Frequenta o espetinho do Paraíba, no boêmio e universitário bairro do Benfica [Fortaleza], e no pré-carnaval segue o bloco Luxo da Aldeia. É professor, ativista decolonial e anti-imperialista, escrever para puxar conversa e fazer arenga política. Seus dois últimos livros são: “América Latina no Século XXI – As resistências ao padrão Mundial de poder”. Expressão Gráfica Editora, Fortaleza, 2016; “Crise Civilizacional e Pensamento Decolonial. Puxando conversa em tempos de pandemia”. Dialética Editora, São Paulo, 2021

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