Toda a miséria humana reside na exploração do homem pelo homem. Marx disse isso quase dois mil anos depois de Cristo ter dito aos seus seguidores. Por isso, foi preso, açoitado, tratado como estranho no ninho, pois era imigrante, e a palavra mais importante proferida por ele foi amar o próximo como a ti mesmo. O que a Ciência diz desse mantra do nazareno?
Alguns neurocientistas, estudiosos da linguagem e pesquisadores do comportamento humano associam a destruição dos afetos a um problema da sociedade pós-guerra. Vale a pena ressaltar que falo das duas grandes guerras mundiais, porque, na raiz de tudo, o domínio dos impérios sobre as nações subjugadas não surgiu para libertá-las de alguma pobreza econômica, moral ou calamidade. O domínio exercido pelos impérios pela colonização visava a exploração dos povos através do apagamento das identidades, da imposição de conceitos completamente estranhos ao contexto sócio cultural dos povos.
A forma mais eficaz para isso se concretizar se dá através do alheamento das consciências e do apagamento das mentes e escravização dos corpos. A colonização não foi algo natural, se deu pela ilusão de poder que alimenta o egoísmo e a crueldade humana. É por isso que os sistemas são criados para esta finalidade e alimentados por guerras e pela indústria dos venenos, especialmente os associados à alimentação.
Dito isto, vejamos como se deu esse processo de apagamento das identidades e destruição dos afetos. A invenção do termo pós-modernismo surgiu para justificar as conquistas tecnológicas e científicas atreladas ao desenvolvimento das sociedades herdeiras dos imperialismos. Grécia, Roma, Bizâncio, Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Estados Unidos são exemplos de impérios que comandaram o mundo conhecido e que depois ruíram, mantendo parte dos privilégios conquistados através do genocídio e da pilhagem.
Aos povos colonizados restou a obediência e a ilusão de que um dia seriam libertos, depois da independência política. Daí trataram de demarcar um território, criar símbolos nacionais e diminuir a dependência econômica que gera todas as outras dependências. Enquanto os governos dos países colonizados tentavam realizar essa libertação política, as elites destes países travaram esse processo porque isso significava incluir as populações, que sempre foram exploradas, em programas sociais dos governos, inclusive aqueles que são estimulados pelo Banco Mundial. As elites, invariavelmente, são representantes da exploração econômica das elites mundiais, que mantém fielmente o sistema colonial em atividade “matando” os povos de outras formas, além das guerras, invasões e massacres, sob alegação de proteger o território arrasado das improbidades que praticam, com seu julgamento exclusivo dos conceitos coloniais.
Após as duas grandes guerras, Estados Unidos e União Soviética dividiram o mundo e estabeleceram uma guerra fria baseada em ideologias inconciliáveis. O capitalismo prosperou no ocidente e o socialismo nos países sob domínio das repúblicas socialistas soviéticas, sob tutela da Rússia. A divisão dos cientistas alemães depois da guerra não foi por escolhas de cada um, foi por escravização e imposição de pena de morte, caso tentasse fugir. Todo o armamento bélico produzido neste período tem a marca dos cientistas alemães.
Era preciso manter o poder de domínio dos novos impérios, criando estratégias de distração e de neutralização das consciências. Surge para cada uma delas a indústria cultural e o aparelhamento da ciência pelo desenvolvimento de centros de pesquisas localizados nos países ricos.
O que sobrou para os países empobrecidos pela colonização? Dependência pura e simples. E não se cria dependência em povo consciente e com uma identidade sólida se não for através da massificação de ideias e comportamentos. A indústria cinematográfica e da música, no espectro da indústria cultural, tratou de massificar a ideologia do consumo, da estética corporal e da ascensão ao poder como valor máximo das sociedades. Armadilha pronta para atrair os “feios”, não brancos e sem nome, que lutam simplesmente para sobreviver. Uma certa classe média, preferiu se solidarizar com quem lhes explora também, porque criou a falsa ilusão de que ter bens como imóvel, carro ou poupança para gastar em viagens dos “sonhos” os aproximaria dos que têm posses calculadas em milhões, dezenas de milhões e centenas de milhões. É muito claro que um milionário de milhões não se solidarizará com os que estão debaixo da escala social, porque sua função é explorá-los até que nada mais tenham a dar. Por isso, enfraquecem a educação, a saúde, elitizam algumas profissões e desvalorizam os mais importantes profissionais da sociedade, os professores.
Objetivamente, é preciso destruir os afetos e desmontar a ideia de solidariedade. Cria-se a distração e a imbecilização através das redes sociais e dos conteúdos fúteis que “divertem”, levando pessoas afetuosas, gentis, amorosas a se tornarem distraídas, diluídas em mil atividades para que não possam pensar ou reagir a este apagamento. Estamos nos tornando egoístas citando Foucault, ególatras cantando Safadão, consumidores de produtos para o corpo, porém, adoecidos da alma. Nada contra os intelectuais foucaltianos, os forrozeiros embalados pelo breganejo, os viciados em academia ou produtos de beleza. Tudo isso faz parte da nossa consciência dominada ou não. Reconheço que cuidar do corpo é bom. O que estou chamando a atenção, quase com o desespero de querer gritar, é porque vejo as solidões se ampliarem, os afetos negados secarem o amor, o carinho e a alegria de estar junto. Precisamos reaver a humanidade que resistiu às calamidades, guerras e à imposição do que não faz parte da nossa natureza. Precisamos salvar os afetos e amar o próximo de um amor desinteressado e que faz bem.
Iagem feita com IA
Respostas de 2
Adoro, simplesmente adoro, essa reiterada capacidade crítica – abordando muultitemáricas e todas imensamente relevantes – da tua escrita. És essencial, nobilíssimo Amigo e Professor, Carlos Gildemar Pontes! Tu precisas externar tuas ideias, que desalienam e decolonizam, em cadeia nacional. Peço-te que continues, pois, infrene, hodierno e intrépido! AD INFINITUM. Eternos ósculos e amplexos.
Obrigado, Nádya! Desde que me vi educador, ainda estudante de Letras da UFC, percebi como temos uma tarefa gigantesca a realizar neste país. Você também constrói esse entendimento, porque é sensível e combate as injustiças agindo dentro das possibilidades que nos são dadas. Felizmente, somos muitos e estamos gritando cada vez mais alto, pelos que não têm voz nem oportunidades. Há-Braços!