A CORRUPÇÃO COMO PRIVILÉGIO E SUAS ESTRANHAS RESERVAS MORAIS, EM VINTE E UM AFORISMOS NA SUPERFÍCIE CÍNICOS, ESCRITOS POR UM HOMEM CANSADO

“History, Stephen said, is a nightmare from which I am trying to awake.”
(James Joyce, Ulysses)

I

Ninguém defende mais ardorosamente as regras do jogo do que o trapaceiro. É apenas por aprendizagem ou desafio pessoal que, de propósito, um trapaceiro enfrentaria um adversário também trapaceiro, e isso já seria bastante imprudente e insensato (uma boa pergunta sobre esse tipo humano era se internamente ainda se dividiria em categorias menores, a dos aventureiros e a dos prudentes, por exemplo). Quando um trapaceiro joga contra outro, corre o risco de que seus truques sejam descobertos. Em segundo lugar, ou o objetivo da trapaça, que é obter uma vantagem ilícita sobre o outro, se perde num jogo entre trapaceiros, ou o verdadeiro jogo que é jogado é muito outro.

II

“Pobre tem de ter um triste amor à honestidade”, comenta Riobaldo em certa altura do Grande-sertão: veredas. É uma obrigação inescapável, além das próprias limitações materiais. Não que a pobreza nos torne, por si mesma, solidários e honestos; não que todos nós permaneçamos dentro dos estreitos caminhos da lei, mais estreitos quando se obedece a todas as leis, mas não se tem acesso a todos os direitos, sem a garantia de jamais sermos acusados do que não fizemos nem, nesse caso, de sermos julgados com amplo direito à defesa. Pelo contrário. Sabemos que os braços da lei sobre nós podem ser ainda mais prestos e pesados, ainda que desastrosamente, e que a própria justiça pode ser cega no pior dos sentidos e nas piores horas. É como se – digo do ponto de vista de um senso-comum que beira o irresponsável – internalizássemos um risco constante diante do qual o melhor era sempre permanecer cinzento até a invisibilidade. O fato, é claro, é que os atos contrários à lei exigem que se compreenda uma escala de divisões sociais ainda mais cindida, na qual o jovem pardo ou negro de periferia flagrado com drogas é um traficante e um jovem branco de condomínio é suspeito de vender drogas (uma análise dos crimes, dos autores dos crimes e das suas motivações, dentro desse espectro, lógico, pediria uma análise bem mais apurada: o que me pergunto, aqui, é o que afasta os mais pobres da corrupção como a conhecemos, se é que a conhecemos).

III

É preciso, claro, distinguir a corrupção de outras classes de crime e de contravenção; a distinção que nos importa não é tanto a criminal, jurídica e legislativa, ainda que a análise não vá se prender aos fatos históricos e jornalísticos relativos ao fenômeno, mas antes às suas consequências sociais, ou mais especificamente a uma percepção social do fenômeno da corrupção. Assim, uma característica primeira do que entendemos por corrupção diz respeito à monta, como em “Suje-se gordo”, o conto de Machado de Assis. Dois jurados de julgamento. Um deles conta a história a um amigo. Diante de um desfalque de pouca monta, um dos jurados parece se revoltar por causa do valor irrisório. Não que acredite que a justiça não deva se importar com crimes por causa de sua dimensão, mas porque acredita que um crime deve justificar os seus riscos inerentes. O tempo passa e ele mesmo é acusado de um desvio, mas dessa vez bem avultoso. As provas são abundantes. O homem que conta a história, mais uma vez jurado, vota pela condenação, mas tem o voto vencido. Logo, imagina que poderia estar no lugar de réu, já que aconteceu ao homem que viu julgado e absolvido ter sido júri no passado e estar agora na condição incômoda. Na ocasião, apesar das provas, tinha votado também pela absolvição do que pouco roubara. Recorrera ao preceito bíblico: não julgueis para não serdes julgado. É o falso mote da narrativa.

IV

Enquanto se tratar da mera defesa da vida não é de corrupção que se está falando; mas é o ladrão de galinhas que roubava porque tinha fome que o ódio e o desprezo alcançam mais facilmente. Há leis que consideram os crimes famélicos algo como uma privação dos sentidos; é muito comum, em compensação, que os juízes esqueçam essas leis ou julguem como se as ignorassem.

V

Era uma promessa de fato; cumprir as promessas feitas é um princípio do caráter, às vezes também da paciência, da pertinácia, ou já da teimosia; as promessas de caráter religioso exigem algum tipo de sacrifício, que passa pela abnegação ou pelo esforço. As promessas são feitas nas horas difíceis, quando a causa que se deseja não parece alcançável. Quando se quer tudo se deve arriscar tudo. O descumprimento das promessas, ou o seu acúmulo, mostra como podemos ser fracos, pouco dotados de memória, ou mal agradecidos. Os mais pobres costumam ser bem ciosos nesse sentido, de um modo que pode parecer até ingênuo para quem vê de fora ou de longe. Os santos precisam mesmo dos nossos sacrifícios físicos e das nossas privações? Logo lembramos que uma ideia como essa pode ser uma inspiração maléfica. Mas se Chicó e João Grilo resolvem ficar com aquele dinheiro?

VI

O corrupto amador: quando pego confessa. O profissional: quando se defende acredita na própria inocência e honestidade.

VII

É numa narrativa de 1966, mas não como uma fala direta, e sim como uma reflexão narrativa que acompanha o estado do personagem: “with great power there must also come – great responsability”. Algo parecido às grandes responsabilidades deveria surgir no caso do surgimento dos grandes poderes. Como. Deveria. A criação é do finado sr. Stan Lee. O herói em questão é o Homem-Aranha.

VIII

A honestidade passiva. A desonestidade generalizada. Pequenos legisladores inexpressivos que fazem o que lhes mandam. Agem como se não vissem e não ouvissem. E não falam.

IX

O senso comum diz que são ladrões todos os políticos, que a ocasião faz o ladrão, que o poder corrompe. Uma falsa desconfiança que poupa de pensar. E que preserva a fé cega. Além de nos perdoar dos pequenos pecados que Deus nem percebe.

X

A continuidade da corrupção em grande escala exige algum nível de cumplicidade. O cúmplice, em compensação, é o traidor ou o boi-de-piranha de amanhã.

XI

O que cada um de nós faria no lugar daqueles que ocupam cargos e posições que dão acessos privilegiados a proibidos paraísos da vida terrena, que por menores que possam parecer a um espírito elevado, ainda podem ir além daquilo que alcançam as mãos e os olhos, o que faria neste lugar cada um de nós? A pergunta pode ser interessante como experimento mental, ou trivial como imaginar o que se faria se se pudesse voltar no tempo; pois para a maioria de nós se trata de um espaço interditado; que ainda possamos nos candidatar, desde que mantenhamos os direitos políticos mais básicos e cumpramos com certa burocracia, é o que mantém a ilusão, ou a sombra da ilusão, de que o acesso ao espaço é livre: as leis garantem todos os direitos à concorrência eleitoral e todos os direitos de posse aos que consigam os votos necessários; os votos em si chegaram entre nós ao marco civilizatório da liberdade e do sigilo; a tecnologia e o processo de votação, apesar das críticas sem fundamento de grupos que dependem do caos para prosperar, são confiáveis e livres de fraude, até que se prove o contrário, coisa que nenhum aventureiro chegou perto de lograr até o momento.

XII

Quem pode fazer política e a quem interessa fazer política?

XIII

Antes de existir uma velha política, termo, aliás, bastante genérico, tanta vez ouvido daqueles que representam os vícios mais antigos, há uma antiga cultura política, que apesar de velha sempre consegue se adaptar para permanecer e se perpetuar, uma cultura de manutenção de privilégios que se sustenta em muito nos preconceitos arraigados de uma sociedade que em muito não deseja que ocorra um verdadeiro nivelamento social, que em muito, aliás, se ilude a si mesma na crença de que é partícipe dos privilégios que defende, inclusive dos privilégios de acesso aos tesouros proibidos.

XIV

Esses aumentativos terríveis que doem no ouvido. Como se não bastassem, ao longo dos anos, rimam com futuros incertos. Condenarão os que corromperam. Vigiarão os que prevaricaram. Punirão os que pecaram. Castrarão os que em vão fornicaram. Denunciarão todos os que ganhos ilícitos tiveram. O Brasil fala pelo nariz. Os professores se embriagam. O mar diante disso oferece milenares espumas.

XV

Ele diz “como se” como quem diz que não: devemos agir como se fôssemos vigiados – porque não somos vigiados.

XVI

Não tenha opiniões e ofusque tudo que for de brilho próprio: o elogio daquele que permanece na sombra em nome do seu abrigo. Vide Machado de Assis, na “Teoria do medalhão”. Aceita as injustiças do teu protetor. Vide Machado de Assim, no “Caso da vara”.

XVII

O sobrinho de Rameau, na narrativa de Diderot, trai sua própria formação humanista em nome de uma vida corrompida que ele também vive de forma ressentida, apenas porque os sonhos elevados não se realizaram.

XVIII

O Fausto segundo Goethe. Corrompe-se porque deseja se libertar da razão, sem a qual não há o peso de nenhum imperativo categórico. Acaba tentado a enganar o diabo (segunda parte) em nome do progresso humano e termina arrebatado. Em Thomas Mann, o músico que deseja a obra perfeita depara com o diabo e declara que não o chamou. O diabo responde um pouco como se sempre estivesse lá, porque o pensamento sempre esteve nele. A tentação já é o pecado.

XIX

Chicó e João Grilo, compreensível, precisavam devolver o dinheiro do seu maior golpe, o que superava o suprimento das necessidades básicas, para preservar uma consciência acima de qualquer valor de mercado, ainda que se desse apenas num único ato.

XX

A solução para o problema é ao mesmo tempo individual e coletiva, pois em tudo somos coletivamente individuais e individualmente coletivos (e nunca inteiros) ela se reduz, solução, a uma integridade que supra e supere os alardes moralistas, ou seja, uma vigilância que não faça alarde de si. O ponto no qual não se pode o que não se deve. – O que nós até intuímos – mas não sentimos, porque nos falta o instrumento – é que o poder liberta das responsabilidades a que, originalmente, deveria obrigar. Mas é nessa mesma medida que devemos ser nossos próprios juízes, na medida em que podemos nos absolver a priori, não importa o quanto as provas apontem contra nós feito bússolas na direção norte. E assim, mais uma vez, estamos, todos, comunitariamente sós.

XXI

Sim, sós.

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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