A contemplação como ponto de partida

A política é um dos campos no qual Chiara Lubich produziu uma sua reflexão peculiar, tendo como suporte a novidade empírico-teórica da caminhada humana e espiritual percorrida por seu Movimento dos Focolares, fundado em 1943 e difundido em mais de 180 nações.

 

A primeira convicção do pensamento lubichiano pode-se retirar de um seu texto clássico: “Eis a grande atração do tempo moderno: atingir a mais alta contemplação e permanecer lado a lado com homens e mulheres, compartilhando a injúria, a fome, os sofrimentos e as alegrias fugazes”.
Contemplar significa admirar, saborear algo intensamente com os sentidos do espírito. É uma palavra cuja raiz é templum, ou seja, o espaço destinado aos auspícios da reverência, da estima, do culto. É um verbo que designa o sentido da autêntica teoria: o ser em contemplação. No sentido cristão significa atingir a união com Deus, não apenas por meio de um processo reflexivo-discursivo, mas principalmente pela vivência pessoal de sua Palavra. A partir deste processo contínuo contemplativo, a pessoa pode inundar todos os campos da vida humana, pessoal e coletiva, inclusive o campo político. Para Chiara, “não há renovação, inclusive política, que não comece pela contemplação”. ((Abba Revista Cultural, São Paulo, v.2, n.1, 1999, Ed. Cidade Nova).

 

Ou seja, é preciso ter olhos para ver e ouvidos para escutar mais além do que aquilo que nos é posto pelas ideologias, pelas mídias e manipulações redutoras de nossa humanidade. Afinal, o ser humano é um ser entregue a si mesmo, alguém que não vem pronto ao mundo. Ele é interpelado a ser, a se construir permanentemente, em uma busca contínua por sua humanização. E é como pessoas capazes de contemplação (transcendência) que nos constituímos como somos seres éticos e políticos.

 

Contemplar significa transcender a nós mesmos. Constitutivamente todos nós seres humanos somos seres abertos ao outro humano e ao outro Natureza. Ou seja, somos seres abertos à Totalidade. Portanto nós nos construímos a nós mesmos à medida que construímos relações saudáveis com a Natureza e com os outros humanos. Ética e Política devem *apontar os critérios* para a construção e efetivação dessas relações fundamentais.

 

Um segundo aspecto a destacar do pensamento lubichiano sobre a política é a sua compreensão madura de que “apesar de ser um campo de lutas, a política é uma maravilhosa possibilidade de amor social”. (Abba Revista Cultural, São Paulo, v.2, n.1, 1999. Editora Cidade Nova). Isso está em plena consonância com aquilo que apregoavam os gregos antigos quando afirmavam que a Ética impõe-se para efetivar a liberdade e a autodeterminação da vida humana. Todos os seres humanos nascem iguais e livres em dignidade. Portanto, liberdade e igualdade são um ponto de partida e um ponto de chegada, um projeto de vida que precisa ser garantido no decorrer do tempo uma vez que nós humanos somos seres históricos. O nome que os gregos deram para a dimensão pessoal e subjetiva da vivência ética foi Virtude. E para a dimensão ética relacional e institucional eles a batizaram com o nome Política, porque tem a responsabilidade de produzir o bem coletivo. A liberdade tem duas dimensões inseparáveis: individual e institucional. Se as instituições e os sistemas jurídico-políticos são provocadores de desigualdades, discriminações e de injustiças fundamentais, eles são fundamentalmente Aéticos.

 

Dentro desta perspectiva, é importante registrar que para Lubich “ao se enfrentar os problemas concretos da política, seja no poder executivo como no legislativo, é preciso ter uma opção preferencial pelos marginalizados, pelas periferias urbanas. Para isso não se pode confundir religião com política. Reconhecer a especificidade da política em seu próprio campo, porque não é o Jesus Histórico quem resolve os problemas políticos”. (Abba Revista Cultural, São Paulo, v.5, n.1, 2002. Editora Cidade Nova). Para Chiara, quem resolve os problemas políticos somos eu, você, nós, quando o amor age em nossas pessoas.

 

Portanto, nenhum ser humano pode ser reduzido a meio. O valor ontológico do ser humano é a base de qualquer sistema político de valor normativo. Tem que ser considerado um fim em si mesmo pois é o ser onde o Universo se diz. A defesa incondicional do ser humano é obrigação ética (pessoal, relacional e institucional) básica, pois possuidor de direitos fundamentais inalienáveis que não lhe são outorgados por um poder, mas que são anteriores a qualquer poder, porque decorrentes de sua própria constituição de ser humano. E não é isso que estamos vendo no Brasil do Golpe, com a retirada de direitos individuais e sociais, com a perseguição a jornalistas, além do processo de exacerbação da violência simbólica e real por parte do aparato institucional brasileiro contra homens e mulheres comuns de nosso país.

 

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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