A “Carta ao Povo Brasileiro” e a “Carta do Povo Brasileiro”

A carta ao povo brasileiro, escrita por Lula, antes da sua chegada ao poder, e a carta do povo brasileiro, divulgada em 15 de abril de 2015, em Brasília, pelos movimentos que organizaram as manifestações do dia 15 de março e 12 de abril têm algo em comum: um truque de trapaceiros.

A Carta ao Povo Brasileiro, assinada por Lula, não se dirigia ao povo brasileiro, mas aos banqueiros e rentistas. Era uma carta compromisso com o setor financeiro onde Lula assumia que não faria mudança nas regras do jogo. E o resultado de não ter aproveitado os dois primeiros mandatos para fazer mudanças estruturais é o quadro de fragilidade econômica que nos encontramos hoje, o total esvaziamento de parte dos movimentos sociais que gravitavam em torno do PT e a esquisitice em que se transformou o próprio PT. Portanto, a Carta ao povo brasileiro era um truque de Lula para chegar ao poder tendo o setor financeiro e os setores do mercado como aliados.

A “Carta do Povo Brasileiro” é mais esdrúxula, primeiro porque não é uma carta do povo brasileiro, pois tem como signatários 26 movimentos, mas não é esse o seu principal problema. Seu problema é que ela esconde que, em última instância, tem por objetivo promover um golpe branco contra o regime representativo. Um sistema que já vem cambaleando por não representar os verdadeiros anseios da população. Um sistema onde a política foi privatizada e o sistema representativo enfrenta uma das suas mais profundas crises.  Além disso, mesmo com o clima vergonhoso de corrupção que assola o país, suas instituições, a maior parte dos envolvidos na corrupção, sejam políticos, partidos ou empresas, têm afinidade com a única e verdadeira proposta defendida na “Carta do Povo Brasileiro”: o pedido de impeachment contra a presidenta Dilma. Trata-se de uma tentativa de repetir o modelo de golpe institucional ocorridos em Honduras [28.02.2009] e no Paraguai [22.06.2012].

o encontro entre os partidos conservadores e os representantes das organizações que promoveram as mobilizações pelo golpe institucional, eles não trataram de nenhuma outra proposta apresentada na “Carta do Povo Brasileiro”, só trataram do pedido de impeachment. Isso não diz muito das verdadeiras intenções dos organizadores desses movimentos?

As mobilizações de ruas, tanto do dia 15 de março quanto do dia 12 de abril, movimentaram um conjunto de pessoas indignadas com a corrupção e com a situação econômica do país; pessoas que têm motivos justos para protestar, mas a maioria delas nem de longe desconfia de que estão sendo manipuladas por movimentos conservadores, fascistas, patrocinados por interesses financeiros internacionais e ideológicos, como o Instituto Vom Mises, que defende uma sociedade de mercado, sem política social, sem democracia e que, durante as mobilizações, distribuíam cartazes ideológicos para pessoas ingênuas carregarem, mesmo sem saber a profundidade do conteúdo; cartazes que condenavam Marx, Florestan Fernandes e Paulo Freire, e outros que pediam menos Marx e mais Von Mises [economista liberal conservador da chamada Escola Austríaca]. E é na onda do descontentamento real, da despolitização e dos interesses dos meios de comunicações, que os signatários da “Carta do Povo Brasileiro” se escondem com seus truques de trapaceiros.

Se é um movimento contra a corrupção, porque não criticar os membros do Congresso Nacional citados na operação Lava Jato, como os atuais presidentes do Congresso e do Senado Federal? Se o movimento é contra a corrupção, porque procurar exatamente parlamentares e partidos envolvidos em esquema de corrupção como aliados para derrubar o governo Dilma? Bem, como todos sabem, sou crítico e opositor do PT e do governo Dilma, mas acho que o caminho para resolver a parada não é por meio de truques, trapaças e manipulação de pessoas para atingir interesses que não se fazem transparentes.

Uribam Xavier

Uribam Xavier

Graduado em Filosofa Política e Doutor em Sociologia, professor da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais. Autor do Livro “O Capital e a Política”, editora Livro Novo, São Paulo, 2012.

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