A arte intimista de Sam Levinson

Fim de tarde do domingo, vem-me a mensagem da filha Carolina: — “Pai, veja na Netflix o filme Malcolm & Marie! Acho que vai gostar!” Como pedido de filha é ordem, ato-contínuo ligo a tevê como que para cumprir uma obrigação. E que coisa maravilhosa foi assistir ao filme com roteiro e direção de Sam Levinson e os atores John David Washington e Zendaya nos papeis de Malcolm e Marie, as duas únicas personagens do longa com 106 min de duração e rodado em preto e branco de tirar o fôlego.

Levinson, para quem não lembra, é o diretor/roteirista de Euphoria, a premiada série da HBO que, em 2019, obteve extraordinário sucesso mundo afora. O roteiro, embasado em diálogo inteligente e ágil, é simples (embora profundo): Um cineasta e a namorada chegam em casa após a festa de lançamento de um filme dele. Tudo normal, não se desencadeasse entre os dois uma discussão que se estende por quase toda a madrugada (e rigorosamente todo o filme), algo que lembra o melhor Michelangelo Antonioni da trilogia da incomunicabilidade.

Aliás, para além daquilo que o roteiro deixa claro com o desenrolar da história, o conflito psicológico de um casal em meio às expectativas existenciais próprias da  modernidade, prováveis influências formais de Antonioni se fazem perceber no requinte visual do filme. As imagens, como no mestre italiano, são exploradas com um senso estético notável, e Levinson usa e abusa dos enquadramentos geometricamente idealizados: linhas, retas ou curvas, quadrados e retângulos compõem a perspectiva visual de cada cena, cuja beleza extrapola o mero formalismo para inserir-se com sutileza e expressividade conteudística nas constantes oscilações dramáticas da história. Explica-se, assim, para o espectador mais atento, a feliz escolha do ambiente: a casa de Malcolm e Marie, quando enquadrada em plano aberto, aparece isolada em meio ao matagal e suas paredes são em sua maioria de vidro, o que permite profundidade de campo e planos-sequências estilizados bem ao gosto de Sam Levinson. Para não falar, por último, dos “planos mortos”, que fazem recordar a sequência final de O Eclipse (1962), o último título da trilogia da incomunicabilidade.

Esteticismo à parte, o certo é que Levinson conseguiu, com economia de meios e tempo (o filme foi rodado durante alguns dias do ano passado), realizar um filme profundo, cujo esteio temático vem a calhar num momento em que a necessidade de reclusão faz aflorar os mais íntimos dilemas da vida a dois.

Ex-usuária de drogas, Marie carrega consigo o peso do estigma: inconformada com o fato de ser elemento inspirador do filme de Malcolm, para cuja personagem central foi reprovada em teste de elenco. Sua frustração, de que se originam outras manifestações do conflito, trabalha como gatilho que faz disparar falas tensas, febris, mas construídas numa linguagem competente e não raro poética. A forma como a discussão evolui, aqui e além interrompida por uma declaração de amor que beira o psiquiátrico, confere ao filme uma densidade dramática que a um só tempo surpreende e encanta, mesmo quando o filme desliza para segundos de silêncio que parecem não ter fim. É aí que a beleza da imagem explode num contraste de luz e sombra que revela a formação clássica do diretor, como a nos trazer de volta um certo Ingmar Bergman da primeira fase.

Malcolm e Marie, portanto, é um filme que excede em suas qualidades de forma e conteúdo, por mais que algumas particularidades do roteiro pareçam pouco espontâneas, a exemplo de uma recorrente reflexão sobre cinema, filme sobre filme, num tipo de metalinguagem algumas vezes forçosa e desnecessária, mesmo quando o conflito envolve um cineasta como uma de suas personagens centrais.

Em seus momentos mais felizes, enquanto arte, todavia, Malcolm e Marie é filme de encher os olhos: a cena em que o casal interrompe a briga e se entrega a uma relação sexual que não chega ao clímax, por exemplo, é trabalhada com um rigor estético sublime: a composição do quadro, a angulação da câmera, fugindo intencionalmente a certos preceitos da gramática fílmica  — como evitar o estranhamento para o espectador —, resultam exitosas e em alguma medida originais, se ainda se pode falar de originalidade em termos cinematográficos.

Conclusivamente, Malcolm & Marie, como obra de arte de boa qualidade, não se propõe deixar uma mensagem, mas se formular uma questão. A esta altura, peço desculpas ao leitor, é natural que mais uma vez me ocorra lembrar de Michelangelo Antonioni: — “Como podem os homens e mulheres modernos, enquanto seres complexos com necessidades e conflitos, viver juntos?”

A esse propósito, pena que não deva eu incorrer num spoiler citando a bela sequência final do filme.

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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