FAÇO COISAS QUE ASSUSTAM SATANÁS, por Alexandre Aragão de Albuquerque

O polêmico cineasta global, José Padilha, apoiador de carteirinha de Sérgio de Moro (aquele do “conje” e das “rugas”), desde a época da Lava-Jato, assim como a Rede Globo, intitulando-o de “samurai ronin”, em alusão à lenda mais famosa japonesa do código de honra Samurai, neste dia 16 de abril publicou um artigo na Folha de São Paulo reconhecendo o grave erro cometido em sua avaliação.

Qual o motivo?

O cineasta condena apenas um único aspecto do pacote, que em sua totalidade apresenta fortes reduções das liberdades individuais e das garantias do direito inalienável de defesa durante todo o processo legal. Para Padilha o problema reside apenas no fato de o pacote anticrime enviado por Moro ao Congresso ser “um absurdo no que se refere à luta contra as milícias. É um pacote pró-milícia”. Ainda conforme Padilha, “Sérgio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro”. Ou seja, a afirmação do cineasta global acusa uma evidente ligação entre a família Bolsonaro e a máfia miliciana fluminense. Uma importante denúncia, sem dúvida alguma.

A pergunta que se segue: estaria isso tudo acontecendo por acaso?

Se olharmos bem os fatos, os movimentos midiáticos e político-institucionais, desde o Golpe de abril de 2016 que depôs a presidente Dilma até o processo esdrúxulo que condenou o Presidente LULA a uma prisão ilegal, identificaremos uma vasta conexão de ações orquestradas que desembocaram na eleição do capitão, com sua ideologia de extrema-direita, ao Poder central brasileiro.

Mas, o que é o pensamento de extrema-direita?

É um pensamento racista. Que parte de um racismo biológico e étnico chegando a uma concepção moderna de “racismo social”. A ideologia racista nasceu como ferramenta de dominação sobre a vida das pessoas, atribuindo-se o poder de definir quem deve viver e quem deve morrer. O Brasil é um exemplo clássico desta ideologia com sua cultura e estrutura escravistas, desde a sua fundação. Eis, pois, a primeira razão do racismo: fragmentar, censurando pessoas e grupos, classificando-os de inferiores, sub-humanos, terroristas, comunistas, anormais, para subjugá-los e exterminá-los. O foco da ideologia de extrema-direita está centrado em impor sofrimento e assassinato ao outro.

Qual o risco que o pacote do Moro apresenta, segundo a visão de Padilha?

A ampliação desse poder de morte ultrapassar o umbral do Estado abrindo a porteira para o poder de morte pela Sociedade a partir de uma cultura de violência alimentada diuturnamente pelas redes sociais e mídia em geral. As milícias representam mecanismos de poder social que funcionam acima, abaixo e ao lado dos aparelhos de Estado, a um nível muito mais elementar, cotidiano, na opressão e controle de pessoas, grupos e comunidades. Uma máfia articulada com setores e atores estatais.

No filme de Padilha, ele destaca a ideologia que permeia a mente dos soldados. Em seus gritos de guerra, cantam seus objetivos: “Entrar na favela e deixar corpos no chão, fazendo coisas que assustam Satanás”. Na narrativa do capitão Nascimento, produzida e ovacionada pelo cineasta global José Padilha, o BOPE aparece como uma santidade, espécie de consciência moral da sociedade, promotores de um tipo de “justiça”, custe o que custar, legitimada pela instituição militar, considerando os habitantes das comunidades faveladas como INIMIGOS. Para Padilha, a forma de pensar e de agir do BOPE é correta. Nascimento (Tropa de Elite 1, 2007) foi ovacionado por ele, de forma simbólica, como o “samurai ronin”. Seria já um elogio antecipado a Moro? E Padilha, cineasta global, agora está reclamando de que, se ele ajudou a compor essa orquestração?

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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