A lição de Tim e outras lições, por Álder Teixeira

Atribui-se a Tim Maia a afirmação: “Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e pobre é de direita!”

Irreverência à parte, é a percepção que vêm causando os números das últimas pesquisas para presidente, pelo menos numa fatia do eleitorado constituída pela chamada nova classe média, aquela que mais diretamente foi beneficiada pelos governos do PT. Gente com renda mensal entre 3 e 5 salários, que teve acesso aos 20 milhões de empregos criados por Lula, passou a comer e a se vestir melhor e viu o improvável acontecer: seus filhos ingressar na universidade e vislumbrar um futuro melhor.

A confirmar o que existe de bizarro na ingratidão desses “emergentes”, são os escolarizados e as mulheres que engrossam o coro em favor de um candidato preconceituoso, autoritário, homofóbico, misógino e entusiasta da tortura. Sem fechar os olhos, claro, para o fato de que são em grande número as exceções, a exemplo do que se vê no movimento #EleNão, capaz, como disse na última coluna, de decidir a eleição contra o retrocesso e a barbárie que já não se pode considerar, infelizmente, uma probabilidade remota.

No Brasil, sabe-se, a ingratidão é irmã gêmea da ambição. O empresariado, por exemplo, que nunca antes havia se servido à farta como o fez nos governos de conciliação de Luiz Inácio Lula da Silva, agora cospe no prato que comeu, humilha a quem bajulou um dia e vem a campo vomitar sua baba odienta contra Haddad. Se não é possível com o banqueiro Amoedo nem com o tucano Alckmin, vamos de Bolsonaro, que só não pode ser o PT.

Mas, em se tratando da burguesia hipócrita do país, ocorre-me lembrar da cena imperdível do Memórias Póstumas de Brás Cubas intitulada “O Almocreve”, lá pelo capítulo XXI, se não me falha a memória, do romance maravilhoso de Machado de Assis: Brás Cubas montava o seu burro quando, de repente, o bicho empacou. E haja saltos, pinotes, corcoveios, fazendo cair o nosso herói… o pé preso ao estribo. Eis que surge um almocreve que o ajuda, salvando-o do pior desastre.

Na medida em que se refaz do susto, Brás Cubas pensa em recompensar o pobre homem com três das cinco moedas de ouro que carrega no alforje. Mas três, ponderou, agora mais tranquilo, não serão demais? Fixa os olhos no pobretão, que “conversava” com burro repreendendo-o, que não fizesse outra vez assim. Duas moedas já seriam paga de bom tamanho para essa gente tão pobre e infeliz. Dá-lhe uma, e de prata.

E sai, montado no animal, enquanto repara no seu salvador à distância, grato com a recompensa. É aí que, vasculhando o bolso, constata ter ali alguns vinténs em moedas de cobre. Arrepende-se, pois que lhe poderia ter dado esses trocados ao invés da moeda de prata. Afinal, a um pobre, toda ajuda é bastante, pois que age sempre de modo desinteressado.

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *