77 – Renato Angelo

 

Certo dia, conversando em uma festa com alguém em comum, foi-me revelado um novo estilo de lidar com a memória familiar, a afetividade e a privacidade. Meu interlocutor, pai recente, me contava de sua felicidade em descobrir-se criador. Como um pistoleiro de faroeste sacou, rapidamente, sua arma moderna (aquela que todos, até crianças, têm hoje em dia). Dela, em profusão, saiam, não balas, mas fotos de um simpático carequinha recém-nascido. 

Após a saraivada das primeiras dezenas de projéteis, talvez por educação ou curiosidade sincera, resolvi perguntar da quantidade de cartuchos disponíveis naquela arma. Com uma expressão misto de blasé e vaidade tecnológica veio uma cifra como resposta: 3.000. Fiquei encabulado… A criança mal contava seis meses de vida e já possuía álbum digital, compartilhada via web, com centenas de registros fotográficos de sua primeiríssima infância. Que significava isso? Qual o impacto da digitalização aos nossos processos afetivos de memória? 

Escrever com luz momentos singulares, desde o século XIX, encantou o mundo e ganhou o status de Arte com justiça. Primeiro com o charme do preto e branco, depois colorido, lançou o desafio “fatal” à Pintura. Análogo ao que aconteceu entre o teatro e o cinema, o antagonismo Foto-Pintura serve como repto a ambas as linguagens. Talvez mais profunda ainda que o choque entre a arte/culto helênica e a criação dos irmãos Lumière, o advento da fotografia parece ter forçado aos pintores a reinvenção de seus estilos, técnicas e a própria razão de ser de sua arte. É que a fidelidade da criação de Niépce pôs em alerta os pintores dos “novecentos”. 

– De que serviria pintar um quadro (por dias ou meses) se o retrato, sendo mais rápido e mais preciso que qualquer renascentista, se impõe inexoravelmente?      

Pois bem… são 77. A “setenta e sete” se resume minha lista de fotografias infantis. Fiz as contas. A capa dura com desenhos de um gato e um leão lutando karatê escondia inauditos cabedais. Limitados cabedais! Em meio ao álbum da Kassuga minha primeira infância cabia, confortavelmente, como uma memória que se aperta para sentar-se no banco traseiro de um Fusca voltando de uma festa. 

Se os fisiocratas ingleses e todos os primeiros economistas estavam certos, o valor das coisas varia de acordo com sua freqüência: quanto mais raro, mais caro. Quanto mais abundante, mais trivial, banal e ordinário. Foi então que, menos por despeito e mais por reflexão, fleti-me ao arsenal do pai paparazzo. Papa…razzo. Seguindo o ritmo atual seria fácil prever que, aos cinco anos, nosso bebê celebridade (do primeiro parágrafo) já teria trinta mil fotografias digitais, compartilhadas e imunes à passagem do tempo. Nada de fungos, nada de traças, nada de cheiro de guardado ou negativos da Aba Film. 

Mas sem negativos a dialética não se completa… Cadê o contraditório? 

Nos primórdios da arte fotográfica Julia M. Cameron reproduzia em temática e estética a pintura de Dante Gabriel Rossetti (e outros pré-rafaelitas também, mas Rossetti principalmente). Com certa freqüência uma arte revolucionária paga seus tributos à antecessora. Alguns o fazem por respeito e sentimento de débito. Outros por simples estruturas estéticas incorporadas da linguagem anterior. São ecos que se fazem ouvir… como quem, adentrando na nave de uma catedral, escuta os passos daquele que o precedeu além de seus próprios. Foi assim com o cinema mudo copiando a arte dramática. Foi assim a relação Julia-Rossetti.

Entretanto, de todas as artes citadas, a fotografia tem a maior facilidade em fazer a travessia entre a Arte – stricto sensu – e o mero hobby… a ação descuidada dos amadores. Principalmente após a fotografia digital – e sua quase ilimitada capacidade de armazenamento e compartilhamento – esta arte se tornou, talvez, a menos aristocrática das artes. (Perdão leitor/a! A música deve ser ainda mais popularizada. Mas… vá lá… tudo bem. Sejamos indulgentes, o natal está chegando.) Quando falo isso não estou diminuindo o valor de um Sabastião Salgado, cuja obra toca fundo na alma. Mas o poder da emoção pode estar se esgueirando entre uma foto e outra, de álbuns antigos: amigos que você não vê mais, familiares que viraram lembrança, amores que viraram seu avesso… A técnica? Tanto faz a técnica… fotos tremidas do passado podem fazer tremer quem as divisa e se lembra. Fotos antigas, mesmo amadoras, são únicas… e evocadoras de múltiplos sentimentos.

Mas… em qual terreno estão as fotos de nossas infâncias? Quão (realmente) democráticas são as fotos digitais? Qual delas teria mais valor? As três (sic) fotos em que apareço no berço (presas ao mofado papel adesivo do álbum da Kassuga); ou a seqüência de megapixels das séries de fotos número 345 a 1276, 2569 a 3108 do filho de meu interlocutor supracitado? Sou tentado a refletir sobre o quanto valem os milhares de textos, vídeos e imagens gerados via aplicativos de mensagem (e esquecidos segundos após). Se a quantidade não responde pelo valor, então o quê? Para quê? Deixo a resposta ao leitor/a. Quando respondamos quantas fotos devemos tirar, também saibamos quando. E para que as tiramos e para quem as disponibilizaremos.

Talvez precisemos de mais sentimento independentemente das capturas deste pelas coisas, sejam elas físicas ou digitais. Mas o fato de que nossa retina também pode guardar imagens-memória em nosso HD biológico individual (e intransferível) não deslegitima, em absoluto, a fotografia. Muito pelo contrário. As vejo como complementares. Ao olho do homem ou da mulher se soma o olho da câmera. E o resultado desta soma é que cada olho vê aquilo que o outro não viu. São realidades alternativas e complementares na busca de completar o sentido do que somos através de variados enfoques, ângulos e matizes.

Diga “X”! 

Renato Angelo

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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