30 DE MAIO, EM DEFESA DA SOCIEDADE BRASILEIRA, por Alexandre Aragão de Albuquerque

​​Na  sua obra EM DEFESA DA SOCIEDADE, Michel Foucault trata da temática do nascimento do racismo de Estado, na tentativa de situar a questão não apenas do ponto de vista de um racismo étnico, mas de “um racismo tipo evolucionista, o racismo biológico”. Foucault afirma que primeiramente o racismo vai se desenvolver com a colonização europeia, sobretudo nas terras descobertas da América e da África, que acarretou um “genocídio colonizador”. O extermínio das populações indígenas nas terras brasileiras como também o sistema escravista de povos africanos são exemplos históricos clássicos do que foi capaz a colonização branca. Sobre essa base racista edificou-se a construção da mentalidade de indivíduos pertencentes a diversos grupos de poder no Brasil.

Hoje, 26 de maio de 2019, com a ida às ruas de pequenos grupos desarticulados em defesa do governo Bolsonaro, tivemos a oportunidade de atestar uma simbólica manifestação do caráter social autoritário que continua a habitar o pensamento de diversos indivíduos brasileiros. Entende-se “caráter social” como sendo o núcleo essencial da estrutura da personalidade da maior parte dos membros de um determinado grupo, que se formou como resultado das experiências básicas acumuladas e estilo de vida comum àquele grupo.

Defender o governo Bolsonaro significa concordar com o corte profundo que este vem executando contra a liberdade e o direito à educação de que todos os cidadãos e cidadãs brasileiros são detentores; implica corroborar com a cultura de violência desenvolvida pelo governo por meio da propaganda e de decretos facilitadores da venda e do porte de armas para a população civil, num país que é campeão em homicídios de jovens e mulheres; significa apoiar a aprovação do Projeto de Reforma da Previdência que penaliza a idosos e trabalhadores assalariados comuns, obrigando-lhes a assumir o ônus total de seus planos de capitalização previdenciária, retirando das empresas a corresponsabilidade solidária; implica desconhecer a falácia de um governo que prometeu combater a corrupção, mas que tem em seus quadros ministros corruptos, além de o próprio filho do Presidente estar envolvido numa sequência de denúncias de corrupção passiva e enriquecimento ilícito, com fortes suspeitas de envolvimento com grupos de milicianos, sob o silêncio total do ministro da justiça.

A defesa da sociedade passa por novas formas de visão da vida e de visão do outro. Passa por uma ética da responsabilidade diante de todos aqueles que são vulneráveis por ser resultado de constructos históricos. Torna-se necessária a elaboração de conceitos, projetos, programas, práticas que contribuam na formulação e avaliação de políticas públicas voltadas para a superação das desigualdades sociais e um novo entendimento das relações sociais fundamentadas em vínculos de solidariedade e reciprocidade. Para serem efetivas, tais políticas têm de se pautar pela expansão dos direitos, por uma cidadania plena e pela garantia da vida da pessoa humana nos espaços populares e em todos os espaços das cidades brasileiras.

A democracia precisa ser instruída continuamente no sentido de capacitar os cidadãos membros do pacto republicano, aqui incluídos civis e militares, a uma convivência que promova o diálogo como fundamento primeiro do convívio democrático. Para isso, entre outras coisas, é preciso um projeto político do Estado brasileiro que seja capaz de superar o preconceito e a histórica e profunda desigualdade social e econômica vigente em nossa sociedade. No próximo dia 30 de maio vamos SUPERLOTAR as ruas do Brasil, para mostrar a este governo autoritário que a Sociedade Brasileira está viva, articulada e consciente do seu papel histórico em defesa da democracia substantiva e participativa.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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