Eu apenas abri a janela e deixei a vida entrar

Diria sim, diria assim, a Fortaleza que há em mim.

Os cigarros que não fumei, o pulmão que eu preservei.

As árvores que abracei e os gatos que da rua salvei.

O dedo na cara que eu apontei 

e a unhada no pescoço que desenhei

Os banhos nua que eu tomei na ressaca da noite, na boca da praia.

As rabissacas que eu dediquei esnobando a pobreza de rico metal.

Só na baixa da égua você apontar meu sotaque dizendo que ele era forte demais, e num delírio sugeriu até mudar o meu nome: “que tal assim: Heli Kerin? Fica mais moderno e até parecido com a atriz Halle Berry”.

  • Não, obrigada, estou bem assim.

Os livros que eu ganhei, os irmãos mais velhos que adotei.

As bocas que eu beijei e as distantes que só desejei.

Os amores que conquistei e as paixões que eu sepultei.

As páginas que escrevi, as letras que eu engoli e as palavras que depois recitei.

 

Os “nãos” que me salvaram,

os ‘sins” que me apaixonaram,

os sábios que me alertaram 

e os sapos que evaporaram.

 

Os segredos que descobri 

e o cofre invisível onde eu escondi.

As guerras que eu não criei 

e as batalhas que sempre enfrentei.

 

A posição que eu não tomei 

e a luta que ignorei 

a bandeira que não levantei 

e o objeto que não investiguei.

 

Os meninos que eu não salvei 

e as mães que não acalentei

as desculpas que eu não pedi 

e o Estado que não confrontei.

 

O tesão que direcionou

a paixão que ressuscitou

o grito que explodiu num gozo que nunca acabou.

 

O compromisso de uma palavra

e o assombro da linha em branco

a potência de uma escrita no enigma do que não foi dito.

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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