Vivemos um momento histórico

“Todo poder aos sovietes*”

Lênin

​Há momentos na história nos quais parece que o universo conspira contra o que está socialmente posto como se a própria natureza estivesse vivendo as dores do parto de um novo porvir.

​Acabei de assistir ao bom filme “O trem de Lenin”, que relata a importância de um grupo de revolucionários exilados na suíça e seu retorno à Rússia no processo de ruptura daquele país com a monarquia czarista dos Romanov, ao mesmo tempo em que se desenrolava a primeira guerra mundial.

​A penúria do povo russo aumentava pela guerra e se aliava à instabilidade própria de uma mudança de conceitos políticos com reflexos econômicos graves e próprios às mudanças imediatas no modo de relações políticas e de propriedade então em curso.
A deposição de Nicolau II e a instalação, no começo de 1917, de um governo provisório vacilante sobre decisões relativas à continuidade da participação da Rússia campesina na guerra que dizimava milhões de russos e a necessária paz diante de uma Alemanha claramente derrotada, necessitava de decisões fora do tradicional colaboracionismo social democrata emergente representado pelo novo poder vacilante que se instalara.

Os bolcheviques, liderados por Lenin, e com a decisiva participação de Trotsky no processo revolucionário armado, compreenderam a importância da paz graças ao fim das hostilidades com a Alemanha, proposta que recebeu a adesão do povo russo e, em especial da classe trabalhadora, e assim foi possível a criação do primeiro Estado dito proletário, ainda no mesmo ano de 1917.
Jamais poderemos saber se se daria um novo rumo ao processo revolucionário russo se não fora a morte de Lenin em 1924, após o agravamento do seu estado de saúde, e apenas sete anos após a revolução de outubro de 1917; são os desígnios da história que jamais serão desvendados.
Pessoalmente, mesmo respeitando a liderança, o gênio político e a indubitável postura revolucionária de Lenin, suponho que ele não havia compreendido a capacidade da Rússia, com sua grande extensão territorial e recursos materiais, em promover uma ruptura com as categorias capitalistas então continuadas, até porque foi ele quem promoveu a NEP – Nova Política Econômica –, que aceitava a flexibilização para empreendimentos capitalistas diante da necessidade de combater os contrarrevolucionários e a fome que se instalava na Rússia por conta desse embate. Se ele teria sido apenas forçado pelas circunstâncias e posteriormente daria uma guinada nesse processo, é coisa que jamais saberemos.

Em toda a sua vasta obra, Lenin pouco, ou quase nada, se reportou ao que considero a parte mais importante da obra de Karl Marx – a crítica da economia política -, ou seja, da forma-valor e de toda a sua nefasta entourage acessória.

Com a morte de Lenin e a ascensão no Partido Comunista de pretensos revolucionários oportunistas como Stalin, incapazes de promover e conviver com a têmpera e renúncia ao culto personalista de poder que deve nortear o senso de justiça dos verdadeiros revolucionários, o que se viu foi a perseguição e morte dos primeiros revolucionários em processos forjados, como sempre acontecia com a monarquia czarista e tantos outros governos ditatoriais mundo afora em relação aos seus opositores.

Assim mesmo, não podemos esquecer que foi o sucesso dos primeiros anos de isolamento da Rússia em relação à concorrência de mercado com o desenvolvido mundo capitalista, o que lhe proporcionou o desenvolvimento da industrialização e implementação da infraestrutura russa (energia, estradas, eletrificação, petróleo, alfabetização, etc.) capazes de promover a recuperação tardia até esbarrar nos limites exigidos pela lógica expansionista do capital e ter que se abrir para a fratricida concorrência de mercado externo.

Não devemos esquecer, também, que foi a heroica resistência do povo russo, com seus cerca de 27 milhões de mortos (mais de 50% de todo o total de mortos na guerra) e sua desconhecida (de então) e desenvolvida força bélica (os tanques russos, adaptados ao clima e topografia deram um banho nos convencidos generais da blitzkrieg dos tanques alemães) que desequilibrou a guerra em favor dos aliados e foi acuar e provocar o suicídio do genocida e nazista ditador burguês Adolf Hitler em seu bunker no coração de Berlim.

Vivemos um momento impar na história recente e breve do capitalismo, de pouco mais de duas centenas de anos em suas formas políticas e de revoluções industriais.

Aliaram-se no presente momento dois fatores explosivos:

a) a obsolescência dos conceitos de produção de valor a partir da exploração do trabalho abstrato, hoje tornado em maior parte desnecessário, que representa a morte da galinha dos ovos de ouro;

b) com uma pandemia virótica que apesar do seu baixo grau de letalidade per capita (em torno de 2% a 3% dos infectados, em média, mesmo considerando os idosos, mais vulneráveis), é tão abrangente que está sendo capaz de criar o impasse capitalista (que só pode ser superado a partir de outros critérios) entre morrer infectado ou promover o isolamento social e com ele reduzir a produção e circulação de mercadorias a patamares insuficientes para o abastecimento do consumo e dinâmica da reprodução da massa de valor.

Tal como Lenin, que foi capaz de captar com sua sensibilidade revolucionária na primeira guerra mundial, estamos diante de um momento no qual a única saída possível é nos voltarmos para um modo de produção capaz de promover a ruptura com o velho capitalismo carcomido, cujos sinais de esgotamento são evidentes.

Podemos extrair dos nossos vizinhos o esgotamento de governos que atuam sob a égide de todo o sistema capitalista. Basta uma fagulha para começar o incêndio.
O aumento de passagens no Chile (como já acontecera no Brasil em 2013), foi o bastante para que houvesse um levante capaz de mobilizar o povo chileno na exigência de uma nova constituinte (as mulheres e os estudantes como vanguarda desse movimento), que nada mais é do que o prenúncio de um novo tempo em substituição ao esgotamento de um modelo que encontrou o inconciliável limite e choque entre forma e conteúdo sociais.

Na Colômbia se observa o mesmo processo de insatisfação popular; na Bolívia os golpistas conservadores de ontem estão a ser presos; na Argentina o governo conservador perdeu as eleições e se elegeu um governante de centro, mais keynesiano do que liberal, mas que logo-logo enfrentará o desgaste de um processo irreversível de esgotamento do modelo ainda vigente por lá; no Paraguai, germina a mesma insatisfação.

Se lançarmos um olhar para Jerusalém; para o Iêmen; para a Síria; para o Afeganistão; para a França dos coletes amarelos; para os movimentos civis étnicos dos Estados Unidos; etc., vamos ver que o quadro mundial é de ebulição social.

A nós, no país continente, que tem mais da metade de toda a população da América do Sul, e é um dos mais ricos em recursos naturais do planeta, nos cabe dar um exemplo ao mundo de nossa capacidade revolucionária e demonstrarmos que num país que tem mais boi do que gente;
– mais soja e cereais do que nossa capacidade de comê-los (e ainda assim há fome);
– mais ferro de que toda a China;
– mais água potável no Rio Amazonas do que em todos os rios da Europa;
– mais terra fértil do que se possa necessitar;
– mais gente criativa e miscigenada capaz de conviver sem conflitos do que qualquer outro país no mundo;
– capaz de ser feliz, apesar da violência urbana que toma ares de uma guerra civil, etc., etc., etc,
veremos que é possível se promover a emancipação humana.
À tarefa, pois!!!

Dalton Rosado.

*sovietes – na Rússia, a partir de 1905, cada um dos conselhos constituídos pelos delegados dos trabalhadores, dos camponeses e dos soldados e que, após a Revolução de Outubro de 1917, na Rússia e, posteriormente, na União Soviética, passaram a ter função de órgão deliberativo.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;