VÍRUS CORONA

Nasci em 1941 no sítio Latadas, lugar muito tranquilo e cheio de paz.

A luz da lamparina e a união das famílias era a energia que clareava os lares. Os vagalumes eram coadjuvantes frequentes no inverno.

Os instrumentos musicais comuns eram os bicos dos pássaros e o vento assoprando as palhas das carnaubeiras e os galhos das árvores.

Na minha imaginação infantil, o galo era o maestro e o comandante do mundo. Seu cucurucucu na madrugada comandava até o papai (meuídolo) que dizia antes de se recolher: “quando o galo cantar eu me levanto para preparar as ferramentas e ir pro roçado com o adjunto”.(1)

Imaginava também que o grilo se preparasse para cricar, a galinha  para pôr ovos e o cavalo para relinchar.

Outra característica do galo que me impressionava era a rapidez com que praticava atos de amor. Acreditava que a galinha nem sentia nenhum prazer. Mas a forma apressada do galo era referência de foco, objetividade e resultado. O adágio popular: “rapido como trepada de galo”, ilustra esse fato.

– Vida boa, a vida do campo!

Eu tinha um amor infinito pelos animais, pelas plantas, pela natureza. Gostava também de observar conversas das pessoas grandes.

Os “cumpades” geralmente se reuniam na frente da nossa casa quando o sol se punha. O lugar cativo do papai era encostado no pé de ficus. Lá, ele migava o fumo e fazia seu cigarro com papelim.

Ainda me lembro do seu charme manipulando os ingredientes e fechando o cigarro com a ponta da língua.

Um dos “cumpades”, o Zé (nome fictício) tinha uma narrativa impressionante. Todos gostavam de ouvi-lo. Falava alto, com boa dicção, embora cometesse erros.  Eu adorava vê-lo falando de política e contando estórias de alma. Eu era medroso demais. Dormia encolhido no fundo da rede, enrolado da cabeça aos pés com medo de aparição.

Certo dia, o Zé chegou meio tostado … havia tomado uns conhaques na bodega. Puxou um tamborete e se sentou. Olhou pra uma das minhas irmãs e pediu: – “minha filha, traga um caneco de água bem fria para mim, por favor. Arraste bem do fundo do pote, lá a água é bem friinha”.  O papai emendou: – “diga a Maria (minha mãe) que faça café e depois vá buscar”.

Animado com o acolhimento, Zé levantou-se do tamborete, cuspiu de lado e falou:  – “compadre Afonso, nós samo uma coloina dos Estados Unidos. Se eu pegasse um gringo aqui, ele ia prestar conta com a ponta da minha pexeira. É uma raça descomunal”. E acrescentou lambendo o beiço: – “Ah se aparecesse um aqui pra mim amolar minha lambedeira nos couros da barriga dele!“

O Zé era teatral. Falava com emoção e com muita adrenalina. Eu gostava de ver a raiva que nutria dos americanos, entretanto, eu tinha medo de ser um escravo do imperialismo capitalista. Uma noite sonhei sendo açoitado pelos “yankees”. No meio da barbárie, meu silêncio aumentava a dor.

 

Esta foi minha primeira motivação para estudar inglês. Queria pelo menos aprender a dizer “ai” na língua de Shakespeare.

A imagem que criava de um estadunidense era semelhante à que vejo hoje nas atitudes, na cara e na peruca do presidente Donald Trump.

– Que saudade do Zé!

Imagino-o discursando a respeito do momento atual e dizendo com gestos precisos e de forma bem didática:

– VÍRUS DA DENGUE, VÍRUS DA MALÁRIA, VÍRUS DA TUBERCULOSE. Coronavirus é coisa de gringo. Eu chamo de VÍRUS CORONA.

(1) Trabalhadores rurais contratados para uma força-tarefa.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira, Professor Universitário.