Vingadores: Guerra Infinita – E uma nova chave perceptiva nos filmes de heróis

O que constitui a natureza de um filme de super-herói? E quais os elementos que o dotam de energia mesmo após as décadas que seguem os lançamentos de todos os filmes do subgênero? Essas são questões que permeiam a grande maioria dessas obras em variadas escalas. Para os filmes do Universo Cinematográfico Marvel (UCM), entretanto, as respostas assumem diferentes nuances. Todas elas convergiram e levaram ao todo que Vingadores: Guerra Infinita (2018) representou.

19º filme produzido pela Marvel Studios desde Homem de Ferro (2008), o longa narra a batalha dos Vingadores e seus aliados numa tentativa de deter Thanos (Josh Brolin), um poderoso Tintan que se dispõe a reunir as seis Joias do Infinito* existentes a fim de reduzir a vida ao redor do universo pela metade. Apesar do tom genérico contido nas sinopses de filmes de super-heróis, Guerra Infinita afirma sua consistência em termos práticos.

E o equilíbrio entre os tons de todos os filmes que o antecederam é talvez a maior marca desse trabalho. Estamos diante de um longa de aventura da Marvel com todas as suas conhecidas fórmulas: ação, comédia, drama e romance operando numa mesma escala, mas fluindo por meio de variações tonais muito precisas. Há uma seriedade e tensão que convergem positivamente com elementos como a comicidade e a aventura.

Os Guardiões da Galáxia, naquela que pode vir a ser a última contribuição do diretor James Gunn na Marvel. (Divulgação)

Quando os créditos iniciais de Guerra Infinita surgem na tela é a trilha sonora da canção Travel Delays, composta por Alan Silvestri, que nos anuncia o peso e a temeridade que se aproxima. Estamos diante de Thanos ou aquele que, sem dúvidas, é o antagonista mais complexo apresentado em uma obra do UCM, até então. E aí, elementos como a morte, a loucura e o esforço em torno de um ideal formam a gama de significados em torno dessa figura.

Poderíamos fazer uma crítica apenas com os traços que fazem essa personagem tão brilhante, narratologicamente falando. Mas seguir adiante é necessário em função dos outros pontos de destaque do filme. O que nos leva direto para o que entendemos como seus “momentos heroicos”. Esse é um termo fulcral para o longa porque redefine um importante aspecto da figura desses heróis: eles serem elementos que nos inspiram coragem e força.

Aqui eles surgem em dois momentos mais precisamente. Um primeiro ligado à sequência onde uma das equipes de heróis surge em apoio a um grupo que estaria sob ataque. E em outro muito semelhante, onde um determinado time volta para prestar reforço durante uma batalha final. Essas são construções chaves quando lidamos com filmes de super-heróis. Eles podem ser mais que produções realizadas em escala industrial. Podem nos apresentar aventuras intergaláticas sem que nos desconectemos das questões que cercam nosso dia a dia.

O antagonista Thanos, que em um trabalho de Computação Gráfica impecável foi interpretado pelo veterano Josh Brolin. (Divulgação)

Mas os demais trabalhos da Marvel não haviam o feito até então? Sim, o fizeram. Mas se voltarmos a Vingadores: Era de Ultron (2015), perceberemos o quanto o longa é revestido por conceitos bastante genéricos. Os personagens são representados sem um peso dramático, assim como o restante do filme em seu enredo, fotografia e trilha sonora. E certamente foram em cima desses pontos que os diretores Joe e Anthony Russo desenvolveram essa terceira aventura dos Vingadores.

Um exemplo disso é percebermos o quanto Guerra Infinita é um filme para ser visto também com os ouvidos. Porque a música de Alan Silvestri é mais que pano de fundo. Ela dita em primeiro plano cada sequência a que vemos, algo muito semelhante a trabalhos como Star Wars (1977). Vale voltarmos aqui à chegada da equipe do Capitão América (Chris Evans) na Escócia, por exemplo. É uma construção brilhante onde a trilha sonora complementa as imagens na tela e ambas guiam nossa percepção e reação. Algo que se pôde atestar in loco mediante a reação do público a determinadas cenas, como esta citada acima, durante as primeiras sessões do filme.

A própria montagem do longa e sua natureza elíptica dotaram a obra de uma leveza irretocável. E assim como as histórias em quadrinhos que compõem as Sagas “The Infinity Gauntlet” (1991) de Jim Starlin e “Infinito” (2012) de Jonathan Rickman, Guerra Infinita otimiza sua duração de 2 horas e 29 minutos por meio de saltos temporais muito precisos. Todos os eventos do filme nos parecem ocorrer num intervalo de 48 horas corridas. É dessa agilidade que a leveza do filme deriva. O que não vemos em obras como Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2013), por exemplo.

Dos três filmes sobre os Vingadores realizados até o momento, Guerra Infinita é sem dúvidas o mais esteticamente impecável. (Divulgação)

E se os irmão Russo decidiram filmar o longa com câmeras IMAX** é porque entendem que o componente estético se associa diretamente à ideia conceitual da obra. É claro que não estamos diante de um épico como o gênero se faz conhecer, ou mesmo o imaginário do fã mais empolgado e sem muito repertório cinematográfico tende a acreditar. Mas dos três filmes sobre os Vingadores realizados até o momento, Guerra Infinita é sem dúvidas o mais esteticamente impecável. De fato, o filme é lindo!

Cada plano contido nele conta uma parte da estória. Sua paleta de cores opera igualmente nos dizendo o que vemos. Elas contêm significância e ajuda a nos situar nos diferentes cenários montados. Para as cenas na Terra, cores mais naturalistas, sóbrias e frias. Para sequências no espaço, como em Nidavelir, cores mais escuras com tons de azul, preto e cinza, e assim por diante. Enfim, é a gramática cinematográfica a serviço da boa cinematografia, que nos ensina enquanto a experienciamos como espectadores.

Robert Downey Jr volta a interpretar Tony Stark, agora sob um fundo mais complexo e em um clímax constituído de muitas camadas. (Divulgação)

Vingadores Guerra Infinita é mais do que um projeto rentável da Marvel Studios. É uma obra que nos colocou um misto de percepções e dúvidas. É um ponto de virada. O gênero de super heróis pode ser algo maior, mais complexo e que se permite repensar. A jornada pode ser do vilão, por mais desconfortável que isso nos soe.

E nossos heróis podem falhar também, a maturidade do todo que esses filmes o são passa por isso também. Por isso que este é um filme único não apenas na linha do tempo do estúdio, mas igualmente junto do nosso imaginário, mesmo que sejamos espectadores de 30 ou 6 anos de idade.

* Originárias das Histórias em Quadrinhos da Marvel Comics e adaptadas no Universo Cinematográfico Marvel, as Joias do Infinito são seis singularidades cósmicas imensamente poderosas e que representam os seguintes aspectos do universo: Poder, Tempo, Mente, Espaço, Realidade e Alma.

** O IMAX é um sistema de câmeras de alta resolução, formatos de filmes e projetores de filmes. Os primeiros padrões de projeção de cinema IMAX foram desenvolvidos ainda em 1960 no Canadá por Graeme Ferguson, Roman Kroitor, Robert Kerr e William C. Shaw.

FICHA TÉCNICA

Título Original: Avengers: Infinity War

Tempo de Duração: 149 minutos

Ano de Lançamento (USA): 2018

Gênero:  Aventura, Ação, Fantasia

Direção: Joe Russo, Anthony Russo

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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