VERNON WALTERS, O AMIGO AMERICANO

Humberto de Alencar Castello Branco teve dois grandes amigos: Rachel de Queiroz e Vernon Walters. Com Rachel a relação era atávica, laços de família e, claro, admiração mútua. Não à toa, o sítio de Rachel em Quixadá, Não Me Deixes, é referência no trágico desfecho da vida de Castello.

Como a imprensa — exceto Wainer e o comunista Novos Rumos — e a Igreja, intelectuais brasileiros apoiaram maciçamente o golpe civil-militar de 1964. Rachel pagou com intenso patrulhamento ideológico o preço de sua convergência e, mesmo, articulação pró-golpe, uma fé que gradativamente se esvaiu, a partir da morte de Castello.

Um “eu acuso” antológico, dedo em riste rumo a Rachel, foi o embate com o escritor Caio Fernando Abreu no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1993. Caio estava visivelmente irado ou, no mínimo, indignado e viu-se em vantagem em relação a Rachel, aquela senhorinha no meio da arena, supostamente indefesa. O semblante de Rachel mostrou constrangimento, franziu a testa, a voz de timbre sempre suave e meio gasguita ficou o mais tensa que pode. Mas assumiu, sim, seu apoio ao golpe — e não me arrependo — transportando-se o máximo que pode para aqueles tempos estranhos, de muita contra-informação, boatos (fake-news?), truculências. O país era um grande cassino político e perdeu quem blefou no pano verde.

Com Vernon Anthony Dick Walters a coisa era bem diferente. Walters era o alter ego de Castello, uma projeção que se iniciou em dezembro de 1943, em Fort Leavenworth, o “Centro Intelectual do Exército”, no condado de Leavenworth, estado do Kansas (EUA). Começou aqui e nunca mais terminou. Naquele tempo, Walters era major, e Castello era tenente-coronel.

No Kansas foi germinada a Força Expedicionária Brasileira (feb), cujos recrutados iriam combater na Itália, em uma Europa onde a guerra fervilhava espraiando pânico e caos. No processo de discussão e planejamento, Walters e Castello participaram do mesmo curso de Estado-Maior e, segundo relata Luís Viana Filho em O Governo Castelo Branco (Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1975, página 34), Walters logo se impressiona com a inteligência de Castello e seu amplo domínio dos grandes problemas. [Problema era uma palavra chave para consolidar análises de conjunturas e projeções].

Neste ciclo seminal, Walters fez sua primeira viagem ao Rio — de onde não mais sairia, pelo menos politicamente — , em um Douglas C-47, um trajeto que durou três dias. Além de longa, a viagem foi “muito incômoda, em virtude de uma frente tropical, normalmente estacionária sobre o Amazonas”. Walters virou um especialista em Brasil e um “consultor” sobre a região do cone sul junto ao governo americano. Mais tarde, teve o embaixador americano no Brasil Lincoln Gordon como pertinaz interlocutor e, mais que isso, depois da vitória das tropas aliadas na II Guerra, acesso direto aos generais mais influentes do Exército brasileiro, principalmente seu amigo Castello, com encontros domésticos, inclusive.

O planejamento estratégico dos militares bilaterais nos Estados Unidos, em especial no Kansas, foi um passo decisivo de um ciclo construído lentamente. A entrada do Brasil na II Guerra não se deu em um estalar de dedos, ao contrário, foi tardia. Nessa construção, Walters e Castello eram os interlocutores privilegiados. E, logo depois, ambos se encontrariam no Rio, os militares americanos treinaram os pracinhas e Walters segue junto para a Itália como oficial de ligação, no front, entre norte-americanos e brasileiros, pois falava portguês fluentemente, dizem, um português quase nativo do Brasil. Castello era o oficial de operações da divisão brasileira na Itália.

De 1944 a 1945, Walters exerceu esta função, prioritariamente, embora tenha atuado também como planejador, estrategista, e diplomata em viagens relâmpagos pela península. Walters também deu poder de fogo e infraestrutura às forças militares brasileiras que inicialmente haviam recebido pouco equipamento. Nesse período estava no mesmo alojamento de Castello e sobre tal recorte histórico na guerra muito contemplou em seus livros de memórias, em especial “Missões Silenciosas” (Editora Bibliex. Rio de Janeiro (RJ), 1986). “A divisão [brasileira viveu 229 dias em contínuo combate”, escreveu. “Lutando em terras estrangeiras, sob condições climáticas desconhecidas no Brasil, a tropa justificou sua presença e se comportou da maneira mais elogiosa possível, tendo o privilégio de prender a primeira divisão alemã que se rendeu totalmente na Itália”.

Walters também relata momentos extremos de tensão vividos por ele e Castello, não somente pelas adversidades da natureza, mas principalmente devido ao fogo intenso da artilharia alemã que os derrotou pelo menos duas vezes. “Muitas vezes, quando o fogo era mais pesado e mais próximo, eu telefonava para o coronel Castello Branco, embora seu quarto fosse no mesmo andar do meu, perguntando-lhe se não julgava que deveríamos descer para o abrigo no porão”. A resposta de Castello era invariavelmente não.

Essa amizade ganharia novas dimensõs no pós-guerra, notadamente nos anos 1950 até a morte de Castello, passando pelos fatos que culminaram com o golpe civil militar de 1964.

Walters, ao lado de Lincoln Gordon, era pessoa chave no fluxo de informação de mão dupla entre o norte ianque e o sul tropical. Walters produzia relatórios informando sobre a tensão nas Forças Armadas que “pareciam divididas”. Informava sobre a guinada de João Goulart à esquerda no período de 1962 a 1963, e a crescente influência dos comunistas e seus simpatizantes. “O próprio cunhado de Goulart, Leonel Brizola, se apresentara como porta-bandeira desse grupo”, informava.

Walters diz não ter tido nenhuma influência na indicação do nome de Castello, no processo de acomodação do novo regime, após o Golpe. Quando Castello morreu, naquele bizarro acidente aéreo, manteve-se silente. Mas, mesmo com a ausência do amigo, voltou várias vezes ao Rio, que adotou como um lar alternativo. O filho de um vendedor e de uma professora, nascido em Nova Iorque, morreu em 2002, na Flórida (EUA), solteiro, aos 85 anos.

Walters, o amigo americano, foi personagem demasiado influente nos fatos que culminaram com 1964. E, certamente, ficou muito, muito feliz, com a ascensão do seu amigo brasileiro, Castello. Não se sabe como viu os rumos do novo regime: o endurecimento, repressão, luta armada, tortura, desparecimentos, o sequestro do embaixador americano.

Seu DNA está no ovo da serpente.

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Autor de “Rui Facó: (uma biografia) o homem e sua missão” (2014), “Parsifal – Um Intelectual na Politica” (2016)

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Luis-Sergio Santos

Jornalista e Professor da UFC

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Jornalista e Professor da UFC