Velhice Alienada, por Luana Monteiro

– O que a velhice nos guarda afinal? Questiona um amigo numa roda de conversa que entrava a noite num ritmo informal. – É um momento um pouco triste porque já não somos como gostaríamos, ficamos impossibilitados de sair, viajar, comer o que normalmente comemos… alguém interpõe. – Vejo a velhice sendo tratada com despreparo e considero isso preocupante. Parece um pouco com o modo como lidamos com a infância: não ouvimos, apenas impomos! respondo.

O que nós guardamos para nossos idosos afinal? Continuo me perguntando pelo resto da noite. Penso que somente a solidão. Excluímos sem perceber aquele ser cuja opinião parece-nos já não importar.

Café ou chá? Acho que já não é mais uma pergunta relevante. O idoso vai tomar o que o adulto arrazoado decidir. Ninguém mais indaga como foi seu dia, o que ele planeja para o final de semana ou sobre os lugares que gostaria de visitar. O obvio está estampado para todos, a chegada à terceira idade excluiu seu poder de decisão. O ancião faz o que fizerem de sua velhice.

O Alheamento da atividade motora, física e psíquica me remete aos bebês e mesmo às crianças muito novinhas que ainda não conseguem expressar em palavras suas vontades – para que lado desejam ir, que artefato gostariam de tocar, que tipo de sabor gostariam de sentir – ou mesmo são incapazes de partirem sozinhos para suas descobertas.

– O senhor não vai sair sozinho! Exclama o filho preocupado. – Chegou a hora do banho, não adianta fingir que está com frio, adverte a filha responsável pelos cuidados com o pai. – Você só vai comer o que foi recomendado pelo médico, afirma uma sobrinha dedicada aos cuidados da tia. Assim como consideramos que as crianças ainda “não têm sensatez” para tomar escolhas e iniciativas, fazemos também aos idosos.

Se nascer, envelhecer e morrer é um ciclo tão natural que qualquer ser vivo conhecido enfrenta, porque ele ainda nos é estranho? Talvez seja o excesso de culpa e remorso por não olharmos com atenção para cada fase desse longo acontecimento. No cotidiano existem necessidades urgentes que nos passam a ocupar a mente e nos fazem esquecer de olhar para o lado e buscar saber das pessoas mais próximas de nós o que elas estão sentindo. As vezes pode ser só uma cegueira do eu altruísta. Outras vezes é o descaso, porque talvez carregar a dor de outrem seja mais difícil do que seguir no desconhecimento. Se a tristeza da pessoa ao lado é facilmente evitável, evita-se. Seguimos na completa ignorância sobre o outro.

Muitos dizem que envelhecer não é sinônimo de perda de memória e mobilidade ou mesmo de diminuição da capacidade de aprendizado. Mas o outro lado da situação nos leva a observar como o envelhecimento é socialmente definido como incapacidade. Chego a uma conclusão, a velhice é abstraída daqueles que gostariam de levar suas vidas como a fizeram no decorrer dos anos. Mas a parcela adulta tem pressa demais para reconhecer que ainda há vontade na terceira idade da vida e cria rumos melhores e mais proveitosos para seus velhos. O preço cobrado é a renúncia dessa tal autonomia e consequente alienação da velhice.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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