VAMOS FALAR SOBRE A ALEXA

Estudar teorias feministas e pensar sobre elas com um pouco de conhecimento adquirido me trouxeram diversos incômodos, alguns permanentes; tenho me tornado ranzinza em razão, talvez, da constante reflexão sobre a dominação masculina. Vejo dominação em todos os lugares da nossa sociedade machista. Será mania de quem está envelhecendo? Meus livros de cabeceira ganharam uma cor feminista o que acho fantástico, mas o feminismo exige mudança de comportamento e atitudes novas. Leio agora sobre o patriarcado e desejo que todas, todos e todes possam e queiram conversar sobre isso, mas lamento que isso não seja possível. Pensar sobre algo exige conhecimento e determinados conhecimentos às vezes ficam escondidos em uma estante lá no fundo da biblioteca. As pessoas não acessam o espaço porque não sabem que existem, não estão a fim ou simplesmente porque estão com preguiça.

A dominação masculina está no público e no privado. O Estado, as escolas, as igrejas (no plural mesmo), a sociedade, as empresas, tudo reforça a dominação de uma masculina.

Esta dominação se manifesta de diversas maneiras, às vezes de modo claro, às vezes implicitamente. Falemos sobre a alexa. É uma assistência virtual da amazon. É um aparelhinho que permite aos usuários e às usuárias estabelecerem por comando de voz que várias ações sejam executadas. É automação virtual. Com um simples comando de voz a alexa (sim, é feminino) acende lâmpadas, liga o ar-condicionado, toca músicas, aumenta a temperatura do frigobar ou da adega, troca a cor da iluminação, liga o alarme. Reparemos que alexa pressupõe primeiro a existência de aparelhos eletrônicos e de um ambiente possível de ser monitorado e controlado o que já seleciona o tipo de consumidor(a). Depois, pensemos na existência de alexia enquanto objeto com um nome feminino. A ordem é dada para um aparelho que já está no feminino e a pessoa que emite a ordem não pensa que a recepção será feita por um homem. Então se fala: alexa, toque a playlist tal, alexa, aumente a temperatura do quarto de casal, alexa, acenda as luzes do quintal e ligue o alarme, alexa faça isso…E ao assistir o vídeo de explicação sobre a utilização da alexa vejo que uma das diferenças entre ela (sim, o vendedor diz ela) e o produto concorrente é que ela pode ser silenciada e aí não responderá aos comandos mas obedecerá. É possível perceber o simbolismo disso tudo?

Haveria – na denominação de um aparelho criado para facilitar a vida das pessoas (segundo o anúncio) a ratificação da existência do patriarcado? É exagerada a minha fala? Será que dá para trocar o nome dela e tentar anular esse desejo de sempre ter uma referência feminina executando as tarefas dentro de casa?

Adriana Soares Alcantara

Mestre e Doutoranda em Planejamento e Políticas Públicas da UECE Pesquisadora integrante do Grupo de Pesquisa da UECE na linha "Política faccionada e atuação dos partidos políticos em âmbito subnacional". Servidora do TRE e Integrante da Comissão de Participação Feminina CPFem

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