VALE A PENA LER DE NOVO

[Nesse fim de semana, interessei-me por revisitar o meu baú das memórias recentes, deleitar-me, aos reconfortantes balanços da minha rede de varandas, na área mais tranquila da minha aconchegante moradia, refúgio recorrente em momentos de tensão ou preguiça, com a releitura de produções textuais levadas ao meu dileto público leitor através de postagens na minha página no Facebook. Passeei. Viajei. Voei. Naveguei. Em alguns casos, sorri; noutros, chorei (sem lágrimas, é óbvio!). Me emocionei, enfim. Propus-me, então, a escolher, entre algumas centenas de textos dos mais variados matizes e propósitos, um que pudesse bem repercutir esse tão salutar e revigorante momento. Não foi fácil. Todos – ou quase todos – carregavam  e carregam um não-sei-bem-o-quê a dar-lhes um valor único, uma essência específica, um construto especial, um revestimento de realce, de destaque… e isso os tornava, cada um de per si, forte candidato à escolha de quem os produziu, de quem os conduziu no curso de suas peculiares gênesis, refletindo o que penso, o que sou. Pois bem,  reproduzo, aqui e agora, o que postei em 18 de junho de 2015, numa proposta que costumo rotular de “vale a pena ler de novo”.]

 

IMAGENS E PALAVRAS 

 

GUSTAVE FLAUBERT, ESCRITOR FRANCÊS QUE, AO publicar em 1857 o romance Madame Bovary, marcou a implantação, definição e disseminação do Realismo na literatura mundial, inaugurando uma tendência estética que, centrada no real, preconizava um enfoque objetivo do mundo, jamais admitiu que se ilustrassem as suas obras literárias, por entender que imagens pictóricas seriam capazes de reduzir, ao máximo, os plúrimos efeitos que a sua escritura poderia exercer sobre a capacidade sensorial e perceptiva de seus leitores.

No entender dele, dava-se, assim, a literariamente censurável redução do universal ao singular.

Costumava Flaubert argumentar, nesse sentido, que, enquanto a imagem sintetizava uma perspectiva, um personagem, um ambiente, a palavra os universalizava, possibilitando e até estimulando as mais variadas formas de leitura, de imaginação e de concepção.

Para ele, uma mulher desenhada ou fotografada seria única, enquanto a apresentada por escrito poderia assumir múltiplas leituras, a critério do leitor e de sua peculiar mundividência [leia-se: visão de mundo]. Tudo não passaria de uma mera questão de literariedade [leia-se: amplitude interpretativa de um determinado texto].

Há um ano – lembram-se disto, amáveis leitoras(es)?! –, vivenciávamos todos nós – brasileiros, amantes ou não do futebol-arte – o momento histórico da realização de uma Copa do Mundo no Brasil [a que se pretendeu chamar a Copa das Copas], o evento por excelência dessa mundialmente consagrada modalidade esportiva.

Com efeito, a Copa das Copas presenteou-nos com imagens que se cristalizaram em nossas memórias, todas elas beneficiadas pelo alto poder de captação sequenciada de câmeras de altíssima capacidade resolutiva, em que detalhes antes imperceptíveis e agora enfeixados numa moldura televisiva ou midiática, emprestavam-lhes maior expressividade de conteúdo, contornos únicos, perspectiva em profundidade e alta definição. E, se isso não bastasse, tais imagens se potencializavam pela multiplicidade de intervenções tecnológicas – desde o aprisionamento de um momento específico, como se fotografia fosse, até a pluralidade de técnicas de exposição – o “zoom”, por exemplo.

Imagens há para todos os gostos e para todas as exigências.

Permito-me destacar, aqui, apenas três. Apoio-me, para tanto, no teor de improbabilidade que elas encerram, capazes de até ser enquadradas no conceito de surrealismo, por alcançar um elevado grau de desconstrução da realidade. Ei-las, pois:

  1. A ferocidade do abocanhamento desferido contra defensor italiano por atacante uruguaio, antes alçado ao Panteão das divindades futebolísticas pela genialidade demonstrada em lances por ele protagonizados, agora deixando transparecer a inconcebível (no caso concreto) necessidade animalesca de saciar uma fome aparentemente psicótica, haja vista tratar-se de recidiva [leia-se: reincidência]. Lembra, pelo menos a mim, o ataque voraz de um leão faminto a um bem nutrido, incauto e negligente gnu (quadrúpede de que o rei dos animais é predador natural). A imagem viajou o mundo inteiro e proporcionou as mais variadas leituras e interpretações, incluindo a de relacionar o ato à marginalidade social vivenciada pelo protagonista antes de alcançar a fama e a fortuna.
  2. A recusa extasiante e impressionante do defensor uruguaio à substituição prescrita pela autoridade médica que o avaliara num momento de perda de consciência temporária, após entrechoque casual com um adversário, tendo-o julgado clinicamente incapaz de permanecer no jogo. Lembra, pelo menos a mim, o ataque de histerismo de um indivíduo estimulado pelo uso de algum tipo de alucinógeno, algo parecido com a imagem de um festejado astro do futebol argentino sendo conduzido, no âmbito de uma outra Copa, por enfermeira para fora do campo de jogo, demonstrando comportamento esquisito e reações caricaturais.
  3. A languidez, o abatimento, a prostração de um líder vencido e humilhado, à espera do golpe fatal do vencedor que, ainda não consciente do estrago que causava ao antes respeitável adversário, deixa transparecer um ar de incredulidade, de ceticismo e, por que não dizer, de comiseração, ante o provável desfecho histórico da batalha que protagonizava em pleno território do inimigo. Lembra, pelo menos a mim, a postura virtual – e vexatória – do cidadão brasileiro comum ante um sistema (ou seria esquema?!) de poder que o incapacita a reagir aos desmandos, às malversações, aos desperdícios de quantos assumem, circunstancial e interesseiramente, o gerenciamento da perdulária máquina pública, por ele, contribuinte, mantida a duras penas.

Flaubert que me desculpe, mas as imagens – pintadas, esculpidas, fotografadas, edificadas ou encenadas – contêm o “caráter temporal da narrativa” e, por extensão, consubstanciam histórias para ser contadas.

Revisito, en passant [leia-se: de passagem], Lendo imagens, uma das obras do argentino – naturalizado canadense – Alberto Manguel, “cujo olhar original reuniu uma coleção de imagens – belas, extravagantes, perturbadoras – e fez dela uma galeria de sonhos”.

Embriago-me com algumas de suas extraordinárias narrativas desveladas a partir de imagens. Viajo por entre obras de arte prenhes de significados que estimulam interpretações múltiplas. Caminho por museus, tentando compreender o que vejo. E vejo muito: até a minha própria imagem refletida no revestimento espelhado de um painel, o que me impõe uma questão shakespeariana: quem sou?! À minha frente, um ensinamento do filósofo francês Théodore Jouffroy: “Somente o invisível nos convence”.

Dou por concluída a travessia quando leio o último parágrafo do texto inscrito nas orelhas do livro: “A linguagem humana é feita de palavras que se traduzem em imagens e de imagens que se traduzem em palavras – ambas são a matéria de que somos formados”.

Descubro-me, enfim: sou um misto de imagens e palavras. Com algumas pinceladas de romantismo, apenas para desconstruir o que aparenta ser real.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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