UMBERTO ECO E OS “ANTILIVROS”…

Um amigo dominado pelo bom-senso, preveniu-me: não vale a pena envolver-se com política. Procure coisa mais séria para ocupar-se. Escreva sobre coisas prováveis, tome o bonde da ficção. Vá de conto, novela, storytelling, crônica. Brinque com as palavras, dê-lhes sentido, retire delas os lugares-comuns, livre-as das citações acadêmicas, roube-lhes a circunspecção, dê-lhe humor, refresque-as com o manto diáfano da ironia…

Relutei, fugi aos conselhos bem intencionados desta alma caridosa. Arrependo-me, hoje, de não a ter ouvido a tempo..

Ainda não encontrei, entretanto, esta fonte de alívio para as minhas vãs sofridas especulações lógicas, morais e éticas, se a tanto chegou o meu apurado senso de realidade.

Umberto Eco buscou alento nos textos não-lidos para fugir das realidades impertinentes. Nos antilivros, naqueles que não são lidos e, com justa razão, desfrutam de má reputação entre intelectuais, construiu a sátira erudita que a muitos incomoda e irrita.

Não me cabe pensar em vôos tão ambiciosos. Aceitarei as sobras de textos lidos e relidos. O acacianismo, assim como o preciosismo da prosa encontram-se com frequência nos textos consagrados…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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