Uma reflexão propositiva e autocrítica histórica da esquerda

“Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Que tal mudarmos o mundo começando por nós mesmos?”
MARTIN LUTHER KING JR

​Entre outras questões, o grande embate dos marxistas tradicionais com os anarquistas sempre foi a negação do Estado como etapa de se alcançar uma sociedade sem classes sociais.

Os primeiros sempre admitiram que o Estado nas mãos dos trabalhadores promoveria, pela via revolucionária da tomada do poder burguês, a necessária transição; os anarquistas diziam que esta via do poder estatizante não seria capaz de usar o veneno como antídoto do dito cujo, algo assim, como se desconfiassem que o uso do cachimbo entortasse a boca.

Os marxistas tradicionais, que se diziam sábios do socialismo científico, criticavam (e perseguiam, o que é pior) os anarquistas acusando-os de falta de consistência programática e organizacional, chamando-os de pequenos burgueses inconsequentes, por mera divergência doutrinária.

Os anarquistas acusavam os marxistas tradicionais de estatistas totalitários capazes de justificar todas as injustiças cometidas no processo revolucionário em nome de um fim que julgavam que por aquela via jamais seria alcançado.

Ambos repudiavam o poder burguês e clerical, sendo este último bastante influente no século dezenove quando surgiram as teses doutrinárias socialistas de combate ao florescente capitalismo da primeira revolução industrial e tentativas de consolidação do republicanismo burguês com suas marchas e contramarchas do início daquele século.

A Europa ferveu nas décadas iniciais e seguintes do século dezenove caracterizada pelas guerras napoleônicas imperialistas, luta pela preservação e volta do poder monárquico, episódio da Comuna de Paris em 1871, guerra franco-prussiana, e ascensão do capitalismo imposto pelas armas de fogo então desenvolvidas.

Posteriormente a estes episódios, os dirigentes de partidos comunistas, procurando ser fieis ao que julgavam ser o marxismo mais fidedigno, mandavam seus militantes pularem a primeira parte de “O Capital”, por considerá-la filosofia hegeliana de menor importância, vez que tentava explicar a essência da forma-valor (mercadoria e dinheiro), e isso lhes parecia tão fácil de entender que não mereceria maior atenção.

Fixaram-se nas estratégias políticas de tomada do poder revolucionário sem considerar a essência mais acurada do pensamento de Karl Marx justamente na crítica da economia política, que era mais profundo e analítico no longo prazo do que as escaramuças de revolução armada defendidas por Friedrich Engels, que encontrou em Lenin, posteriormente, um estrategista perfeito.

Os anarquistas desconfiavam, com razão, do poder político estatal (daí a expressão zombeteira “hay gobierno? soy contra!”), mas não propuseram a superação das categorias capitalistas, acreditando ingenuamente que os meios de produção nas mãos do operariado, mas sob a égide do mercado, e sem tutela política e clerical, tudo estaria resolvido.

O Marx político errou, envelheceu; o Marx da crítica da economia política é mais atual do que nunca.

O anarquismo sem profundidade no domínio sobre a negatividade da essência da forma valor (dinheiro e mercadorias), era ingênuo, e as tentativas comunitárias de produção para si, mas também para o mercado (como a Colônia Cecília, no Brasil) como forma de suprimento de mercadorias não produzidas internamente, não teve a capacidade de se contrapor à ordem militar e capitalista, e se fragmentou perdendo força como contingente aglutinador de expressão social transformadora e emancipacionista.

Ambas as tentativas sempre foram bem intencionadas, mas como disse o próprio Marx: “de bem intencionados o caminho do inferno está cheio”.

Como previu Marx nos “Grundrisse”, o capitalismo atingiu atualmente um estágio avançado e irreversível de contradições de seus fundamentos existenciais tornando-se claramente autodestrutivo de sua própria forma e socialmente destrutivo porque inviável como forma de mediação social minimamente eficaz, e o que é pior, nos ameaçando com uma crise ecológica capaz de promover o ecocídio da humanidade.

Mas a autodestrutibilidade da forma capitalista por si só não é algo capaz de promover a emancipação humana se não for ancorada por uma teoria revolucionária que dê um norte exequível e factível de ruptura capaz de galvanizar a sociedade humana atual sob seus pressupostos, que já não é composta majoritariamente por uma única categoria profissional, como o foi no passado pelo proletariado (na doutrina marxista tradicional tida como única revolucionária).

Agora são muitos e variados os vetores e segmentos sociais da economia, composta por operadores de computadores, robôs, agentes de serviços autônomos e as numerosas vítimas do desemprego estrutural que se veem desesperadas por absoluta falta de perspectivas de sobrevivência.

Pari passu, o Estado falido, sobrevive da emissão de moeda sem lastro e da rolagem de dívida impagável e crescente que faz a alegria dos rentistas do capital e dos bancos com o pagamento de juros, tornando-se cada vez mais um voraz cobrador de impostos de uma população economicamente exaurida.

Vemos aumentar dia a dia a precariedade do atendimento das demandas sociais de sua incumbência constitucional (educação, saúde, segurança pública, equipamentos urbanos, previdência social, etc.), e a arrecadação estatal de impostos mal serve para cobrir as rubricas das despesas estatais não discricionárias. Exemplo disto que afirmamos é que acabo de saber sobre a rejeição do mercado à tentativa do Paulo Guedes de ressuscitar o imposto sobre operação financeira, fato que gerou a alta do dólar e a queda da bolsa brasileira.

É a empiria da decrepitude do capital reafirmando as palavras ditas ou escritas pelos seus críticos e até mesmo pela imprensa burguesa.

Pra completar ainda temos uma epidemia virótica renitente que insiste em contrariar os verdadeiros heróis deste combate, os cientistas descobridores das vacinas.

É um inferno a vida social neste início do século vinte e um!

Mas a história nos ensina.

Por que não extrairmos ensinamentos do que ficou de bom das análises da crítica da economia política marxiana, sem rejeitarmos a criança junto com os excrementos da bacia após o banho?
Por que não aproveitarmos a correta crítica anarquista sobre a ineficácia da política como canal de acesso ao Estado proprietário e cobrador de impostos, e acatarmos a necessidade de sua própria superação (ao invés de corrigi-lo por dentro), por se tratar de ente sempre dotado de inevitável caráter opressor?
Por que não construirmos uma nova moral social que conteste o caráter oficialmente legal, mas subtrativo e criminoso da produção social capitalista, que é promotora do enriquecimento social segregacionista e autodestrutivo?
Por que não termos cânones jurídicos que reflitam o verdadeiro senso de justiça social sem as firulas do direito burguês?
Por que aceitarmos a Constituição burguesa come se fosse o santo graal da verdade divina, imutável e incontestável, mas fazendo a sua crítica de modo diferente do que fazem os conservadores e defensores dos retrocessos civilizatórios ao considerarem-na socialmente inadequada e defenderem o expurgo das conquistas sociais nela contidos?

Por que vivermos eternamente nos preparando para a guerra como forma de obtermos a paz, mas, ao contrário, caminharmos no sentido de criarmos uma ordem de produção social que veja no nosso vizinho uma fonte de solidariedade ao invés de uma ameaça, e de tal modo que ele nos admire pelo exemplo?

Por que vivermos eternamente sob o jugo de um processo eleitoral viciado (não pela manipulação de resultados eletrônicos dos votos computados) pela manipulação da vontade popular submetida a um curral eleitoral como se fôssemos gado rumo ao matadouro sem alternativa?

Por que termos sempre que aceitar o ruim por medo do péssimo nas eleições?
Por que aceitarmos a emissão de gás carbônico na atmosfera; a poluição de rios e lagoas; a contaminação do lençol freático por produtos químicos; a tratamento inadequado dado ao resíduos sólidos e líquidos do nosso consumo diário em nome da preservação de empregos de uma máquina de produção social que além de nos segregar socialmente é responsável por tais desatinos ecológicos?

Por que precisamos de sindicatos e partidos que nos protejam NO TRABALHO ao invés de proporem a emancipação DO TRABALHO, fonte primária da formação da forma valor e de sua escravização indireta?

Por que vivermos eternamente sob a subalternidade do medo?

Por que não caminhamos, como disse o poeta, contra o vento, sem lenço e sem documentos para a alegria da emancipação humana, que se não for alegre e fraterna jamais será emancipatória?

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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