UMA DAS FACES DO MEDO, por Íris Cavalcante

Precisamos ressignificar o medo, olhá-lo dentro dos olhos e dizer onde é o seu lugar. Nossa relação com o medo há-de ser de enfrentamento. Ainda mais se nascemos mulheres, nessa terra tropical, abaixo da linha do equador.
O medo nos acompanha desde sempre, um instinto natural de preservação que nos resguarda de alguns perigos. Quando ele assume a forma de aliado, tudo bem, podemos usá-lo a nosso favor, mas que nunca se transforme o medo em algoz; nunca sejamos reféns dele.

Quero não ter medo, mas tenho e são muitos. Meu medo maior comunga com esses tempos estranhos, um
sentimento que me imobiliza: medo da injustiça, que pode materializar-se de várias formas. Injustiça que se apresenta sectarizada, com nome, sexo, CPF, RG, conta bancária.

Os dados da violência contra a mulher revelam um cenário brutal de desigualdade de gênero, em nosso país. Estudos atuais mostram uma taxa de 4 mulheres mortas para cada grupo de 100 mil mulheres; 74 por cento superior à média global. Pesquisadores apontam que, em março de 2019, o país já ultrapassava a marca de 200 mortes no ano, por feminicídio. Um ambiente inóspito para mulheres, que se torna menos seguro, aliado a um projeto político populista e ultraconservador, que relativiza o feminicídio e estimula a usurpação de direitos, num cotidiano de relações sociais notadamente machistas. Apavorante!

Essa violência pode nos apanhar desprevenidas nas ruas, nos transportes públicos, na balada e até dentro de casa.

Estamos no terceiro milênio. Já servimos aos senhores de escravos, fomos queimadas, estupradas, mutiladas, e até hoje, somos vítimas de violência pela condição de sermos do sexo feminino; violência que, em alguns casos, assume contornos sutis, quase imperceptíveis.

Essa é uma das faces do medo.
Ser mulher por aqui é a resistência primeira; o desafio se potencializa quando optamos pela liberdade de escolhas e de expressão. Francamente, aos desinformados que equiparam o feminismo ao machismo, eu respondo: nós não matamos os homens, eles nos matam. Essa é a representação fiel de um comportamento perverso e de um poder que oprime. Estejamos sempre em estado de alerta e de legítima defesa do direito à vida em sua plenitude, e que se fortaleça a narrativa de fraternidade entre as mulheres.

Aqui, junto-me às minhas iguais e aos meus iguais, consciente da relação de opressão que há entre os dominantes e todos os grupos de minorias.

Afora esse medo que move minha disposição natural à resistência, tenho alguns outros: o medo de altura me instiga e me desafia. Para enfrentá-lo mudei para o décimo sexto andar, já consigo olhar para baixo e ver tudo em miniatura, sem aquele estremecimento imediato nas extremidades. Estou nas alturas e em segurança, e ainda tenho Fortaleza aos meus pés!

O medo das alturas se contrapõe ao prazer quase infantil de viajar
de avião, quando sou movida pela ânsia de conhecer um novo lugar e toda a experiência sensorial que isso representa.

Em 2017, visitei a Pedra Bonita no Rio, com meu filho Mateus, pensando que teria coragem de voar de asa delta. Quando vi a Barra da Tijuca lá embaixo e toda a imensidão da paisagem, amarelei e pus a desculpa no preço do voo. Foi medo mesmo.

Minha aventura de voar permanece nos recônditos da escrita, que me possibilita um voo particular dos mais felizes: para dentro da liberdade de expressar o que sinto e exorcizar os meus medos.

Ah, e tem também o medo de amar e seu emaranhado de relações com a liberdade e a justiça, como na canção do Beto Guedes: “O medo de amar é o medo de ser livre para o que der e vier, livre para sempre estar onde o justo estiver”. Apesar de tudo, tenho razões para acreditar que o mundo ainda pode ser um lugar justo, e que o amor, legítimo amor, só é possível com liberdade e justiça. E sem medo.

Fortaleza, maio de 2019.

Iris Cavalcante

Iris Cavalcante

Íris Cavalcante é especialista em Escrita Literária e MBA em Administração Estratégica. Estreou na literatura em 2003, teve publicações como autora independente, participação em coletâneas e revistas eletrônicas. Foi finalista do Prêmio Jabuti 2018 na categoria poesias com o Vento do 8º andar.

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