Uma cartografia de Fortaleza, um retrato de mim – LUANA MONTEIRO

 

Pensando a disposição espacial de Fortaleza, transfiro meu foco para todo o chão que não piso, nem conheço…, mas dele tenho pouco a falar. E se eu cartografasse as zonas “quentes”, aquelas por onde eu transito na minha cidade? Será que eu conheceria mais de mim? Será que eu teria mais empatia pela minha cidade?

Confesso não fazer muitas derivações na Fortaleza de pedra. Andanças mesmo não são muito o meu forte. Acho que essa “não tendência” vem do medo do lugar social que eu ocupo, sou mulher e me sinto infinitamente indefesa diante dos perigos que um urbano como Fortaleza pode causar a uma mulher que precisa se deslocar de ônibus. Aqui, sair e voltar tem hora previamente definidas para reduzir a margem de risco que a noite oferece.

Em minha cartografia começaria pela Universidade, UECE, campus Fátima. De lá parti para explorar novos olhares para a cidade e me permiti conhecer espaços e ideias outrora por mim não desbravados. Depois da sala de aula, da biblioteca e da sala de estudos, o lugar mais esperado era o famoso barzinho, que concentrava os universitários depois de suas rotinas (ou não) de estudo. Não importava qual, apesar de haver as preferências no grupo de amigos, cada barzinho no Benfica transpirava a avidez de uma atmosfera mais descontraída e inebriada pelo efeito do álcool, da música alta e das conversas trocadas em meio aos ruídos e risadas comuns de uma noite de distrações.

Lembro-me bem da única meta ser conseguir ficar mais tranquila em relação aos afazeres e prazos,  e mesmo assim “conseguir” não prejudicar o dia seguinte pela ressaca. Mas não me dava o luxo de “fugir” da rotina de estudante todos os dias. Só acontecia quando não conseguia escapar dos convites dos amigos boêmios.

A Gentilândia e o Benfica – em minha perspectiva de estudante que se encanta – “mais com a rede do que com o mar”- eram sinônimos de resistência política ou de total negação dela. Uma fase inesquecível da minha vida se fez concomitante ao meu processo de ingresso na faculdade, que foi minha inserção nos ambientes de lutas sociais. Fiz parte do grupo Crítica Radical, e por alguns anos destruir o capitalismo e suas estruturas basilares era o grande objetivo de vida de muitos daqueles indivíduos.

Nós enxergávamos a realidade da cidade, da economia e do próprio Estado como estando em um acelerado processo de decadência. Restava-nos apenas ação consciente para produzir o seu fim. Esta  viria necessariamente da negação crítica. Em resumo, discutíamos muitíssimo sobre a ineficácia da forma de vida urbana, mediada pelo dinheiro e baseada na ficção do trabalho já pouco produtivo para o capital. O que nunca soubemos foi como alcançar uma prática capaz de pôr um termo a essas formas fracassadas de vida.

Discutíamos tanto que passei a carregar comigo, para tudo que eu fazia, uma visão pessimista da realidade. Meu olhar estava tão direcionado que eu não sabia encontrar os matizes fora da escala de preto e branco. Como os filósofos pessimistas, eu olhava para a realidade e enxergava apenas ruínas.

Passei a viver a cidade e os espaços que ela oferece de forma bastante crítica e negativa. Esse olhar é imprescindível para problematizar o próprio cotidiano e as relações em que nos vemos inseridos, mas faz,  por outro lado, com que deixemos de reparar a beleza inerente às pessoas, relações, coisas e espaços.
Nesse abismo entre o não bom e o decadente, a vida acadêmica baseada em sua interpretação teórica da realidade também tem sua parcela de contribuição.

Minha rota mudou quando meu curso saiu do centro de humanidades e passou para o campus Itaperi. O ar de luta e reivindicação que compunha a atmosfera do Benfica não podia ser sentido de tão longe. Lá havia uma certa frieza acadêmica, necessária para interiorizarmos o ethos do cientista.

Mudei meu ponto de vista, mudei minha rota, mudei minha própria vida. A necessidade pela ação move os indivíduos. Faz com que se desloquem física e mentalmente de seus próprios espaços de conforto.
Hoje, minha nova rota é aquela que se distancia da cidade e olha mais para dentro, tanto de mim mesma quanto do Estado em que habito. Conhecer e trabalhar longe dos grandes centros urbanos me propiciou um olhar mais atento para os contextos, para a riqueza de cada região e para múltiplas possibilidades de vida que podemos ter.

A cidade te surpreende mais ainda no momento em que percebemos que não é possível atribuir-lhe um único adjetivo. São necessários vários, porque ela é diversa. E sem medo de ser redundante, afirmo que ela é uma em varias. Porque distintas são as condições oferecidas aos indivíduos. Existem os espaços acolhedores, que te fazem lembrar do aconchego primeiro e da segurança do próprio lar. Tem aqueles que,  ao contrário, te fazem sentir a inadequação; aqueles que te despertam pura curiosidade; aqueles que cativam e os que afastam. Múltiplos também,  porque são múltiplas as relações. Todos humanos. Todos divididos. Todos classificados. Uma só cidade, mais de 2,640 milhões de representações.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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