Algumas das reflexões que atravessam este artigo foram recentemente reforçadas pelo convite que recebi para integrar um dos painéis do II Seminário Exibição, realizado na programação do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema, entre 25 de março e 1º de abril de 2026, em Salvador e Cachoeira, Bahia. O encontro, voltado justamente à reflexão sobre os desafios contemporâneos da exibição, recolocou em primeiro plano uma contradição decisiva do audiovisual brasileiro: o país vive, ao menos em termos absolutos, um momento de expansão histórica de sua infraestrutura de salas, mas essa expansão convive com uma geografia profundamente desigual do acesso, da viabilidade econômica e da própria experiência de ir ao cinema.
O dado mais vistoso é conhecido: o Brasil fechou 2025 com 3.554 salas de cinema em operação, recorde histórico do parque exibidor, com presença ampliada para novos municípios. Antes disso, o ano de 2024 já havia encerrado com 3.510 salas, também em patamar recorde para a série recente. À primeira vista, o número parece indicar um forte vigor, um misto de retomada e consolidação. E, em alguma medida, indica mesmo. Depois do trauma pandêmico e de um longo período de instabilidade, o setor voltou a crescer em quantidade de telas e em capilaridade formal.
Mas a exuberância do número nacional não deve ocultar o essencial: a expansão do parque exibidor brasileiro não se distribui de maneira homogênea pelo território. Estudos recentes mostram que apenas cerca de 9% dos municípios brasileiros contam com salas de cinema – em 2024, eram 482 cidades entre 5.570 municípios, ou seja, 91,4% do país permanecia sem salas em funcionamento. Em outras palavras: há mais telas do que nunca, mas elas seguem concentradas em uma parcela muito reduzida do mapa brasileiro. O problema da exibição, portanto, não é apenas quantitativo; é espacial, federativo e, como não poderia deixar de ser, também social.
O recorde e a sombra
A palavra “recorde” produz, por si, uma sedução estatística. Ela sugere plenitude, vitalidade, avanço. No entanto, no caso do cinema brasileiro, esse recorde precisa ser lido sob o signo da sombra. Porque um país pode alcançar seu maior número de salas e, simultaneamente, preservar, ou até aprofundar, um padrão histórico de concentração territorial.
A distribuição regional ajuda a perceber isso com nitidez. Em 2024, o Sudeste reunia 1.839 salas, muito à frente das demais regiões; o Nordeste tinha 598, o Sul, 558, o Centro-Oeste, 288, e o Norte, 227. Já com o novo recorde de 2025, essa predominância sudestina se projeta para a casa das 1.900 salas, mantendo a região muito acima das demais. Não se trata, portanto, apenas de dizer que o Sudeste lidera, algo previsível em termos demográficos e econômicos; trata-se de reconhecer que o circuito exibidor brasileiro espelha, com impressionante fidelidade, a própria anatomia desigual do país.
Se o Brasil é um território em que riqueza, infraestrutura, consumo e serviços se concentram historicamente em certos eixos, o cinema comercial não foge à regra. A tela acompanha a estrada, o shopping, a renda, a densidade do consumo, a presença dos grandes grupos econômicos e a lógica dos fluxos urbanos consolidados. Onde há menos renda, menor adensamento comercial e mais fragilidade logística, o cinema tende a rarear, ou a depender de modelos mais frágeis, mais isolados e mais expostos à oscilação local.
Exibir num país continental
É impossível pensar a exibição cinematográfica no Brasil sem levar em conta o fato elementar de que o país tem escala continental. Isso significa, entre outras coisas, que cinema não é apenas programação, equipamento e público; é também deslocamento, manutenção, cadeia de suprimentos, suporte técnico, conectividade, negociação comercial, disponibilidade de mão de obra e inserção numa determinada hierarquia territorial.
Exibir um filme em São Paulo, Fortaleza, Manaus, Porto Alegre ou Brasília não é o mesmo que exibi-lo em uma cidade média do interior, muito menos em regiões afastadas dos grandes centros de decisão econômica, isso devido ao fato de que a distância, no Brasil, não é um dado abstrato. Ela pesa no custo da operação, no tempo de resposta técnica, na manutenção dos equipamentos, na circulação de profissionais qualificados e até na força contratual do exibidor diante de distribuidores e fornecedores. Em certos contextos, a distância geográfica converte-se mesmo em desvantagem estrutural.
Ao mesmo tempo, as diferenças socioeconômicas entre regiões e entre cidades grandes e pequenas alteram radicalmente o comportamento do público. Em praças menores, a base consumidora é mais estreita, mais sensível ao calendário local e mais vulnerável à renda disponível. Nas metrópoles, ao contrário, há maior densidade populacional e mais circulação de dinheiro, mas há também concorrência feroz com múltiplas formas de lazer, custos fixos muito mais altos e uma pressão permanente por atualização de padrão. O cinema brasileiro, desta forma, visto em conjunto, não é um mercado único; é um mosaico de mercados parciais, cada qual com sua própria gramática de risco.
A sala de cinema como espelho da desigualdade
As situações relatadas por exibidores de perfis distintos deixam claro que a assimetria não se limita ao número de salas. Ela atravessa o tipo de operação, o perfil do público, a elasticidade da programação, a capacidade de investimento e a própria margem de sobrevivência. Há salas instaladas em shoppings de alto padrão, equipadas com tecnologia recente, conforto elevado e maior possibilidade de diversificação de grade. Há, em contrapartida, cinemas que operam em cidades onde o consumo cultural pago é muito mais vulnerável, onde o público escolhe com extremo rigor o que justifica sair de casa, e onde qualquer variação na rotina urbana – chuva, evento religioso, circo, feriado, retração momentânea da renda – pode comprometer uma semana inteira.
Essa diferença de ecossistema produz uma consequência direta: não se pode analisar o parque exibidor apenas por números absolutos de salas ou de público. Uma operação de shopping center numa capital pode parecer robusta em bilheteria bruta e, ainda assim, ser esmagada por aluguel, condomínio, fundo de promoção, folha salarial e tributos. Uma sala menor, em contrapartida, pode operar com menos público, mas maior racionalidade local. O que decide a saúde de um cinema não é a aparência de movimento, e sim a delicada relação entre frequência, custos, ponto, programação e território. As próprias situações evocadas por exibidores apontam justamente para isso: grandes números podem esconder negócios extenuados, enquanto pequenas operações podem manter alguma sustentabilidade desde que ajustadas ao seu contexto.
O público intermitente
Outro dado central do panorama atual é a intermitência do hábito de frequência. Em muitas praças, o cinema parece depender, cada vez mais, de poucos títulos com apelo massivo. Fora desses momentos de “filme-evento”, a regularidade de público se retrai. Isso significa que a ida ao cinema, para parcelas significativas da população, já não ocupa o lugar de prática recorrente que ocupou em outros períodos. Ela se tornou mais seletiva, mais circunstancial, mais sujeita à equação doméstica entre desejo, renda e conveniência.
Esse quadro se agrava quando se considera a concorrência contemporânea. O cinema já não disputa atenção apenas com outros cinemas, mas com um ecossistema inteiro de opções: streaming, consumo pirata, TV box, redes sociais, shows, bares, parques, restaurantes, eventos esportivos e o próprio conforto do espaço doméstico. Em um país de renda comprimida, em que a experiência de ir ao cinema envolve quase sempre mais do que o preço do ingresso, o espectador tende a reservar a saída para obras de reconhecimento imediato, alto apelo coletivo ou forte sensação de urgência. A consequência disso é um mercado mais dependente de picos e menos capaz de sustentar continuidade.
Modernização desigual
Seria injusto, contudo, pintar um quadro apenas declinante. O setor também apresenta sinais de reinvenção e investimento. Há exibidores modernizando salas, trocando tecnologia, qualificando som, imagem e conforto, tentando tornar a experiência cinematográfica suficientemente distinta da fruição doméstica. Esse movimento é importante: ele mostra que parte do mercado ainda acredita no valor da sala como experiência singular.
Mas a modernização também é desigual. Nem todos os exibidores têm capital para trocar equipamentos, reformar poltronas, recalibrar operação e elevar padrão sem risco de expulsar seu próprio público pelo encarecimento da experiência. Em muitos casos, a atualização técnica depende de programas públicos, oportunidades específicas ou condições excepcionais de financiamento. Assim, o recorde nacional convive com um parque de velocidades distintas: um segmento avança; outro resiste; outro apenas adia o limite.
O país das telas concentradas
Talvez o traço mais eloquente do momento brasileiro seja este: temos mais salas do que nunca e, ainda assim, seguimos longe de um regime minimamente equilibrado de acesso. O Brasil alcançou um patamar histórico de infraestrutura, mas essa infraestrutura permanece concentrada em poucos municípios, com forte predominância do Sudeste e inserção desigual nas demais regiões. A expansão existe, mas não dissolve o problema histórico da concentração; apenas o reposiciona num novo patamar quantitativo.
Por isso, qualquer leitura triunfal do recorde precisa ser analisada, também, pelo viés geográfico. Um país com 3.554 salas em operação pode, ao mesmo tempo, continuar sendo um país em que milhões de pessoas vivem sem acesso cotidiano à experiência cinematográfica. Pode celebrar a recuperação do parque exibidor e, simultaneamente, manter vastas zonas de rarefação cultural. Pode ter mais telas e não ter, necessariamente, mais equilíbrio territorial.
Entre expansão e fragilidade
O panorama do setor, visto com a devida complexidade, sugere menos uma crise terminal do que uma expansão estruturalmente frágil. O parque exibidor brasileiro cresceu, renovou parte de sua infraestrutura, abriu novas salas, alcançou municípios até então desprovidos dessa experiência e demonstrou, após o trauma pandêmico, uma capacidade real de recomposição. Mas seria precipitado confundir esse movimento com estabilidade consolidada. A expansão observada nos últimos anos repousa sobre bases profundamente desiguais: forte concentração regional, presença ainda rarefeita na imensa maioria dos municípios, acentuadas variações de renda e consumo, custos operacionais elevados, dependência recorrente de filmes-evento e extrema sensibilidade às condições concretas de cada praça.
Se o cinema, no Brasil, permanece sendo ao mesmo tempo indústria, serviço, equipamento urbano e experiência coletiva, seu futuro dificilmente poderá ser pensado apenas a partir de uma lógica estritamente mercadológica. Será necessário reconhecer, com mais precisão, a dimensão territorial da exibição, os desafios da interiorização do acesso, a vulnerabilidade das pequenas e médias operações, as assimetrias regionais e a urgência de políticas permanentes de investimento que não confundam crescimento agregado com democratização efetiva. Nesse sentido, torna-se cada vez mais evidente a necessidade de agregar mecanismos públicos capazes de sustentar a expansão e a permanência das salas, sobretudo em contextos nos quais a lógica de mercado, sozinha, não assegura viabilidade duradoura. Não se trata de tutela artificial, mas do reconhecimento de que a exibição é elo fundamental da cadeia audiovisual e condição indispensável para que o expressivo volume de filmes brasileiros financiados anualmente com recursos públicos encontre, de fato, circulação, público e horizonte de existência cultural.
No fundo, a questão decisiva talvez não seja propriamente quantas salas de cinema existem no Brasil, mas onde essas salas estão, a quem de fato servem e em que condições poderão permanecer ativas no tempo. É nesse descompasso entre a estatística nacional e a experiência concreta dos territórios que se inscreve, hoje, o verdadeiro drama, e, talvez, também a possibilidade de reinvenção do parque exibidor brasileiro.