UM PAÍS CONDENADO ÀS TORNOZELEIRAS DA HISTÓRIA

O Brasil não carecia dessa decisão inopinada, adotada por um dos 11 togados do Supremo.

Não agora, em relação a um processo que navega há mais de 5 anos na justiça, quando o país afundou em uma trágica crise com duas centenas de milhares de vidas perdidas e a economia dá mostras dos desequilíbrios que minam as suas bases estruturais.

Espanta que uma decisão que se fez aguardar por tanto tempo seja trazida a plano precisamente agora, como se vivêssemos uma situação de plena normalidade.

A perspectiva da arriscada confrontação de contrários fundamentalistas em uma eleição anunciada opondo Lula e Bolsonaro não será um ensaio democrático. Será o prenúncio de uma perversa clivagem social e política sem retorno. A receita eficiente para o desencadeamento de uma crise para a qual não temos como enfrentar com as armas frágeis da democracia.

Será um embate no velho estilo latino-americano, desses que arrastaram, em 500 anos de travessuras intestinas, diversos países da região a uma situação econômica de insolvência e a uma catastrófica desorganização social e política.

Não surpreende, nem espanta, que o kirshnerismo sobrevivente nessa pobre Argentina tenha sido a primeira manifestação de júbilo, poucas horas após o voto, solitário e monocrático que traz Lula das condenações de numerosos processos criminais e o devolve às campanhas eleitorais do próximo ano.

O ilustre ministro Facchin assegura o seu lugar na História: devolve o Brasil ao populismo que fez da América Latina o que ela é, um quintal desarrumado de transações oportunistas, ocupado pelas novas oligarquias
geradas de algumas lições gramcistas mal aprendidas.

E de uma longa experiência nas obras consensuais da corrupção.

Do fundo do emaranhado empolado das razões jurídico-processuais vamos, nós brasileiros, assistindo à passagem lenta do bonde da História.

Resignados à nossa sorte e iludidos pelas enganosas esperanças, mergulhamos nas brumas de um futuro incerto e mal sabido. Pela autoridade de uma decisão de terceira instância.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.