UM OUTRO CONTO DE NATAL, por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Ela era apenas uma criança: mal completara oito anos de sofrida existência. Magricela, com visíveis marcas de desnutrição; os braços descarnados e descaídos ao longo do corpinho carente de vigor… os pés calosos; os cabelos rebeldes, quebradiços e ressecados; o olhar sem ânimo, perdido no vazio do nada, desesperançado; os tenros músculos faciais enrijecidos; o escasso sorriso sem brilho, sem viço, sem graça, exânime; a pele deslustrada, despolida, enegrecida pela inclemência de muitos sóis causticantes; o todo facial a refletir a lancinante e pungente dor da recente e incompreendida orfandade; as lágrimas, todas já se esvaíram copiosamente, exauriram-se… e a fonte secou… e o espírito já se faz embrutecido. E ela era apenas uma criança.
O pai, viúvo de poucas noites, ainda desnorteado ante a perda prematura da parceira de todas as horas e vivências, encontra forças para, sob o olhar de letargia, de inação, dos outros dois filhos – de dez e doze anos –, entregar sua única filha aos cuidados da comadre – e madrinha dela – que, católica fervorosa, num ato de caridade cristã e esperança na vida, se oferecera para dar um encaminhamento mais humano à vida daquela frágil criatura e afilhada sua.
Ali, sentindo-se pouco confortável num vestidinho de doação, os pés mal acomodados em chinelos que só agora lhe pertencem, à mão uma sacola com seus poucos pertences, entre eles a Teté, a inseparável boneca de pano com que sua mãe a presenteara num Natal qualquer, a menina Vaninha, assim carinhosamente a chamavam os pais e os irmãos, cujo nome – Maria Leidivânia – o pai lhe arranjara sem precisar a razão, o motivo, cortava definitivamente o seu segundo cordão umbilical, agora o que a unira, ao longo de seus oito sofridos anos, a uma família pobre e simples, mas disposta a enfrentar as intempéries da vida.
Ali, à sombra da frondosa mangueira que, na safra, produzia frutos saborosíssimos – quantas vezes lhe saciara a fome! – e, sempre, emoldurou e protegeu a entrada do casebre de taipa e sapé onde nascera, ela enterrava, definitivamente, um passado de tão curta duração e muita dor. Na candidez da sua ingênua inocência não fazia a menor ideia do que estaria porvir… não entendia sequer o que poderia ser o futuro… e a tristeza cuidava de arrefecer-lhe o temor que teimava dela apoderar-se.
Um outro palco se descortinaria ao seu drama pessoal. Outros papéis dela exigiriam competência e disponibilidade para bem representá-los. E à grande plateia humana caberia decidir se aplaudir ou escarnecer.
Caminhou, em silêncio e de mãos dadas com a Dinha, pelo chão esturricado da estradinha que passava à frente da sua casa e, depois, pelo calçamento de pedras toscas da rua que ia dar na estação ferroviária. Viajou de trem até a cidade grande; no trajeto, não se sentiu atraída pelas paisagens que, pela janela, pareciam correr desesperadamente em sentido contrário ao da vontade da barulhenta locomotiva; sentiu uma leve tontura; aninhou-se ao lado da madrinha, em cujo colo recostou a cabeça, e, sentindo-se bem agasalhada, adormeceu.
Acordou com o barulho que faziam as pessoas e os carros. Eram os sons que caracterizavam o mundo novo que, insensível e exigente, ora a acolhia.
[…]
Por uma década e meia, Vaninha viveu com os Monteiros, que sempre a trataram muito bem. Serviu de dama de companhia para Melissa, uma bela e delicada menina de cabelos louros encaracolados e olhos azuis de turmalina, a única filha do casal de ricos empresários do ramo da construção civil. Tornou-se amiga e confidente dela. Cresceram juntas, embaladas pela felicidade que sempre amalgamou o relacionamento entre elas. E o brilho da princesa não ofuscava a dama de companhia; ao contrário, aspergia sobre ela generosos toques de encantamento. Encantos que acabaram atraindo olhares de interesses e de desejos, os quais despertaram na mulher enlevos e arrebatamentos; naturais, por assim dizer.
E Maria Leidivânia, em cerimônia simples patrocinada pelos patrões, com apadrinhamento da amiga Melissa e noivo, tornou-se a senhora Oliveira Freitas, agora na condição, civil e religiosa, de cônjuge de um respeitável e sério senhor de meia idade, até então avesso a casamento, empregado em firma de fornecimento de material de construção e domiciliado em cidade vizinha. Assim, sob a égide do Amor, sob as bênçãos de Afrodite e Eros, trocou a mansão dos Monteiros pela casinha de poucos cômodos, agora toda sua.
O tempo passou. Melissa casou-se e foi morar em Portugal. Os pais dela se mudaram para São Paulo. E o marido de Vaninha modificou profundamente o comportamento e, por extensão, as relações conjugais. Perdeu o emprego. Passou a viver de bicos. A situação financeira se agravou sobremaneira. Ele se descobriu alcoólatra. Elegeu o fato de a mulher ser estéril para espezinhá-la, para maltratá-la [“Imprestável! Inútil!”] em suas bebedeiras que já se tornaram cotidianas. Indefesa, ela se recolhia em orações, em pedidos de solução celestial para o problema que tanto a afligia e que se ia agravando. Uma tragédia livrou-a do sofrimento que aprendera a, em silêncio, suportar. O suicídio por enforcamento do marido, já acometido de tremores e alucinações provocados pelo uso abusivo do álcool. Pendente num dos armadores da sala de estar, o relho de couro cru que um dia ele usara como ameaça para surrá-la, só não conseguindo dado o seu estado de embriaguez.
Como morava em ruazinha de morro próximo à estação ferroviária, agora sozinha em pleno estado de viuvez, passou a produzir guloseimas especiais, a dispor tudo em tabuleiro de madeira que equilibrava no alto da cabeça, sobre uma bem trabalhada rodilha de pano. Então, descia o morro e vendia toda a produção aos passageiros do trem, vindos da capital no começo do dia ou vindos do interior no começo da noite, turno em que costumava enfiar uma lamparina acesa no meio do tabuleiro para tornar mais visível as suas ofertas e atrair os interessados em adquiri-las.
No começo da noite da véspera do Natal, a cidadezinha festivamente iluminada, as pessoas ternamente felizes, um tabuleiro de guloseimas especiais flutua no espaço próximo às janelas do trem, uma lamparina acesa bem no centro, uma voz feminina a oferecer suas prendas. No trilho ao lado, alguns vagões de carga fazem o pernoite estratégico. Um moleque corre sobre eles com a mão cheia de cascas de banana. Para repentinamente. Escolhe o tabuleiro e zás! O projétil atinge violentamente a lamparina que de imediato se apaga, lança em jorros dispersos o gás que lhe enchia o ventre e alimentava o lume e é arremessada à distância. O tabuleiro perde o equilíbrio e vai ao chão. As guloseimas se esparramam sobre o pedrisco que entremeia os dormentes que servem de base aos trilhos. Tudo perdido.
– Puta que o pariu! – a sofrida Vaninha não se conteve. – Que diabo eu fiz de tão errado para pagar tão caro! Mil perdões, meu Deus! Mas aqui se esgota a minha paciência. Não entendo por que sofro tanto.
Recolheu o tabuleiro. Na escuridão, os restos da lamparina se perderam. Caminhou cabisbaixa até a calçada da estação. Sentou-se no meio-fio. E chorou. Em profusão. Quis morrer, dar um final a uma vida inglória. O trem partiu. Todos se foram. Só ela permaneceu ali. Por desespero ou por cansaço, os braços cruzados sobre os joelhos, a cabeça neles apoiada, adormeceu. E no sono em tamanho desconforto, sonhou. Uma alameda se abriu à sua frente. Por ela caminhou, sentindo os pés descalços pisarem em pétalas de flor. Adiante, um caramanchão. Para. Um raio de forte luz quase a cega. No meio do clarão, surge uma criança. De uma beleza indescritível. Extasiada, ouve-o maviosamente dizer-lhe: “Mulher, não te desesperes! Retorna à tua casa! E a luz divina iluminará para sempre o caminho da tua vida!”. Contrita, ela ainda conseguiu sussurrar: “Meu Senhor e meu Deus!”.
Acordou. Recompôs-se. Enxugou o rosto com a barra da saia. Novamente recolheu o tabuleiro. Levantou-se e seguiu em direção à sua casa.
De longe, percebeu movimentos estranhos. Ao aproximar-se, encheu-se de alegria. Sentada na calçada de sua casa, uma linda mulher com um filho pequeno no colo. Para ela, sorriam. No céu, uma estrela brilhou diferente e um raio de luz aspergiu sobre eles. E a mulher a ela se dirigiu:
– Minha amiga, eu vim buscar você. Eu preciso de você que tão bem ajudou a minha mãe a me criar. Ajude-me a criar o meu filho. Venha morar comigo. E eu lhe garanto que nada mais lhe faltará.
Maria Leidivânia largou tudo e, já naquela noite, participou da Ceia de Natal de sua nova família.
Quando o galo cantou, à meia-noite, ela sentiu que, enfim, a alegria e a felicidade retomaram o comando da sua caminhada pela vida.
No colo, dormia tranquilo o filho de sua melhor amiga. O menino que viera para salvar-lhe a vida.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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