UM MERGULHO NAS ENTRANHAS DA HISTÓRIA DAS OLIGARQUIAS CEARENSES

O presidente provincial Antonio Pinto Nogueira Accioly, tão acrimoniosamente tratado pelos historiadores cearenses, é um político em busca de uma biografia.

Oligarcas, foram quase todos os governantes do Ceará ou o são, nestes tempos modernos. Poucos chegaram ao governo provincial, no período imperial ou no Ceará republicano, sem o peso da família, do nome e dos arranjos de greis bem dotadas de bens e de relações propícias — e do voto disciplinado dos currais eleitorais.

As novas oligarquias oferecem uma composicão mais sofisticada das suas relações íntimas com o público e o privado. Abandonaram o fraque, já não contam com os favores das eleições a “bico-de-pena”. Enfrentam, entretanto, com indisfarçável indiferença as urnas invioláveis da engenharia “cyber” do ministro Moraes.

As novas oligarquias demonstram, no Brasil, um edificante apelo familiar, o poder local reproduz-se, graças a estes liames de solidariedade, à mesa do almoço — e impõe-se aos incautos como instrumento de gestão dos árduos e patrióticos negócios de governo.

As oligarquias são construídas a partir de bens de raiz intranferíveis: nascimento, propriedades, direitos de posse, influência e recursos políticos — tudo associado a relações entre proprietários e posseiros, sobre as quais se afirmam conexões de lealdades recíprocas e de proteção.

Nogueira Accioli era um homem bem nascido, exigência corrente por aqueles tempos para acesso e alcance dos assuntos da política, incontornável para os negócios do poder. Culto, governou segundo os padrões da época, até ser defenestrado por um certo Coronel Franco Rabelo, vindo de outras estâncias, sob a proteção das coortes castrenses locais e dos benfeitores da República.

O tratamento reservado pelos historiadores para o presidente Accioly, na maior parte dos registros e da crônica histórica, traduz um “parti pris” incompreensível em pessoas que cuidam do ofício delicado das narrativas políticas.

No Ceará, grande parte das análises políticas e de governo filia-se às adesões político-partidárias remanescentes de uma disputa sem tréguas entre “aciolistas” e “rabelistas”…

Abelardo F. Montenegro cuidou com segurança de alguns aspectos que associam, em textos de análise e interpretação cuidadosos, as íntimas relações entre as oligarquias e os interesses dos negócios do Estado.

De lá para cá, transcorridos tantos anos, surgiram produções esparsas que revelam, contudo, que o interesse por essa saga de oligarcas continua vivo.

Joaryvar Macedo, com o “Império do Bacamarte”, Nertan Macedo com vasta obra em romance e registros da crônica histórica, e mais recentemente João Macedo Coelho Filho, com “Bala de Algodão”, trazem contribuição relevante para melhor compreensão do cangaço e das oligarquias das grandes famílias.

Para a reconstrução das oligarquias, das relações weberianas de lealdade e proteção, do voto e da eleição, como construção do poder político que dominou e governou o Ceará, carecemos de pesquisadores e do mergulho nas fontes primárias, de documentação farta e perquirida com disciplina.

Esta é uma provocação, o repto lançado a historiadores, sociólogos, cientistas políticos e antropólogos para um mergulho nas entranhas do Ceará para delas arrancar um retrato consistente em preto-e-branco das oligarquias e dos oligarcas.

É tempo de levar-se a sério este capitulo trágico da vida política cearense.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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