Um brinde à tradição de Gutenberg, por LUIS SERGIO SANTOS

É sempre um júbilo comemorar o aniversário de um ente vivo como um jornal. Ainda mais quando esse ente dobra a marca de 82 anos, como acontece agora com o jornal O Estado. Este advento tem especial significação nos  turbulentos dias hoje quando o mundo civilizado vivencia um transe que poe em xeque valores humanos, contratos sociais, regras mínimas de convivência traduzidos no exacerbamento das diferenças e no culto aos fundamentalismos.

O jornal O Estado é fundado em 1936, sua primeira edição circula na tarde da quinta-feira, dia 24 de setembro, na sede da rua São Paulo, a 500 metros dos dois polos de poder — o Palácio da Luz, a sede do Governo, uma obra da engenharia do século XVIII, e Assembleia Legislativa, também na rua São Paulo, onde hoje funciona o Museu do Ceará.

A redação trazia jovens talentosos, idealistas e visionários. Um daqueles era José Martins Rodrigues, professor do Curso de Direito, deputado estadual e então todo poderoso secretário do governo Menezes Pimentel. Outro, Júlio Rodrigues, irmão de José, financista, cuidada das incipientes economias da nova empreitada. Um outro, era Raul Barbosa, nos seus recém completos 25 anos, atuava como redator e repórter. O editor de Política era Plácido Aderaldo Castelo, o senador Edgar de Arruda era “diretor efetivo” do jornal, Alfeu Aboim cuidava das oficinas. O jornal era umbilicalmente ligado ao governo de Menezes Pimentel, fervoroso católico eleito pela Liga Eleitoral Católica que, apesar do nome, era um partido político.

O Estado nasce dentro da política e não poderia ser diferente em uma época em que os jornais eram verdadeiras barricadas na defesa dos interesses de grupo de poder, partidos políticos, sindicatos, governos. Em uma época onde a opinião prevalecia sobre a informação. Os jornais nascem como tribunas e trincheiras, cheios de legitimidade porquanto transparentes em seus alinhamentos políticos e ideológicos.

Ao longo de suas várias vidas, dos seus vários ciclos, o jornal exerceu sua influência em momentos decisivos da história do Ceará. Foi assim na campanha de Raul Barbosa ao governo Nessa época O Estado era dirigido — desde 1945 — por Walter de Sá Cavalcante e funcionava na rua Senador Pompeu, 832. Foi Walter quem conduziu, nas páginas do jornal, a campanha de Raul Barbosa. Walter de Sá era líder do PSD na Assembleia Legislativa Estadual, acumulando com a função de diretor do jornal O Estado, cujo gerente era José de Sá Cavalcante.

Em 3 outubro de 1950 Raul Barbosa derrotou Edgar Cavalcanti Arruda (UDN) na disputa para o governa do Ceará, pela coligação do PSD com o Partido Social Progressista (PSP) e  Partido Republicano (PR). O jornal O Estado cumpriu papel estratégico nesta campanha esgrimando diariamente e de forma intestina com o jornal O Povo, alinhado à UDN de Paulo Sarasate Ferreira Lopes que apoiava Arruda.

Este é somente um episódio entre dezenas nos quais O Estado influenciou de modo decisivo.

Comemorar o aniversário deste jornal é, também, brindar a longevidade da mídia impressa. A relevância é maior em um momento em que o “mundo líquido”, as plataformas digitais, asfixiam muitos grandes veículos precipitando-os rumo a uma enorme crise de identidade. — um hamletiano conflito entre vida e morte.

A despeito de tudo, O Estado tem se mantido coerente com a sua natureza e mantido galhardamente sua identidade de gênero: o que se pede de um jornal é que ele seja o meio onde informação editorial e o design convivam de forma racional e harmoniosa sem excessos e sem desperdícios.

A fase  do jornal inciada em dezembro de 1965 é aquela que o mantém vivo até hoje. Não fosse o idealismo utópico do casal  Venelouis Xavier Pereira e de Wanda Palhano certamente O Estado teria encerrado ali a sua trajetória. Mas o que temos hoje, pelas mãos da segunda geração de Venelouis, é um jornal que  cumpre seu destino com dignidade e lisura.

É certo que a mídia impressa é hoje o “sparring” da anarquia digital. Ela precisa se reinventar sem trair sua natureza. Ela não pode se confundir na leviandade das  redes sociais em um  mundo onde cada cidadão é um emissor e onde o boato ganha ares de maior relevância que o fato.

Com a liquidez da internet e, nela, das redes sociais, nunca foi tão fácil publicar. Há, portanto, uma avalanche de “liberdade de imprensa”.  Liberdade de imprensa é a liberdade de publicar. Nunca houve tanta liberdade de publicar no Brasil, principalmente nas plataformas digitais. Esse excesso de liberdade está na fronteira da libertinagem,

O grande risco em tudo isso é que mesmo setores bem informados acham que as plataformas digitais se bastam. O conteúdo digital e volátil e anódino. Fugaz. Não residual. O que acontecerá com a memória da nossa civilização em um futuro próximo se abrimos mão da tangibilidade do papel como suporte? O risco de danos irreparáveis é imenso.

Portanto, o jornal O Estado e seus similares em todo lugar, cumprem papel decisivo quando insistem em celebrar e tecnologia inventada por Johannes Gutenberg. Somos todos Gutenberguianos. Não há salvação no “mundo líquido”.

Luis-Sergio Santos

Luis-Sergio Santos

Jornalista e Professor da UFC

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