Eu Matei minha Mãe: E o cinema que se pensa como desafio

A mãe nuca será a melhor amiga do seu filho. A frase do cineasta Jean Cocteau (1889-1963) soa como um estandarte para aquele que seria o filme de estreia do realizador Xavier Dolan. Ancorado na infinitude de um universo muito particular, “Eu Matei minha Mãe” (2009) é um exercício de uma cinematografia que opta ser traçada pela linha do desafio. O desafio da criação que precisa se reinventar em tudo o que já foi dito e que entende a necessidade de se fugir das amarras impostas pela representação.

A estória se desenrola por meio da conflitante relação entre Hubert (Xavier Dolan) e sua Mãe Chantale (Anne Dorval). Entre discussões e tentativas de acordos na convivência, mãe e filho buscam dar sentido aos dias que parecem ter ficado perdidos em algum lugar do passado outrora compartilhado pelos dois.

Num primeiro momento até podemos pensar estarmos diante de mais um trabalho de investigação do cinema aos complexos que envolvem a juventude. Mas olhar para uma obra como essa requer mais. Ou por que não, menos? Longe das discussões intermináveis que recobrem os filmes que findam a ser “engolidos” por suas temáticas, esse se mostra um trabalho que flutua seguramente em diversificadas esferas que a cinematografia pode se valer.

Uma delas é o tema. Todavia, no cinema ele há de ser além de um dado burocrático dentro de um processo iminentemente artístico. E como arte, é isso o que o cinema tem de se propor a ser. E foi partindo dessa proposição que Dolan abriu seu trabalho. Hubert tem problemas com sua mãe. Disso, entretanto, não notamos o desenvolvimento de situações padrão ou que nos forcem uma leitura maniqueísta acerca de quem está certo ou errado. Vai ver ninguém esteja. Esse tom de livre abertura temática é o que o cinema é.

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As influências de Dolan são exaltadas abertamente. Aqui, os tons de cor vibrantes celebram o cinema de Pedro Almodóvar.

É uma proposta de diálogo com quem vê. E o que vemos? Um cinema que recepciona sua própria investigação e nos deixa, enquanto espectadores, abertos também a criarmos nossa própria leitura da narrativa ali desposta. Certo ou errado passam a se reconfigurar não como dualidade mas como duplos num todo que forma esse esboço fílmico. O olho que vê, no entanto, está energicamente sendo estimulado pela forma.

Em tese, “Eu Matei minha Mãe” é construído como obra fortemente calcada no discurso. Com as personagens numa “posta em cena” que se volta bastante para o diálogo, o plano e contra plano se tornam uma base para todo o filme. O desafio é fazer isso do modo inverso ao que costumeiramente vemos nas cenas dialógicas.

Assim, Dolan divide o plano ao meio. Ele corta ou aparta as personagens como opostos em conteúdo ou forma. E a cada um deles apenas será destinado uma fatia do enquadramento da câmera ou da imagem que vemos na tela. Essa escolha pelo corte também se estende, por consequência, à montagem. Por isso que a todo novo ambiente que se é apresentado no filme sua representação nos vêm através dos recortes das partes contidas no todo que é sua ambiência. Um pôster da Coco Chanel na parede, um quadro, uma escrivaninha, várias fotos coladas acima da cama. Temos assim uma mostra do que seria o quarto de Hubert.

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Nos planos do filme onde há diálogo, o ator fica usualmente à esquerda ou à direita do quadro.

Tal esforço estético é uma feliz afirmação de que a estética cinematográfica conta. E que mais ainda há um compromisso a ser assumido sobretudo com as diretrizes que nossos predecessores ajudaram a elaborar para o avanço do cinema como linguagem. A técnica do Jump-Cut se cristaliza em meio a isso.

E o recurso da colagem de imagens que compõem o quadro (num tempo de até 1 segundo) empregado pioneiramente por Godard e tantos mestres do cinema moderno da Nouvelle Vague  e demais movimentos segue ultrapassando os limites da forma no reforço de uma produção de sentido da cinematografia que continua escolhendo desafiar a si mesma. A desafiar nosso olhar. Uma vez que ele entende quando vê algo distinto. Isso pode ser a respeito da disposição de um plano, tal qual pensara (e vem pensando) Dolan.

FICHA TÉCNICA
Título Original: J`ai Tué Ma Mère

Tempo de Duração: 100 minutos

Ano de Lançamento (França): 2009

Gênero: Drama

Direção: Xavier Dolan

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.

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