Três economistas brasileiros e a crítica da economia política

“A lei básica do capitalismo é “você ou eu” e não “você e eu “.

Karl Liebnecht

​Assisti, atento, ao debate da Globonews no qual estiveram presentes três economistas respectivamente ligados aos projetos políticos do Partido dos Trabalhadores, do Partido da Social Democracia Brasileira, e do liberalismo clássico prometido por Paulo Guedes e que terminou em fake News.
​Estavam presentes o ex-Ministro da Fazenda do governo Dilma Rousseff, Nelson Barbosa, da social democracia trabalhista petista;
– Elena Landau, que participou da elaboração do Plano Real e serviu ao governo FHC e se assume como liberal-progressista;
– e Hélio Beltrão, economista defensor do liberalismo ortodoxo que apoiou a candidatura do Boçalnaro, o ignaro, e hoje está arrependido.

​Os três e eu temos uma única convergência: somos todos críticos do Ministro Paulo Guedes (e por motivos diversos), seja porque nunca concordamos com seus argumentos de campanha, ou seja, como no caso do Hélio Beltrão, porque não cumpriu a agenda liberal prometida, e obedeceu ao projeto populista-nacionalista do chefe a que serve, e se apega ao cargo como um musgo na pedra em face do vai-e-vem das ondas da maré.

​Os argumentos defendidos pelas três correntes acima expostas contêm meias verdades resultantes de raciocínios próprios aos projetos por eles defendidos, que terminam por ser equivocados nas suas essências porque todos eles têm um erro comum: não consideram que a dinâmica do capitalismo atingiu o seu ponto de saturação (ou limite interno e externo de expansão) e colapsou nos campos político, social, econômico e ecológico.

Eles não levam em conta que o Estado falido (em todas as vertentes ideológicas que dão sustentação à relação social capitalista, total ou parcialmente estatista ou privatista) é incapaz de cumprir a sua função reguladora ou assistencial justamente porque é apenas uma correia de transmissão de uma relação social cada vez mais anêmica.

A agenda político-administrativa econômica obedece, sempre, aos humores da insatisfação popular e princípios de governabilidade de sobrevivência.

Aliás, já se disse que nada mais liberal do que um economista keynesiano nos tempos (breves e localizados) das vacas gordas capitalistas de um determinado país; e nada mais keynesiano do que um liberal na depressão capitalista (vide Paulo Guedes de antes e de agora).

​Não é comum se começar um artigo dando o veredito final conclusivo dos argumentos a serem expendidos, mas o faço como forma de justificar no decorrer dos argumentos o porquê de tal conclusão. O leitor, assim, fica logo sabendo do cerne da nossa crítica, para, após, compreender o seu conteúdo.

​O pensamento socialdemocrata defendido por Nelson Barbosa consiste num Estado forte, estatizante, assistencialista, preocupado com o atendimento das demandas sociais básicas e outras que considera tão importantes quanto, intervencionista e ao mesmo tempo indutor do desenvolvimento econômico capitalista (como os governos petistas fizeram dando ênfase ao BNDES).

​A economista Elena Landau, que se auto intitula liberal-progressista, tem um pé na socialdemocracia assistencialista e outro pé na privatização liberal das estatais, admitindo que o Estado é um mau empresário e deve privatizar as estatais, mas com o governo tendo uma pretensa sensibilidade social, e defendendo os rigores do controle fiscal e monetário como forma de proporcionar o equilíbrio das relações capitalistas de produção.
Elena está no que se poderia chamar de centro-político ideológico (não confundir com o Centrão, cuja única ideologia é sempre a das próximas eleições e o próprio bolso).

O economista Hélio Beltrão é claramente defensor do liberalismo econômico clássico do Laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même, que propõe um Estado mínimo, não intervencionista, admitindo que o mercado é o santo graal capaz de tudo equalizar, em obediência ao que considera bons propósitos da lógica de produção de mercadorias na qual ganha a guerra concorrencial quem for mais competente e esperto (aos perdedores, as batatas…), entendendo que isto é o melhor para ao povo, ao final.

Há uma crença comum a todas estas escolas econômicas, muito bem definidas no debate e defendidas pelos debatedores sem subterfúgios quanto ao que defendem, convictos que são e estão do acerto de suas proposições.

Diferentemente dos governantes e partidos a que servem (ou das escolas doutrinárias econômicas a que estão atrelados), que mudam seus comportamentos doutrinários (os estatutos partidários são meros cânones de penalidades aos dissidentes) de acordo os interesses eleitorais, eles (os economistas presentes ao debate) tiveram a hombridade de defender aquilo que acreditam, embora estejam equivocados na essência e conteúdo do que acreditam, e sabendo que os governantes não lhes obedecem, mas a outros critérios de interesses circunstanciais.

Os partidos políticos não agem de acordo com suas respectivas doutrinas estatutárias (quando as têm), mas agem sempre pelo desejo cada vez mais corruptor de apego ao poder e apenas pensando nas próximas eleições, senão vejamos:
O PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, do Roberto Jefferson é de ultra direita, e não passa de um usurpador da tradição trabalhista getulista (que sempre foi populista e equivocada);
– O PT – Partido dos Trabalhadores, trabalhista com bandeira e estrela do socialismo, é socialdemocrata;
– O PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira, é liberal-progressista;
– O PDT, Partido Democrático Trabalhista, agora é apenas cirista, e poderia muito bem ser chamado atualmente de PFG – Partido dos Ferreira Gomes (mas só por enquanto…);
– Os partidos liberais são nacionalistas; e por aí vai….

O liberalismo nunca funcionou eficazmente sequer nos países de economia forte, e não tem força para se manter como doutrina política nas repúblicas da periferia do capital, e é por isso que jamais teremos um liberalismo ortodoxo no Brasil.

Nem no Chile de Pinochet, que adotou um regime de força e um programa liberal, o liberalismo deu certo, e proporcionou ali um profundo abismo social de classes. O General Pinhochet, o assassino e torturador traíra do digno e heroico Salvador Allende, terminou seus dias rico, mas deposto e execrado historicamente e popularmente.

A raposa livre dentro no galinheiro sempre come as galinhas e engorda!

A socialdemocracia num país da periferia do capitalismo, como é o caso do Brasil, sem moeda forte e pagando juros altos por sua dívida, e sendo apenas exportador de commodities sem valor agregado, padece das agruras próprias aos países que são socialmente segregados pela grande economia internacional.

Quando bafejado pelos breves ventos a favor da economia internacional que valoriza as commodities, como ocorreu no primeiro governo Lula, cria-se um clima favorável na economia e, assim, os pequenos empresários ampliam os seus negócios, os bancos faturam alto, e sobra algum dinheiro para o assistencialismo populista que faz a alegria eleitoral dos governantes.

Mas como no capitalismo a equação econômica é irresolúvel de modo permanente e satisfatório, passado o breve e relativo tempo bom, logo em seguida vem a tormenta, e com ela, aquilo que antes serviu como exemplo de boa política pública social e econômica, vira desastre.

É o que aconteceu com Dilma Rousseff, que em que pese todos os seus esforços de conciliação com as classes dominantes e alianças políticas espúrias, terminou ter sob seu governo a estagnação com inflação; insatisfação popular nas ruas sob cassetetes socialdemocratas; e sua destituição com um pedalateco.

O liberalismo progressista defendido no governo FHC, inicialmente criou um clima de esperança (que era falsa), porque com uma política monetária minimamente racional conseguiu domar a absurda inflação brasileira havida ao longo de algumas décadas.

Registre-se que a estratosférica inflação brasileira vinha desde os governos militares, passando por Sarney, o antigo Presidente do partido da ditadura, o PDS, que assumiu o governo após a queda da dita cuja (é mole?), e desembocando no bravateiro caçador de marajás e que afirmava ter aquilo roxo, Collor de Mello, e deixou o povo roxo de fome e os empresários com o dinheiro confiscado, levando a economia ao caos.

O liberalismo, que nasceu na França republicana, nunca se consolidou como doutrina social e econômica eficaz, mesmo nos países ricos, mas principalmente nos países pobres, pois sempre foi incapaz de proporcionar segurança monetária para o capital se desenvolver, notadamente agora, num mundo já atingido pela terceira revolução industrial que tudo necrosa.

O governo FHC, mesmo privatizando tudo que tinha direito e socorrendo os bancos falidos no pós-plano real (lembram-se do Proer – Programa de Estímulo Para a Reestruturação e Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, de novembro de 1995?) os problemas afluíram como não podia deixar de ser nesta província capitalista territorialmente fértil e gigantesca chamada Brasil.

Sob FHC veio a crise energética; a depressão econômica; o aumento do desemprego; e a derrota eleitoral para quem, sem ter medo de ser feliz, mas sem saber como sê-lo, acreditou que o socialismo capitalista petista (uma contradição no objeto) poderia fazer com que o diabo ficasse bonzinho.

O governo Lula negou todas as suas bandeiras históricas e mostrou a sua verdadeira face.
Entregou o Banco Central ao Henrique Meireles, o executivo de banqueiros estadunidenses;
– cedo propôs a reforma da previdência social, tentando ajustar equilíbrio econômico das contas previdenciárias, sem considerar a perda de direitos da assistência social aos aposentados e pensionistas;
– conviveu com um grande empresário como vice-presidente (o simpático e sabido mineiro José Alencar) num partido que antes se vangloriava de ser um Partido Sem Patrões;
– classificou a crise econômica do sub-prime de 2008/2009 e suas consequências que até hoje se agravam como sendo uma marolinha;
– fez alianças políticas espúrias com o que há de mais podre em termos de partidos políticos no que ficou conhecido como “escândalo do mensalão” e do “petrolão”, além de licitações fraudulentas com empreiteiras financiadoras de campanha;
– terminou com Joaquim Levy, representante dos banqueiros, no capítulo final, como Ministro da Fazenda;
– terminou por promover a queda violenta do PIB aliada ao aumento da inflação que chegou a dois dígitos; e por aí vai…

Depois veio a intervenção do economista Hélio Beltrão no debate demonstrando indignação com Paulo Guedes e Boçalnaro, o ignaro, por terem traído o projeto eleitoral liberal prometido e não cumprido.

Beltrão passou a defender a privatização de tudo, desde a saúde até a educação, como se no mesmo galinheiro pudessem conviver fraternalmente e prosperamente tanto os exploradores como os explorados. No entender desse economista liberal ortodoxo o Deus mercado é capaz de tudo equacionar, desde que o Estado não atrapalhe.

Ele não entende, ou não quer entender, que o mercado é o altar de uma destrutiva e autodestrutiva guerra concorrencial de produção de mercadorias na qual cada uma se digladia com a outra que quer eliminar como seres inanimados que ganham vida. Os seus detentores são meros gerentes da vontade mercadológica autofágica.

A lógica do capital é destrutiva socialmente porque além de concentrar renda nos poucos vencedores da guerra, elimina postos de trabalho abstrato produtor de valor em razão do uso tecnológico de máquinas na produção visando à redução de custos como arma indispensável na guerra concorrencial de mercado, criando o atual desemprego estrutural, hoje já substancialmente presente mundo afora, o que destrói o próprio mercado e toda a lógica funcional do dito cujo.

Hélio Beltrão considera Boçalnaro, o ignaro, e seu Ministro da Economia como traidores porque não entende que há uma incompatibilidade eleitoral entre os interesses do capital, que quer um Estado enxuto e a seu serviço, e a população empobrecida por este mesmo capital, que embora manipulada eleitoralmente, sempre procura decidir entre o menos ruim, que é o que lhe é eleitoralmente e democraticamente facultado.

Ele crê, equivocadamente, que o mal social atual em sí (o capitalismo) pode promover equidade social e prosperidade linear, contradizendo até mesmo o pai do liberalismo econômico, Adam Smith, que admitia, sem pejo, que para cada capitalista haveria necessariamente centenas de empobrecidos.

Boçalnaro e Guedes mandaram às favas toda a ortodoxia liberal (que nunca serviu a povo) em nome de um nacionalismo decadente (que também não serve ao povo) que, frustrada a tentativa de golpe, somente pensa nas próximas eleições.

Aliás, tanto ele como todos os políticos nas mais variadas doutrinas (ou falta delas) somente pensam nas próximas eleições que os levarão ao poder; em servirem aos capitalistas que os financiam diretamente ou não, e em permanecerem eleitos como serviçais destes ou da ordem capitalista constitucional; nas imunidades parlamentares e nos ambientes luxuosos das celebrações em Brasília; e na sala VIP dos aeroportos.

Não, senhores economistas; os senhores trabalham sob uma base falsa, que é a lógica capitalista ora decadente em razão da falência dos seus pressupostos e categorias fundantes, e não há como se fazer a mágica de transformar uma subtração dos despossuídos em adição de riqueza para eles mesmos em sua maioria.
Além do mais, a economia de mercado e seu regime de guerra concorrencial, impele os produtores de valor à predação ecológica na busca pela sobrevivência. É o limite externo ecológico que agora incide sem seletividade social e sob a forma de aquecimento global que atinge a todos indistintamente, ainda que os pobres sofram mais.

Sob todos os aspectos não há como se justificar doutrinariamente e empiricamente a permanência das categorias capitalistas como defendem os economistas aqui criticados.

A matemática é uma ciência exata, e os números da subtração indébita do tempo de trabalho produtor de valor pelo capitalismo (a velha e atual extração de mais-valia) jamais vai permitir aos explorados que gozem os prazeres da vida e da riqueza abstrata que produziram sob a exploração capitalista como os senhores teimam em defender sob pontos de vistas político-econômico-doutrinários diversos, mas sob uma mesma base de forma e conteúdo.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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