TRÊS CONTOS ORIGINALMENTE CURTOS QUE, DE TANTO NELES INTERVIR, ACABEI POR ESPICHÁ-LOS

I.

NAS PRIMEIRAS HORAS DA MANHÃ DESTA QUARTA-FEIRA DE POUCAS CINZAS, porquanto carnaval, na exata acepção do termo, não houve, mais um dos efeitos da pandemia que ora grassa mais impiedosa que antes, amedrontando e sufocando e ceifando vidas, com o tempo ainda naquele chove-e-não-molha de toda a véspera, saúdo, com um bom-dia ao meu exclusivo estilo, as poucas pessoas que encontro na padaria da avenida, bem mais tradicional e conservadora que a da esquina, apenas, na verdade, a irmã do dono na função de caixa, a mocinha com sorriso cativante nos olhos de intenso negror e atenta ao atendimento à freguesia, e, em mesas distintas, um homem de cabelos grisalhos com fardamento que o identifica como segurança particular de um colégio do bairro que, absorto no que faz, parece nada ter ouvido porquanto não desvia sequer a atenção da xícara de café-com-leite por ele sorvido com volúpia de esfaimado, além de uma idosa com jeito de carola, em vestido amarronzado de peça única, rosto comum e cabelos crespos presos num arremedo de cocó à altura da nuca, que acabava de deglutir seu magro desjejum. A festiva saudação, complemento-a com uma indagação até certo ponto óbvia:

– E aí, amigos, como vocês estão enfrentando esta anormal ressaca de carnaval?

O segurança larga a xícara no tampo da mesa, olha-me de través e pronuncia-se:

– Com este friozinho de serra e depois de uma longa e congelante noite de trabalho, nada seria mais saudável para mim, além deste cafezinho fumegante, que a minha rede no alpendre da minha casa. Oh, Deus! – Retoma, então, o que fazia antes, na forma como fazia.

[Recordo-me, en passant, de um causo que me contaram num passado distante, segundo o qual um indivíduo, no balcão de atendimento de um restaurante popular, enfrentava com avidez um abastoso prato de comida quando alguém ao lado fez-lhe uma imprópria, porque sem nexo causal, e inoportuna indagação: O senhor tem pai? E ele, para não perder tempo nem interromper o que fazia com sofreguidão, respondeu: Nem mãe!]

A idosa intervém.

– Pra mim, se possível, uma cama de casal com um aconchegante lençol de orelha. Nesse friozinho… seria uma delícia.

Rimos. Mas isso não a intimida. Ao contrário.

– O senhor deve estar pretendendo dizer Que velhinha mais saliente! Sou velha, sim, mas…

Eu a interrompo.

– Senhora, não a percebo assim. Até porque, velho por velho, eu também sou. Às vezes, também sinto desejos – eu ia dizer “inconfessáveis”, mas estrategicamente faço melhor opção – impróprios para quem chega já aos setenta…

– Pois eu já tenho setenta e seis. Sou viúva há quase vinte e cinco e vivo sozinha há mais de quinze… É muito desejo reprimido! – Sorri discretamente.

E, antes que tudo aquilo explodisse – vulcão secularmente adormecido e, por muitos, até esquecido, quando reentra em erupção, lança lavas aos borbotões –, procurei dar um outro curso à conversa, sem, todavia, abandonar a sua fonte primária.

– Se a senhora me permite, a expressão “lençol de orelha” é uma versão cearense da original, tipicamente gaúcha, “cobertor de orelha”. O sentido é o mesmo, obviamente.

A irmã do dono, que apenas ouvia a conversa, inesperadamente assim nela ingressa:

– Só sei que o meu lençol… ou cobertor… ou qualquer coisa que isso valha… já faz é tempo… tem só as orelhas… Não reage nem num friozinho como este… – E, poeticamente, arremata. – Já lhe falta do amor a centelha.

[Ó abre alas que eu quero passar!].

 

II.

MANHÃ DE DOMINGO DE CARNAVAL NA MINHA TERRA NATAL. Século passado. Primeira metade da década de setenta.

No sábado, ainda sob os efeitos do rachão da tarde no campo da Feira do Gado, ali entre o Matadouro Público e a Manga, decidimos – eu, o Jaime, o Zé Elias e o Carlos Bezerra – ir tomar Campari na Sorveteria, Restaurante e Bar Baturité, na 7 de Setembro, com larga entrada quase em frente ao portão de acesso ao Mercado Público, bem no coração do centro comercial da metrópole serrana.

Assim, eu, o único metido a folião do quarteto, sem traumas, eis que a bela Colombina – vencidos todos os eventuais Pierrôs que, por aventura ou por inveja, pretendessem nos perturbar –, eterna parceira deste apaixonado Arlequim, só chegaria no curso do dia seguinte, desistia de me divertir na noite inaugural do sempre concorrido folguedo momesco no Balneário Itamaracá Clube, no pé da serra, às margens do rio de águas remansosas e claras.

Após uma rápida participação na tradicional resenha pós-racha no bar do Miguel, também conhecido como Meu-Santo, com Zé Olavo do Paulão, o veloz ponta-direita, Bibi do Zé do Carmo, o craque da 8, e Menezes, o zagueiro pé-de-chapa, sorvendo algumas Astras estupidamente geladas no balcão em “L” que unia duas das quatro colunas de sustentação da caixa d’água, bem no centro do quadrilátero imóvel comercial, e com Carlinhos Bezerra disputando com Ribamar, por alguns chamado de Meu-Padim,  umas poucas partidas de sinuquinha, sob aposta em dinheiro vivo, em valores nada expressivos e só para manter o hábito,  sob os olhares atentos do Verçosa, o melhor lateral direito daquelas bandas, do Ornilo, o feirante e treinador de futebol, do Jaime e deste escrevinhador – nós esperávamos o Zé Elias, chefe de Estação, que acabara de entregar o plantão noturno ao jovem telegrafista João –, despedimo-nos da turma, entramos no jipe, de praça e de quatro portas, do Elialdo, também conhecido como Pezão, e, numa conversa bem animada, com o Carlinhos ainda contabilizando mentalmente os modestos ganhos do jogo recente [Será que dá pra pagar uma rodada? E a pergunta do Zé ficou sem resposta.], cruzamos a via férrea, em frente ao portão de entrada e saída dos caminhões no pátio interno na lateral da Usina Putiú, atravessamos a ponte sobre o valente e amado rio dos camarões, subimos pela Dom Bosco, a ladeira dos salesianos, margeamos a praça de Santa Luzia e o edifício modernoso – para a época – da agência do Banco do Brasil, até que chegamos ao nosso etílico destino: o bar de piso elevado, em cinco ou seis degraus, em relação ao leito da via mais central e importante, economicamente falando, da centenária cidade, quase vizinho à filial da Casas Pernambucanas que, alguns anos depois de mudar a razão social para Lojas Pernambucanas, ingressaria em irrecuperável processo de liquidação judicial, de que resultaria o inevitável encerramento das atividades.

[Dizia-se, à época, que toda cidade grande do interior devia ter quatro ou cinco autoridades, quais fossem: o prefeito, o vigário, o juiz de direito, o delegado e o gerente do BB; Baturité tinha seis – incluía-se nesse seleto rol o gerente da Pernambucanas. E o Comendador Ananias Arruda?, alguém até poderia perguntar. E eu responderia, de pronto: – Em verdade, em verdade lhe digo: ele era hors-concours. (*)]

A boa recepção de sempre. O já tradicional bom papo à base de generosas doses do estomacal, como bem dizia o João Batista, o do cartório. Às onze, retornamos ao aconchego de nossos lares, ouvindo, ao longe, sons bem característicos que denunciavam a expressividade da festa mais popular e frenética da humanidade.

No domingo, acordei em perfeito estado de conservação, sob o comando do meu relógio biológico, que muito dificilmente falha. Tomei uma meia xícara de café preto, forte e quente e, ante a recorrente advertência de meu pai – Cuide-se, rapaz! Vida só dispomos de uma... –, desci calma e tranquilamente até à pracinha do bairro.

Logo, o quarteto se recompôs e, no aconchegante e familiar restaurante de dona Alaíde do Chico Pedrosa (no mesmo prédio comercial do bar do Miguel, também Pedrosa, na esquina mais próxima da estação ferroviária, entre eles a estradinha de pedra tosca que, adiante tornada carroçável, vai dar lá pras bandas dos Coiós, o de Baixo e o de Cima), de cuja cozinha caseira emanava um cheiro que estimulava as glândulas gustativas de todos nós, assumimos uma das mesas de madeira, de quatro cadeiras, quase ao pé do balcão de atendimento, com um único tipo de fome a saciar: a do suculento e saboroso caldo de carne moída, especialidade da casa, servido em vasilhames de cerâmica pura que mais pareciam pequenas bacias ou alguidarezinhos e guarnecido de fatias de pães d’água há pouco saídos dos fornos à lenha da padaria dos portugueses – a Lusitana, da família Simões, se não me trai a memória, com três altas portas de frente e extenso balcão, na 15 de Novembro, defronte ao outro portão de acesso ao Mercado Público.

Mal começamos o saboreio do substancioso manjar, nenhuma palavrinha qualquer sequer trocada entre nós, o Zé Elias levantou-se abruptamente, empurrou para trás com as longas pernas a cadeira que quase esbarra no balcão, lançou bruscamente a colher contra o tampo da mesa, saiu rapidamente porta a fora e, já correndo, dirigiu-se a uma das três castanholeiras que guarneciam a lateral da casa do mestre-de-linha, à época o seu Expedito, senhor de vasta prole, com destaque para o Edmarzinho, um 5 de marcação firme, de desarmes efetivos e reposições de bola eficazes, habilidades que, no conjunto, viriam a definir a função de volante.

Nós também abandonamos a mesa e, preocupados, seguimos o Zé que, tão logo se aproximou do tronco da árvore, nele apoiou-se, curvou-se e fez jorrar, febrilmente, tudo o que bravamente retinha na boca, regurgitando, na sequência, o que já agasalhara no estômago. Já não tendo mais o que expelir, voltou-se para nós com cara-de-quem-comeu-e-não-gostou, literalmente, confidenciando-nos:

– Uma barata! Tinha uma barata no caldo! No meu caldo! – Inspirou profunda e longamente. E nós, perplexos, silentes mantivemo-nos. – E eu a espremi entre a língua e o céu-da-boca. Sinto o estômago querendo virar-se ao avesso.

O Jaime lhe ofereceu um copo d’água. Ele sorveu metade do conteúdo, bochechou-o e lançou-o fora. Repetiu tal ato. Revelou, então, um certo alívio.

Eu retornei à calmaria do restaurante. A sensação era de que nada tinha acontecido. Da cozinha, alguém quis saber o que sentira o Zé. Justifiquei o insólito fato como consequência da bebida por nós ingerida na noite do sábado: o estomacal. Paguei a conta, conforme combinado com meus parceiros que já conduziam o amigo até à sua residência, no outro lado do traçado de linhas férreas, para onde também segui tão logo me desembaracei.

A partir de então, jamais nos dispusemos a sentir novamente o tão convidativo cheiro que continuava emanando da cozinha de dona Alaíde do Chico Pedrosa, a quem – nós logo reconhecemos – culpa nenhuma cabia. Afinal, tinha sido algo incidental, devendo, portanto, ser tratado como tal.

(*) Nomenclatura de origem francesa, significa “fora do concurso” ou ” fora da competição”, por méritos. Pronuncia-se /ór concur/.

 

III.

28 DE JUNHO, SÁBADO. NOITE FRIÍSSIMA. CHOVERA QUASE O DIA TODO, desde a boquinha da noite da sexta-feira, com o sol aparecendo anemicamente só no meio da tarde. Eram as chuvas derradeiras de um inverno intenso que, iniciado na quadra carnavalesca, na última semana de fevereiro, prolongou-se até os últimos dias de junho. No curso desse período, houve registro de precipitações que marcaram época. E tudo isso significava, apesar dos sustos, dos temores, fartura na mesa dos sertanejos, bem como na de todos nós. Por ser véspera do dia consagrado a são Pedro, as chamas das fogueiras, de poucas e frágeis labaredas, crepitavam na luta para consumir a madeira de miolo ainda úmido.

No início da noite anterior, em desavença movida por ciúmes – ela soubera antes de mim que aquela que nascera para ser a minha eterna parceira já teria chegado ao Putiú, vinda da casa dos pais em Caucaia para passar o mês de férias na casa dos avós, e isso equivalia, para ela, a um grande risco que certamente não desejaria correr –, rompi, unilateralmente no primeiro momento, um namoro que, ao sentir de muitos, tinha destino certo: a união de corpos e almas, pela lei dos homens e pelo rito divino. Assim, eu me considerava, a partir de então, solteiro e solitário, ou, em outros termos, sem qualquer compromisso amoroso, embora ainda sentisse efeitos da inesperada ruptura, mormente pela forma como tudo acontecera.

Quando pisei no primeiro dos três desiguais e desnivelados módulos que compõem a pracinha do Putiú, duas opções se me ofereceram: a resenha pós-racha no bar do Miguel, por nós respeitosamente chamado de Meu-Santo, sempre acompanhada do excelente atendimento da casa, quer na cerveja sempre gelada, quer no tira-gosto apetitoso; e a tertúlia de inauguração do salão em que em breve se instalaria o novo comércio do Dedé da Bodega (marido de dona Maria Lima, respeitável professora, e irmão do seu Pedro, por muitos chamado de Pedro da Miséria – nunca atinei o porquê disso –, o mais bem sucedido comerciante daquelas paragens, dono da mais sortida mercearia da região, ocupando todo o térreo do sobrado cujo andar de cima servia de residência ao notável empreendedor, vocábulo ainda desconhecido àquela época, mulher e filhos), que adquirira e reformara a velha casa com ponto comercial onde mais recentemente funcionara o boteco do Américo do seu Henrique, o enfermeiro e motorista da ambulância do Samdu, ali entre o casarão em que residira a família do seu Antônio Pereira, o mestre-de-linha que viria a ser o meu sogro, e o de domicílio da família do seu Vicente Matias, um dos abnegados servidores – popularmente conhecidos como “mata-mosquitos” – do Departamento Nacional de Endemias Rurais, o DNERu, com agência sediada na 15 de Novembro, vizinho ao BAC, o clube comercial.

Optei pela tertúlia. Na calçada, grupos de jovens conversavam animadamente, enquanto paqueras aconteciam, de cuja evolução resultava a formação de pares de dançarinos e, se a química reagisse satisfatoriamente, dali certamente sairiam casais de namorados.

Não demorou muito e um par dançante chamou a minha atenção. A minha paixão de adolescente que, apesar das idas e vindas, mexia profundamente com os meus sentimentos de romântico tímido, dançava com o Zé Aurino do seu Expedito, o mestre-de-linha, jovem respeitado pelo QI acima da média e conhecido pelo donjuanismo, tão conquistador quanto o meu irmão Olavo, os quais, segundo os maledicentes, compunham um grupo de jovens que conseguiam manter três ou quatro namoradas na cidade e, a cada noite, com uma delas ficar, mentir para as outras e enganar a todas.

E ela com o galanteador bailava. E, porque eu a amava, sempre a amei, não podia admitir que de mim a roubassem assim, sob o meu olhar de apaixonado. E, como eu exercia uma certa influência sobre muitos daqueles jovens, em face de ser professor cenecista, lecionando múltiplas disciplinas no Centro Educacional Joaquim Nogueira, onde quase todos ali estudavam, incluindo o meu rival circunstancial, adentrei calmamente o salão de danças, dirigi-me ao casal e, como nos romances escritos em livros, eu, o protagonista, pedi ao antagonista que me cedesse a vez de com a minha amada também dançar. Não houve objeção. Ao contrário, acolheram o meu pleito. Então, dançamos – eu e ela; ela e eu – como em outras ocasiões: rostos colados, corações transbordando felicidade pelo reencontro… e a sensação de que todos os olhares se voltavam para nós.

Ao sairmos dali, sentamo-nos em um dos bancos da pracinha. Rendemo-nos ao império do amor. E ali, na friíssima noite de véspera de são Pedro, selamos um novo acordo: o início de uma nova fase em nosso venturoso relacionamento com uma meta bem definida: o casamento, que se realizaria um ano e meio depois.

Na segunda-feira, 30, mal iniciara o expediente, um garoto chegou de bicicleta à agência do IBGE, no prédio onde por muitos anos funcionara o Tiro de Guerra, equipamento de formação de pessoal, pertencente à Polícia Militar do Ceará, ao lado do Paço Municipal, o Palácio Entre Rios, e fronteiriço à Quadra de Esportes General Mário Ramos, na praça da Matriz, aproximou-se da minha mesa de trabalho e, ofegante, me entregou um envelope branco, médio, sem indicação de destinatário nem de remetente, dizendo: Professor, é pro senhor. Não me pergunte quem mandou porque não vou dizer. E, do jeito que veio, se foi.

Abri o envelope. Dentro, um cartão com desenho a bico de caneta esferográfica: um insensível canhão de guerra ameaçava uma frágil flor amedrontada, sob pingos de chuva. Rasguei-o em pedacinhos, com a mesma tranquilidade de quem enfrenta uma classe de cinquenta adolescentes. Joguei tudo na cesta de lixo e retomei o meu trabalho, como se nada houvera acontecido.

E a minha vida tomou outro rumo. O caminho que ainda percorro. Com a minha eterna parceira.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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