Todo poder vertical é socialmente nocivo

​O capitalismo é hoje one world. Somente nos confins da Amazônia, onde ainda existem grupos indígenas isolados sem contato com outras etnias humanas, é que subsiste o sistema originário das comunidades humanas de coleta e partilha comunitária.

​Mas, paradoxalmente, é no exato momento de sua completa vitória expansionista mundial que ocorre o seu limite interno de expansão e ele definha inexoravelmente num fenômeno irreversível sob sua lógica e que é complementado pelo limite externo representado pela crise ecológica do aquecimento global decorrente da irracionalidade de sua ação predatória.
​A evolução do ser humano das sociedades comunitárias primitivas para os núcleos sociais mais habitados coincidiu com o surgimento de um processo de escravização direta do homem pelo homem.

Exemplo da não simultaneidade da escravização humana mundial é que antes, nas Américas isoladas da chamada civilização do velho mundo, não se escravizava ninguém.

​A escravização direta é filha do escambo, fenômeno social representado pela troca de excedentes de produção de determinados grupos de indivíduos ou mesmo de pessoas isoladamente, momento no qual se criou a ideia de valor representado pelo tempo de esforço físico na produção de bens destinados à troca.

​Cada produto ganhava, no escambo, uma personalidade adicional ao valor de uso: o valor de troca. Esse fenômeno consta da primeira parte de O Capital de Karl Marx, quando tratou da forma mercadoria, como se ele quisesse afirmar que toda a construção da relação social negativa sob a qual vivemos decorresse da introdução e adoção desta forma de produção social entre os humanos.

​O capital se desenvolveu, mesmo que de modo contraditório e segregacionista incorporando no seu entorno auxiliar toda uma gama de instituições e regras jurídicas destinadas a justificar o injustificável (o direito negando o direito – fas e jus) e entre suas instituições a criação de um poder militar profissionalizado fruto de sua lógica opressora e belicosa.

​Toda a ideia de poder político centralizado decorre de uma base socialmente segregacionista que pela sua natureza intrínseca opressora formata uma sistema jurídico-constitucional à sua imagem e semelhança.

​O republicanismo burguês nascido da doutrina denominada iluminismo, por se pretender trazer luz ao sistema de trevas da idade média com o feudalismo, representou uma evolução em relação ao poder vertical monárquico-eclesiástico-aristocrático de então ditada pela necessidade de expansão mercantil do capital nos burgos (núcleos feirantes onde se comerciavam mercadorias dos produtores individuais, que deu origem ao termo burguesia).

​A revolução francesa com suas marchas e contramarchas é o momento simbólico que no final do século XVIII promoveu uma virada política numa luta revolucionária que se estendeu por grande parte do século XIX até a consolidação do republicanismo no velho mundo ocidental servindo como exemplo de organização política mais moderna para grandes partes continentais do Planeta.

​A república e sua estrutura tripartite (poderes executivo, legislativo e judiciário) representou a descentralização do poder político sob as ordens do capital para melhor servi-lo.

​Com a república se conjurou o feudalismo e sua escravização direta. Adotou-se, então, como norma de conduta dita mais civilizada, a escravização indireta do trabalho abstrato produtor de valor, ou seja, adotou-se uma forma política descentralizada a serviço de uma relação social baseada na forma valor (dinheiro e mercadorias), despótica na economia, e supostamente democrática na política, com o povo explorado pelo capital ainda tendo que custear, via impostos, toda a estrutura de sua própria opressão.
​No feudalismo imperava a doutrina fisiocrata, na qual a política era o poder em si enquanto representação do poder aristocrático; no capitalismo impera o mercantilismo e a política é a representação submissa e serviçal do capital; os políticos não têm vontade soberana e apenas governam e legislam de acordo com as ordens do capital.
​Mas o que parecia eterno e definitivo como fim da história era contraditório e insustentável no longo prazo, e eis que o capitalismo atingiu o seu ponto de saturação tornando a vida social insuportável e a vida política conturbada.
​O Estado falido; a economia em depressão; e o Planeta aquecendo e tornando estéreis algumas regiões com catástrofes climáticas cada vez mais intensas em outras configura-se como um quadro apocalíptico.
Mas mesmo diante dos problemas nos quais os trabalhadores são as maiores vítimas, e deveriam ser os maiores interessados na superação desse tipo de relação social socialmente negativa, eles não sabem que tudo começa pela superação (e não de reformas mais civilizadas) das suas próprias condições de trabalhadores abstratos; do capital como forma de mediação social; e com a horizontalização do comando popular sob nova organização jurídico-administrativa-social de base.
A verdade é que hoje se observa que o comando econômico apoiado pelo comando político que o serve não quer largar o osso, e aí toda a humanidade corre o risco de extinção pela própria irracionalidade.
​O capital; os empresários sob suas ordens como beneficiários mais diretos das benesses do lucro vulnerável pelo regime concorrencial de mercado, mas acumulado e sob seu controle; os políticos como beneficiários do poder político e da estrutura estatal, subjugam o povo que sustenta a tudo e a todos.
​Não é o povo que está acima de tudo e nem Deus acima de todos, mas é o Deus do valor que a tudo comanda, destrói e se autodestrói.

​Os eventos de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio;
]​- o vandalismo de 8 de janeiro deste ano de 20223 nos três poderes da República no Brasil;
​- ascensão na Alemanha de partido de direita (de orientação nazista) sob a sigla AFD – Alternativa para a Alemanha, com muitos adeptos;
​- ascensão do partido de direita na França, sob o nome Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, bem representado socialmente;
​- ascensão da direita ao governo da Itália, sob o Partido Irmão de Itália, com Giorgia Meloni;
​- permanência do governo de Recep Tayyip Erdogan na Turquia, desde 2014, com poderes totalitários de direita;
​- reeleição totalitarista pelo quarto mandato de Viktor Orbán na Hungria, pelo partido Fidenz, de extrema direita;
​- ascensão na Polônia do partido lei e justiça, considerado de extrema-direita;
​- reeleição continuada de Vladimir Putin, no governo da Rússia, de cunho totalitário e associado a uma casta de mega milionários que compraram as estatais e detém monopólio econômico em vários setores da economia russa;
​- manutenção do regime totalitário chinês na política e liberal na economia sob um capitalismo selvagem e predatórioi;
​- manutenção de governos totalitários na Venezuela de NIcolás Maduro na Nicarágua de Daniel Ortega;
​- reboliços à direita e à esquerda na Bolívia e no Peru, onde nos últimos dias já morreram cerca de 50 pessoas;
​- totalitarismo hereditário na Coreia do Norte;
​- desencanto com a revolução cubana na qual foram preservadas as categorias capitalistas como forma de mediação social (não poderia haver mesmo a superação do capitalismo numa pequena ilha de pouco mais de 10 milhões de habitantes, ainda que os negros de lá vivam bem melhor do que os seus irmãos de raça da América latina);
​- em Israel se avolumam hoje manifestações contra Benjamin Netanyahu; e para citar apenas alguns casos.

São movimentos que representam a saturação de um modelo (tal qual aconteceu em 1848 na Europa, com a transição feudal para o capitalismo republicano) e têm, todos, uma mesma gênese, ainda que sob processos políticos diferenciados qual seja
A CRISE DO CAPITALISMO E A INSATISFAÇÃO POPULAR CAPTURADA PELA DIREITA COM POLÍTICOS QUE SE APRESENTAM COMO SALVADORES DA PÁTRIA, DIANTE DA INEFICÁCIA DOS POSTULADOS SOCIAIS-DEMOCRATAS SOB O CAPITALISMO.

​No Brasil, em que pese os esforços de Ministros credenciados para a defesa dos avanços civilizatórios a serem restaurados, certamente que vamos esbarrar na maior crise do capitalismo desde a depressão de 1929/1930, e o governo de Lula já anuncia métodos antigos para a solução de problemas cuja intensidade se apresenta como completamente novos.
Isto deverá causar insatisfação popular que a direita ora contida pela postura mais previdente da elite brasileira de setores que vão desde empresários da Fiesp a governadores e parlamentares, passando pelos altos escalões do judiciário e comando militar, deverão usar todo a seu poder de persuasão em seu favor colocando para funcionar o tradicional pêndulo da ineficácia política.

​Quem viver verá.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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