Tirar o bode da sala, resolve?

“O Estado é a negação da humanidade.

Mikhail Bakunin

Todos conhecem a fábula sobre o alívio da retirada do bode da sala, ainda que tudo continuasse ruim. Não preciso contá-la. Entretanto, cabe a análise perfeita da atual situação brasileira usando-se a metáfora de tal fábula.

Chegou ao fim o Governo do capitão Boçalnaro, o ignaro, e seu clã desastrado que faz lembrar aos mais antigos as incríveis histórias em quadrinhos (HQs) dos sobrinhos do capitão que só produziam encrencas.

Trata-se de uma múmia empalhada com a faixa presidencial que já não governa, mas prejudica a todos, pois, fragilizado, está nas mãos do que há de mais fisiológico da política brasileira, o chamado centrão.

Contudo, sabemos que tão logo o centrão perceba a fragilidade e antipatia da grande maioria, aí incluídos até mesmo de antigos correligionários, como os donos do PIB do Brasil, os empresários daqui e estrangeiros que aqui atuam por seus prepostos executivos, e que se sentem prejudicados pela incompetência assombrosa, abandonará(ão) o barco.

Os militares fardados também não embarcarão numa aventura de comprometer a função primordial do Exército ao dar respaldo a quem hoje é antipatizado por uma maioria expressiva da população brasileira e, como dissemos, principalmente pelo empresariado que não aguenta mais a contradição política entre nacionalismo militarista primário e liberalismo econômico frustrado que lhes prejudica.

Podem optar por deixar com que o governo que aí está se decomponha na própria anemia progressiva, e aí o prejuízo será ainda maior do que o que já experimentamos.

Entretanto, é mais fácil que apoiem a sua destituição, até porque o Vice é um General do Exército com mais estofo de conhecimento e mais graduado como patente militar. Os Generais somente chegam a este posto quando depurados pelo histórico de vida dentro do padrão militar irrepreensível e exigente disputa política interna de promoções, e não se sentem confortáveis em serem dirigidos incompetentemente por um membro de suas hostes que teria sido dela defenestrado.

Em nossa república brasileira, tão acostumada a governos militares desde a sua proclamação por eles instituída via Marechais, sabemos que o Exército sabe recuar quando lhe convém; foi por isso que Getúlio se suicidou, sabendo desse cuidado oportunista, e abortou sua deposição e entronização de um governo militar que só viria a se consolidar quase dez anos depois.

Com o avanço do tempo e a perspectiva de novos cenários eleitorais dos quais estarão excluídos os que agora ainda permanecem no núcleo duro do poder, o abandono do barco será ainda maior. É sempre assim, os ratos da política fogem do navio quando o naufrágio é inevitável.  

Como antítese do Lula, que escolhera para ser seu adversários predileto em razão do desgaste do governo Dilma, apadrinhado por Lula, e com a avalanche de notícias diárias de prisões televisadas ao vivo de executivos do governo e políticos e empresários que lhe davam sustentação no Congresso e na economia, o líder do PT era o adversário perfeito. O poste Haddad, melhor ainda.

Entretanto, e paradoxalmente, hoje, o capitão foi rebaixado a maior cabo eleitoral do Lula. Explico.

Com sua incompetência governamental ele fez o povo sentir saudade do Lula e a opinião pública desmemoriada pode absolvê-lo da conciliação espúria, acrítica, e fisiologismo corrupto. Por outro lado a esquerda institucional e partidária, de olho nas tetas do Estado e nas boquinhas do poder, exulta diante da possibilidade se reinstalar no governo.

Mas, pergunto novamente: tirar o bode da salaresolve? Não, não resolve, mas pode aliviar.

Mas o que é mesmo “aliviar”? Significa mudar algo, para que nada mude, principalmente agora, que vivemos um dos momentos da história que representam a conjugação de fatores numa tempestade perfeita.

Pari passu a uma depressão econômica que vinha se acentuando desde 2019 e anunciada pelos organismos econômicos internacionais como FMI e OCDE (entre outros) como mais intensa nos anos vindouros, veio uma pandemia que obrigou os países ao isolamento social e ainda está causando um número de mortes e sequelas físicas na população, que são próprias a uma guerra mundial.

A uma amiga pessoal que me perguntava se eu via diferença entre um governo como o que temos e um governo de esquerda, do ponto de vista do interesse da população, respondi que sim; havia e há.

Os governos conservadores, de vieses totalitários e defensores dos privilégios de um determinado segmento social, e sempre desejosos da pretensa manutenção da ordem social, privilegia a economia em detrimento das necessidades sociais; os governos de esquerda (com variações de intensidade dependendo do matiz ideológico mais ou menos sensível) são normalmente mais receptivos ao atendimento das necessidades sociais em momento de aguda crise. Esta é a diferença.

Mas como ambos defendem a preservação das categoriais capitalistas em funcionamento como se fossem coisas naturais e resultantes dos ganhos da civilização, sem superá-las e substituí-las por uma mediação social que atenda às exigências dos ganhos científicos adquiridos pela humanidade, terminam sempre voltando ao ponto de partida: o desgaste por incapacidade mínima de solução dos problemas sociais.

Os conservadores, nacionalistas ou liberais (que não se conciliam em razão da contradição de interesses políticos estratégicos) entendem que o capitalismo bem administrado pela intervenção do Estado (máximo ou mínimo) resolve tudo.

Os segundos, sociais democratas e socialistas, acreditam na capacidade de regulação e equilíbrio das relações sociais e mercantis pela mão do Estado máximo, proprietário dos meios de produção que consideram estratégicos.

Corrupção com o dinheiro público à parte, vez que é comum a todas essas correntes políticas, vez que é sempre ela, sob as mais diferentes formas, o que subsidia interesses político-eleitorais e privados.

Ambos estão equivocados, seja pela incompreensão da essência destrutiva e autodestrutiva da mercadoria, seja por má intenção absolutista de poder econômico e político, no primeiro caso, ou por oportunismo acomodado ou ingenuidade bem intencionada, que lota o inferno, no segundo caso.

A esquerda adestrada quer humanizar o capitalismo. Quer os seus benefícios de poder político e boa convivência com os donos do capital, ao mesmo tempo que pretende defender os interesses da classe trabalhadora assalariada, sem superar a exploração que lhe é intrínseca.

Algo assim como acender uma vela a Deus (que consideram como sendo os trabalhadores, que querem conservar existindo e que são a matéria prima do capitalismo excludente e deles mesmo explorador, como fazem todos os partidos trabalhistas do mundo, inclusive o PT) e ao diabo (o empresariado, que é apenas a outra face de uma mesma moeda, literalmente).

Lula é a expressão mais bem acabada dessa esquerda, e não esconde isso. Para atingir tais objetivos ele beija a mão do capeta e diz ao crapuloso que não tenha medo, e dá provas disso quando afirma, p. ex., conciliador e submisso, que “em meu governo os bancos nunca lucraram tanto.”

Mas, para tristeza de tipos como Lula, o capitalismo não dá certo, e mais grave, a exploração dos trabalhadores não está desaparecendo pela interveniência sindical e política que a ratifica, mas pela ação do próprio capital que a substitui pela máquina (que não faz greve e trabalha 24 horas seguidas, sem salário) como forma de vitória na guerra concorrencial de mercado.

Entretanto, o empresariado que lucra com isto individualmente, não percebe que assim reduz a massa global de valor produzido socialmente e decreta o seu próprio fim, posto que inviabiliza o capitalismo como modo de mediação social minimamente sustentável.

Agora, mais do que antes, para o capital a morte dos desnecessários na produção de mercadorias é a solução; esse é o intuito inconfessado e talvez até inconsciente, mas politicamente oportunista da orientação do governo que aí está.

A exploração dos trabalhadores se torna desnecessária, em grande parte, vez que é substituída pelas máquinas, e a classe trabalhadora perde força reivindicatória, morrendo de várias formas, desde a fome, o desespero do desemprego, ou pela violência nos guetos. São vítimas da desumanidade de um sistema que eles mesmos sustentam, e que a esquerda, mesmo quando age involuntariamente, insiste em manter vivo.

Mas, paradoxalmente, o capital, ao matar a galinha dos ovos de ouro, ou seja, a exploração da classe assalariada que produz mercadorias e serviços (leia-se valor, dinheiro), mata a si mesmo, e leva junto todos os políticos que lhe dão sustentação, aí incluídos os seus pretensos e conciliadores adversários toleráveis, como Lula.

Nos meus quase 71 anos de vida (a completar em abril próximo) espero viver o bastante para ver algo diferente do eterno pêndulo da ineficácia entre governos de direita democráticos ou ditatoriais absolutistas (como Bolsonaro e Nicolas Maduro) e de esquerda adestrada, democrática (como Lula).

Espero ainda alcançar o início de uma nova ordem jurídica de organização social horizontalizada, que negue o poder vertical, e adote um novo modo de produção social capaz de suprir as necessidades de consumo e promover uma nova moral comportamental e uma ética que lhe seja coincidente.

Tirar o bode da sala resolve? Alivia, mas não resolve!

Dalton Rosado.  

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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